Geral

Entrevista da Semana: Nilce Batista Garcia

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Éder Azevedo

Nilce se considera uma mulher realizada na profissão e no amor.

Aos 11 anos de idade ela traçou seu futuro e, com perseverança e trabalho, conseguiu alcançar seus objetivos e, hoje, acredita ter driblado seus maiores desafios. A cabelereira Nilce Batista Garcia, mais conhecida como Nilce Coiffeur, começou varrendo cabelo em salões e hoje tem um dos centros de beleza e estética mais conhecidos na cidade.

“Quando criança, eu frequentava um salão de beleza com minha mãe e ficava encantada com o trabalho da cabelereira. Fiz um curso antes dos 13 anos de idade, não parei mais de estudar e consegui ter meu tão sonhado salão no Estoril”, conta.

Empreendedora e apaixonada pela profissão, ela uniu o útil ao agradável ao viajar para o exterior em busca de inovações no ramo da beleza: “Na Europa, eu vi a chapinha, mas não essa de cerâmica, e sim aquela quadradona. As pessoas me acharam louca quando comecei a passar aquilo nos cabelos. No início, elas achavam que iriam se queimar. Depois, fizeram fila pela novidade”, lembra com bom humor.

Mulher guerreira, ela ficou viúva aos 32 anos e assumiu a responsabilidade de criar os dois filhos sozinha. Esta e outras histórias você confere, a seguir.


Jornal da Cidade – Quando você pegou em uma tesoura pela primeira vez?

Nilce Batista Garcia – Olha, tudo começou quando eu tinha 11 anos de idade e frequentava o salão de uma cabelereira da minha mãe chamada dona Nena. Eu ficava encantada vendo o que ela fazia e decidi que aquela seria a minha profissão. Pouco tempo depois, antes dos 13 anos, meu pai me matriculou em um curso básico de cabelereira.


JC – Imagino que, com essa idade, você era a aluna mais nova da turma?

Nilce – (Risos) E eu era mesmo muito mais jovem do que todas as outras. Depois daquele primeiro curso, não parei mais.


JC – E como foi a sua primeira experiência profissional?

Nilce – Eu comecei varrendo cabelo em salões aos 14 anos. Isso em vários salões, porque ninguém me dava uma oportunidade de colocar as mãos nas tesouras. Foi quando meu pai ficou chateado e comprou um salão para mim, na avenida Rodrigues Alves. Era um salão já com tudo dentro, mas eu não sabia nada de administração, gastava todo o dinheiro e, é claro, fali o salão.  


JC – Pensou em desistir?

Nilce – Imagina. Isso era tudo o que eu queria, e eu já tinha mãos para isso. Passei a trabalhar como cabelereira em um outro salão da Rodrigues Alves, dessa vez como funcionária. Nessa época, eu tinha 18 anos, já era casada e tinha uma filha. Foi quando fomos morar em uma pequena cidade de Santa Catarina, onde também consegui trabalho. Depois, mudamos para o Rio Grande do Sul e lá eu montei um pequeno salão com uma amiga. E, quando voltei para Bauru, tinha em mente que não seria mais funcionária de ninguém.


JC – E quando você voltou para Bauru?

Nilce – Meu marido foi transferido para Araçatuba e nos mudamos para Bauru. Montei um pequeno salão, muito pequeno mesmo, na rua Araújo Leite. Uns dois ou três anos depois eu já estava em um bem maior, vizinho da Telesp. Eu precisava dar senhas para as clientes de manhã, de tão numerosas que elas eram. Já tinha umas 10 funcionárias e trabalhava até a meia-noite como uma maluca. Foi nessa época que meu primeiro marido faleceu e eu precisei criar meus dois filhos sem pai.


JC – Esse foi o maior desafio da sua vida?

Nilce – Eu estava com 32 anos e dois filhos para criar. Disse para mim mesma que precisaria trabalhar de verdade mesmo. Meu marido estava começando sua carreira profissional em Bauru e nós não tínhamos um respaldo financeiro muito grande. Levávamos uma vida bem simples mesmo. Comecei a fazer cursos em São Paulo, foi onde descobri que eu podia ir para fora do País e crescer profissionalmente.


JC – E esse foi seu próximo passo?

Nilce – Sim. Primero fui para Las Vegas, nos Estados Unidos. Voltei encantada com tudo o que encontrei por lá. Quando conheci o que ser cabelereira significa lá fora, tive ainda mais certeza de que estava no caminho certo. Depois fui para Dallas, Los Angeles, Nova Iorque...Voltei, juntei dinheiro e fui para a Europa. Comecei com Portugal, depois Espanha, Itália, Suíça, França e Inglaterra. Ao voltar de Londres, eu vi que precisava juntar dinheiro para construir um patrimônio. Afinal, tudo o que eu ganhava eu gastava com as viagens.  


JC – Sempre trouxe novidades das viagens?

Nilce – Sempre, sempre. E cada vez atraía mais clientes. Nos Estados Unidos, eu vi um aparelhinho que amassava os cabelos, era o difusor. Eu fui a primeira a trazer isso para a cidade. Na Europa, eu vi a chapinha, mas não essa de cerâmica, e sim aquela quadradona. As pessoas me acharam louca passando aquilo no cabelo, acreditavam que iriam se queimar, mas fizeram fila depois (risos). Isso sem falar nos reflexos coloridos que eu vi na Europa e trouxe para cá. Trouxe a cor para Bauru. Hoje é tudo mais fácil. Até molde para cortar os cabelos já tem no mercado. Antes, não. O trabalho era mais artístico mesmo.  


