O aposentado José Franco Sobrinho, 69 anos, é daquelas pessoas difíceis de descrever. Simpático e generoso, ele faz do seu quintal um espaço especial onde passa horas felizes ao lado das plantas, pássaros e insetos atraídos pelo perfume dos frutos, flores e folhagens que ocupam parte dos cerca de 900 metros quadrados do imóvel.
Como se não bastasse cultivar e respeitar os seres vivos, seu José, como é conhecido, ainda distribui os frutos gerados em seu quintal para todos aqueles que transitam pela rua de sua casa, na região central de Iacanga. Das flores e folhagens, ele faz mudas que são colocadas na calçada para que aqueles que gostam levem para casa.
O “ritual” da distribuição das frutas e mudas de plantas começa cedo, com a preparação daquilo que será disponibilizado às pessoas. Seu José colhe as frutas no pé, sobe em escada para apanhar aquelas que nascem nos galhos mais altos, e coloca tudo em uma bacia.
Depois de lavar uma a uma, ele enxuga e coloca para secar em uma varanda ainda no quintal. Em seguida, as frutas, caso dos caquis, vão para a geladeira. Para seo José, frutas fresquinhas ficam mais saborosas e prontas para serem deliciadas.
Quando chega o sábado, seo José coloca as frutas em bandejas de isopor que, sobre um papelão bem recortado, vão para a frente da casa, dispostas em uma lixeira devidamente higienizada. As frutas não dram muito no local. Rapidamente, os transeuntes vão se deliciando com as frutas e agradecendo o doador delas.
Na doação das mudas, o ritual é mais demorado. Assim que as plantas fornecem a oportunidade, ele vai fazendo as mudinhas em caixas de leite, latinhas e todo todo vasilhame que permitir. Quando chega o sábado, ele disponibiliza as mudas na calçada. O detalhe é que todas as mudas são acompanhadas de etiquetas, escrita por ele mesmo, com o nome da planta.
Generosidade não falta ao seo José. De maneira fácil e simples, ele pratica a divisão de seus “tesouros”. “A natureza me brinda e eu reparto esses bens naturais. Não sei nada sobre cada espécie. Já tentei tirar mudas de várias plantas e não consegui. Não desisto, vou tentando, uma hora vinga. No meu quintal é possível ver e ouvir os pássaros, abelhas e outros insetos. Isso não tem preço.”
O iacanguense faz questão de dizer que não produz mudas de plantas em alta escala para doações. “Não é para pensar que estou produzindo mudas. Faço isso por hobby. As pessoas que passam aqui na rua já estão acostumadas com isso. Se cada um que plantar uma muda também fizer outras e distribuir, vamos respirar melhor, vamos fazer bem ao planeta.”
Fazendo amigos
Seo José não admite e vai logo dizendo que apesar de ter ficado viúvo há oito meses, nunca sentiu solidão. Mas a atitude dele demonstra claramente que ele gosta de se relacionar com as pessoas e usa esse artifício para conquistar novas amizades.
A situação fica clara no momento em que ele disponibiliza as mudas de plantas e frutas na calçada. Logo, os transeuntes param e pegam as mudas. De quebra, levam um papo com o aposentado, sempre pronto para dizer onde e quando conseguiu a planta que gerou as mudas.
“Outro dia, fui a Bauru. Encontrei na rua, jogado, um cacto. Trouxe para casa, tratei e fiz mudas. Hoje, já estou distribuindo. Não procuro saber a espécie e nem quais os cuidados que elas requerem. Meu negócio é fazer mudas e distribuir”, avisa.
Ele explica que no quintal não usa adubos químicos, transforma as folhas em adubo. “Aqui tudo é natural. Passo algumas horas no quintal. São momentos especiais, porque sempre gostei de plantas. Morei em São Paulo e não tinha espaço para plantas. Quando aposentei, vim morar em Iacanga, onde residem meus parentes. Aqui tenho espaço suficiente.”
Maria Aparecida Costa Ferreira, que mora nas imediações, acha interessante o trabalho do seo José. “Eu já levei mudas de plantas.”
