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Silvia Molan - nossa preciosidade

Benedito S. Guedes de Azevedo
| Tempo de leitura: 3 min

No sábado, dia 31 de março, a Universidade Sagrado Coração ofereceu a Bauru a oportunidade de ouvir a pianista Silvia Molan, que podemos considerar a mais preciosa prata da casa, embora tenha nascido em Jaú. A apresentadora do evento foi a dama da música clássica de nossa cidade, a dra. Rosa Tolan, que por sinal foi professora da Silvia. Rosa dissertou sobre cada peça e seus compositores, tornando a experiência de ouvir as obras- primas mais significativa e compensadora.

Silvia, vencedora de vários concursos, viaja para a Alemanha, onde seu talento certamente vai ser reconhecido como a sucessora da grande Guiomar Novaes. Nós, de Bauru, podemos nos orgulhar, pois essa estrela vai brilhar! Silvia não deixou de nos encantar ainda mais com progresso em direção à perfeição após o Concurso Prelúdio e sua participação no Festival de Inverno de Campos de Jordão. Sua técnica está brilhante e seu comando de dinâmica da sonoridade que consegue reproduzir do instrumento nos lembra de um casamento perfeito entre artistas e instrumento.

Silvia começou o concerto tocando uma das Sonatas de Beethoven conhecida como Sonata, quase uma fantasia em quatro movimentos, onde cada movimento apresenta temas, tempos e harmonias distintas, começando com um andante de grande sutileza, leveza e melodias deslumbrantes que exigem da artista profundo controle e afinidade aos desígnios do compositor. Silvia usou todos os recursos que o piano moderno pode oferecer, como o uso do pedal "sustenido" para destacar sons específicos de notas que devem sobressair sobre as outras. Se o pedal não for acionado no momento exato, o efeito pode ser confuso, mas Silvia demonstrou sua afinidade com o instrumento e conhecimento exato para produzir fortes, fortíssimos, seguidos subitamente por pianíssimos celestiais.

Eu esperava o ponto alto do concerto quando Silvia interpretasse o maravilhoso Carnaval de Schumann, mas Silvia já começou o concerto como uma explosão de uma supernova com um brilho tão intenso que nos forçou a cogitar, depois de tamanho fulgor e bravura, o que poderá fazer jus? Me lembrei da famosa frase de Brahms: "Quem pode pensar em compor uma sinfonia depois da Nona de Beethoven?"

A segunda peça foi o estudo opus 10, número 8, de Chopin, uma peça que exige muita técnica e fluência da mão direita que desliza em arpeggios brilhantes enquanto a mão esquerda fornece o tema lírico e rítmico. Silvia soube dosar a dinâmica com perfeição, pois é muito comum se entusiasmar e enfatizar o tema muito cedo na peça, não deixando espaço para momentos de mais ênfase ao correr da peça. Os sons que Silvia produziu me lembraram de um riacho alpino sonoro e cristalino correndo por sobre rochas alvejantes. Esta peça foi seguida por Festa na Horta, de Villa Lobos, uma peça não muito conhecida devido às exigências técnicas ao intérprete, exigências essas que Silvia dominou com segurança e total virtuosidade.

Finalmente, para terminar, chegou a hora do Carnaval de Schumann, a obra-prima que consagrou Guiomar Novaes como a primeira dama do piano, segundo um dos maiores críticos musicais de San Francisco, que assistiu ao concerto de Guiomar Novaes em carmel. Tive o privilégio de assistir esse concerto e presenciar a plateia extremamente exigente de Carmel que geralmente aplaude respeitosamente, contudo, sem mostrar muito entusiasmo. Nesta noite houve o inesperado, a plateia saiu do sério e ovacionou a nossa conterrânea. Silvia brilhou em sua execução dessa peça que descreve a personalidade bipolar de Schumann, às vezes exalando alegria e vivacidade para, em seguida, cair em profunda crise emocional.

Durante a interpretação dessa peça, notei as transformações no belo semblante jovem da Silvia. Sorria como uma criança feliz quando interpretava esse sentimento ao piano, mas nos compassos de introspecção, a face jovem da Silvia mostrava a empatia que sentia pelos sentimentos do compositor. Silvia já alcançou o estágio onde como artista ela se transporta para outra dimensão, aonde convive com o próprio compositor, reproduzindo os sentimentos íntimos deste, estágio esse que somente poucos alcançam.


O autor, professor Benedito S. Guedes de Azevedo, é colaborador de Opinião


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