Ciências

O homem que curou-se da aids!

Consultoria: Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Também conhecido como “o paciente de Berlin”, o americano que mora e trabalha na Alemanha Timothy Ray Brown, com 44 anos curou-se da aids e após cinco anos não tem qualquer sinal do vírus em seu corpo. Depois de 10 anos convivendo com o HIV, ele contraiu uma leucemia. Um dos tratamentos mais eficazes para a leucemia consiste no transplante de medula óssea.

A medula óssea fica no interior dos ossos e produz as células do sangue com uma velocidade de proliferação muito rápida, a mais rápida do corpo, com milhões de novas hemácias ou glóbulos vermelhos, leucócitos ou glóbulos brancos e plaquetas todos os dias.

Os leucócitos promovem a defesa do organismo contra as bactérias, vírus, fungos e parasitas e ainda reconhecem as células estranhas que aparecem todos os dias e as eliminam para evitar o câncer. As hemácias transportam o oxigênio e as plaquetas ajudam a controlar a coagulação sanguínea. Se a medula óssea deixar de produzir estas células, praticamente morremos de alguma doença infecciosa generalizada ou algum tipo de câncer. A medula óssea popularmente é conhecida como “tutano”, e as pessoas acham que se fortalecem ao ingeri-la!

O HIV parasita elimina um dos leucócitos mais importantes conhecido por linfócito T4, “helper”, auxiliar ou CD4. O linfócito T4 comanda a resposta imunológica, ele é o maestro dos demais leucócitos: sem ele, os músicos ou leucócitos não tocarão as defesas do organismo com harmonia. Se o vírus não for combatido em pouco tempo o paciente desenvolve doenças infecciosas e vários tipos de câncer.

Ironicamente, a medula óssea que nos defende do câncer e das doenças infecciosas, pode gerar cânceres em si mesmo, geralmente chamados de linfomas. As células cancerosas da medula são defeituosas e não nos defendem, e quando jogadas no sangue no lugar de leucócitos normais, criam uma situação clínica chamada de leucemia.

Pode-se até afirmar que leucemia é o câncer no sangue, mas não do sangue. Como resolver este problema: trocar de medula óssea, o viveiro das células sanguíneas, a partir de um transplante de doador compatível.

O paciente de Berlin adquiriu aids e leucemia: ficou sem defesa alguma! O seu médico, o jovem oncologista Gero Hutter, procurou um doador compatível entre pessoas que herdam um tipo de linfócitos T4 que não deixam entrar o HIV no seu interior, pois não tem a proteína CCR5-receptor na superfície externa: sua porta de entrada. Sem essa proteína nos linfócitos T4 o organismo não é afetado pelo HIV.

Pena que apenas alguns privilegiados europeus (1%) têm esta característica herdada, pois possuem o gene mutado CCR5-Delta32! Toda proteína tem sua produção comandada por uma receita ou gene escrita em um dos 23 cromossomos.

Ao receber medula óssea da pessoa resistente à infecção com o HIV, o paciente de Berlin ficou livre da leucemia e também da aids: a medula óssea transplantada agora produzia sangue com leucócitos que não deixavam o vírus entrar no seu interior, foi diminuindo e eliminado! Sem entrar em uma célula, o vírus não se multiplica! O trabalho foi publicado com grande impacto na revista Blood.

Muitos tratamentos contra a aids se baseiam em aplicar substâncias que bloqueiam a CCR5-receptor, mas nenhuma droga consegue vedar todas as CCR5 o tempo todo, e algumas deixam o vírus entrar. Controla-se, mas não cura! Pesquisadores e empresas agora procuram criar em laboratórios, linfócitos T4 geneticamente modificados sem a CCR5-receptor para aplicar nos pacientes.

Descobriu-se que uma pessoa pode tornar-se resistente ao HIV desligando o gene que produz a CCR5-receptor administrando um conjunto de enzimas chamadas de nucleases dedo-de-zinco. Elas cortam o gene e a partir daí as células não colocam mais a CCR5 na superfície e o vírus fica sem porta de entrada!

Em 12 voluntários HIV positivos, os pesquisadores Carl June e Bruce Levine, supervisionados pelo médico Pablo Tebas, testam o tratamento em humanos, patrocinados pelo Instituto de Saúde Estadunidense.

A leucemia que levou à cura da aids lembra a história do náufrago sem esperança que construiu com sacrifício uma cabana na ilha isolada e aprendeu a sobreviver sem esperança de resgate. Um raio ateou fogo e destruiu tudo. Revoltado com Deus, blasfemou muito e, aos prantos, dormiu na praia. Acordou com barcos de um grande navio que avistou a fumaça e entendeu como sinal. Foi salvo. Uma tragédia pode ser apenas o começo de uma fase feliz!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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