O planeta agradece
Thiago Rodrigues Alves de Oliveira tem uma tia que mora nas imediações da casa de seo José. Quando vai visitá-la, observa o trabalho do aposentado. “Já levei muda de jabuticaba. Acho que a doação de seo José ajuda o planeta e nós só temos muito a agradecer.”
Para Cátia Aparecida Batista Moreira, que degustou um caqui madurinho e doce que estava na frente da casa do seu José, num momento em que as pessoas se voltam cada vez mais para si, o trabalho do aposentado deveria ser seguido.
“Ninguém se interessa mais por dividir as coisas que têm. Aqui, todo mundo passa e leva. Meu irmão tem um sítio e parte do pomar dele foi formado com mudas que levei do seo José.”
Ivan Lopes Correia mora nas imediações e sempre que encontra frutas na frente da casa de seo José. “Já comi caqui, manga, abacaxi. Seo José é muito generoso. É muito agradável perceber que ele faz tudo isso com o coração. Sempre que passo, converso com ele e agradeço.”
Doando para amigos e vizinhos
O advogado Alexandre Márcio de Souza Abdala encontrou uma maneira de se livrar do estresse diário. Com um quintal de mais de mil metros, o iacanguense está formando um pomar e é ali que ele passa horas inesquecíveis ao lado das duas filhas. “Eu me desligo de tudo quando estou mexendo com as plantas no quintal. São momentos bons, de pensamentos bons, que me ajudam a prosseguir.”
Com as ajudantes, o advogado, planta, limpa, aduba e colhe os frutos que são distribuídos entre os parentes, amigos e vizinhos. “A produção de banana é maior do que o consumo de casa. Quando elas ficam no ponto, eu as colho e divido. Atualmente, tenho limão, laranja, manga, caju, pitanga, mexerica, lichia, manga e lima.”
Além do contato diário, passa cerca de uma hora no “pomar”. Ele frisa que a presença de pássaros é outro brinde da natureza. “Aqui somos visitados por várias espécies de aves que nos brindam com seu canto e fazem a rotina ser mais saudável.”
Muitas vezes, lembra Abdala, ele coloca banana madura no chão e fica apreciando os pássaros. “Eles chegam para se alimentar. Para nós é um presente da natureza. São momentos muito especiais.”
Flores, frutas e as plantas medicinais transformam a temperatura do espaço
Quem entra do quintal da dona Fumiko Okazake Miazak em Iacanga (50 quilômetros de Bauru) pensa logo que está entrando em uma chácara. A primeira mudança é na temperatura. O quintal é muito mais fresco e ainda exala um “perfume” típico da mistura de flores, plantas medicinais e frutas.
Descendente de japoneses, a mulher que já completou 74 anos não dispensa o trabalho diário com a natureza. Todos os dias, pela manhã, antes do sol ficar muito forte, ela vai para a pequena “roça” e faz aquilo que fez a vida toda, cuidar de plantas.
Conta com orgulho que tem mais de dez pés de mandioca e que é da branquinha, daquela que derrete se a cozinheira esquecer na panela de pressão. Em meio às flores que ela não sabe definir a espécie, dona Fumiko vai contando parte de sua história. “Aos 7 anos perdi minha mãe. Aos 17, me casei. Fiquei viúva e perdi um filho. É no quintal de casa que me distraio.”
A horta, segundo ela, quase acabou por conta da alta taxa cobrada pela distribuição de água. “Antigamente, a água não era cobrada. Horta requer rega diária. Temos um canteiro de couve e de alho japonês, mas já plantei cenoura e quiabo. Gosto de colher verduras e levar diretamente para a mesa.”
No quintal dela é possível encontrar limão taiti, manga, tamarindo, romã, mamão, jabuticaba e carambola. As rosas vermelhas são as preferidas de Fumiko, mas ela mantém muitas folhagens, trepadeiras e todas as espécies que encontrar. “Uma vai se misturando a outra.”
Processo de distribuição
Fumiko Miazak é conhecida como dona Amélia entre suas freguesas de cosméticos, que ela vende de porta em porta. Os frutos, flores e hortaliças de seu quintal, além de ir para a mesa e se tornarem fontes de vitaminas, vão também para a casa das clientes. “Eu distribuo para elas. É um agrado que eu faço. São todas minhas amigas.”