JC – Então deu tudo certo?

Nilce – Sim. Eu consegui dar para meus filhos tudo o que crianças com pai e mãe podem ter. Depois da Araújo Leite, eu fui para a Gustavo Maciel. Era uma casa pink muito linda. O salão ficava cheio. Mas a minha ideia era construir o salão no Estoril. Consegui fazer o salão e a casa do jeito que eu queria, isso há 9 anos. Hoje estou mais velha, querendo sossego e querendo trabalhar menos, também.


JC – Qual foi o maior desafio da sua profissão?

Nilce – Não sei se foi desafio, mais certamente foi algo que me deixou bem chateada. Falo de um episódio em que uma senhora fez um alisamento e não tinha dinheiro para pagar. Ela e a nora deram cheque sem fundo e depois foram até a imprensa dizer que eu havia derrubado o cabelo daquela senhora. Era uma pessoa que nunca tinha colocado os pés no meu salão, mas eu atendi com a maior boa vontade e ela tentou me processar. Mas quando ela viu que precisaria provar muita coisa, ela parou. Mas isso não abalou em nada o meu salão, porque minhas clientes confiam em mim e sabem do meu profissionalismo.


JC – Você deve ter muitas histórias engraçadas de salão...

Nilce – Muitas. Do tipo de você arrumar uma daminha para um casamento e o vestido vir sem os sapatos e a menina ter de entrar na igreja descalça. A sorte é que o vestido era bem cumprido e os pés não apareceram. Certa vez, uma cliente comprou um vestido feito para ela e descobriu, na hora de se vestir, que ele havia sido usado. Eu precisei acalmá-la e dizer que tudo iria dar certo... Já aconteceu da noiva esquecer a calda do vestido no salão e eu precisar ir voando para a igreja para tentar chegar primeiro...As histórias de sufoco quase sempre são de noivas.


JC – Você é do tipo “terapeuta do cotidiano”?

Nilce – Ah, sim. Eu ouço, dou conselho e ajudo quando necessário. Tenho clientes há mais de 40 anos. Algumas eu já casei a filha e até a neta. Isso é muito legal e quando acontece alguma coisa com elas, eu não durmo. É como se fossem da minha família. As mais antigas conhecem minha vida, me viram crescer, passar por dificuldades...Eu só me casei pela segunda vez quando meus filhos saíram de casa.


JC – Quando você percebeu que era hora de cuidar da vida pessoal novamente?

Nilce – Eu não tive tempo. Depois que o meu primeiro marido morreu eu passei a trabalhar feito uma maluca. Só para a Argentina eu fui 17 vezes fazer cursos. Mas hoje eu tenho experiência para montar uma escola. Bem, mas quando meus filhos se casaram, eu vi que ficaria muito sozinha e eu já conhecia o Arídio.


JC – Fale um pouco sobre o seu romance.

Nilce – Bom, ele era pai de uma cliente minha de muitos anos. Quando nos encontramos, eu disse a ele que casar pela segunda vez eu não queria. Só que ele me disse que com ele o negócio era só casando (risos). Eu estava apaixonada e aceitei.


JC – Uma grande alegria.

Nilce – Quando meu genro conseguiu um fígado para ser transplantado. Eu dei nota 10 para ele por ser uma pessoa incrível. Ele nunca teve medo da doença, sempre foi forte e eu aprendi muito com ele. Já minha filha teve paciência e perseverança para cuidar dele. E hoje eles estão muito felizes.


JC – Novos planos?

Nilce – Eu quero aumentar o número de pessoas trabalhando no salão para oferecer um preço mais acessível para minhas clientes que não podem pagar. Isso também vai incluir manicure para a moçadinha que vive de mesada, por exemplo. Para mim, hoje, o dinheiro já não é tão importante. Eu consegui tudo o que eu tenho sendo cabelereira e hoje estou satisfeita. Também penso em fazer algo para as crianças carentes. Quero ensinar a profissão para as meninas da periferia. Outra coisa que eu quero é montar uma escola.


JC – Qual é o seu conselho para quem está no início da sua profissão?

Nilce – A primeira coisa é ter perseverança no cotidiano. Todo dia é a mesma coisa e é preciso gostar disso. Organização e inovação também são fundamentais. Você deve aprender diariamente e nunca deve se achar o máximo, porque isso você nunca será. Eu cheguei a trabalhar 17 horas por dia, mas valeu a pena.

 

Perfil

Nome: Nilce Batista Garcia

Idade: 64 anos

Local de Nascimento: Duartina/SP

Signo: Gêmeos

Esposa: Arídio Garcia

Filhos: Elaine e Márcio

Hobby: Ver filmes e viajar

Livro de cabeceira: “O Alquimista”, de Paulo

Coelho  

Filme preferido: “O Caçador de Pipas”

Estilo musical predileto: MPB e bossa nova

Time: São Paulo

Para quem dá nota 10: Para meu genro e

minha filha

Para quem dá nota 0: Para ninguém

E-mail: nilce.coiffeur@terra.com.br

Comentários

Comentários