Mais de 70% da população brasileira utiliza a voz como principal instrumento de trabalho, segundo a Academia Brasileira de Laringologia e Voz. Entretanto, é difícil encontrar quem cuide da voz antes de ter algum problema. O assunto é tão importante que foi criado um dia especial para promover os cuidados necessários: o “Dia Mundial da Voz”, comemorado amanhã, 16 de abril.
De acordo com o médico otorrinolaringologista Christiano de Giacomo Carneiro, a voz é produzida inicialmente por um estímulo em uma área específica do cérebro. De lá, o estímulo atravessa uma parte onde se vinculam as emoções para depois chegar até a laringe. Por sua vez, a laringe tem a função de preparar o ar exalado dos pulmões até a região articulatória da boca, língua e lábios.
“Os problemas mais comuns são aqueles causadas pelo mau uso da voz, as chamadas disfonias funcionais e as inflamações como as laringites. Também se destacam algumas lesões causadas por trauma fonatório, com os nódulos e pólipos. Os tumores são as enfermidades mais graves e são especialmente frequentes em fumantes”, aponta Carneiro.
E todo cuidado é pouco com a voz. Os sintomas que mais comumente alertam e levam os pacientes aos consultórios são a rouquidão e as dificuldades para respirar e engolir.
Tomar água constantemente, falar em tom e intensidade confortáveis são ações que protegem a voz.
Vilões da voz
Paula Belini Baravieira é fonoaudióloga e especialista em voz. Ela alerta que um ato bastante comum que afeta a voz de forma negativa é o pigarrear: “Quando pigarreamos, batemos uma prega vocal contra a outra de forma intensa, o que causa irritação na mucosa que cobre as pregas. Tal irritação libera mais secreção gerando um ciclo vicioso de tirar a secreção e formar mais secreção”.
Nesses casos, a dica é evitar pigarrear, tomar bastante água e evitar alimentos que geram mais secreção, como os derivados do leite, por exemplo. “O ato de engolir com força e várias vezes empurra a secreção e acaba com o desconforto”, acrescenta Paula.
Ao mesmo passo, a fumaça do cigarro agride a mucosa da laringe e pregas vocais. Como consequência, o corpo se defende produzindo uma grande quantidade de muco, aumentando a tosse e o pigarro. Além disso, as substâncias presentes no cigarro aumentam as chances do desenvolvimento de diversos tipos de câncer, entre eles o câncer de laringe e pregas vocais.
Tom
Se você é do tipo que está sempre gritando e gosta de falar em lugares barulhentos, cuidado. A fonoaudióloga explica que, ao gritar, gera-se atrito entre as pregas vocais e, por consequência, inchaço.
Com o passar do tempo, esses atritos constantes contribuem para o aparecimento dos conhecidos calos vocais. Por outro lado, o sussurrar também é bastante nocivo para a voz.
E quem nunca amanheceu com a voz rouca depois de um abuso vocal? Normalmente, em shows e festas, além de gritar e falar alto, as pessoas ainda ingerem bebidas alcoólicas, uma combinação explosiva para a voz.
Paula explica que o álcool altera a percepção do corpo e da produção da voz, desta forma, os “festeiros” forçam a voz sem perceber.
Vale lembrar que é importante procurar um médico ou um fonoaudiólogo para fazer uma avaliação ao perceber a voz rouca por mais de 15 dias. Uma alteração vocal persistente pode ser sintoma de um simples calo vocal ou mesmo de um câncer.
Centrinho “ajuda a falar”
A pequena Alicia Rouleau Reis Xavier, 7 anos, é figurinha carimbada no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da Universidade de São Paulo (USP). Desde o primeiro mês de vida, a paciente com fissura labiopalatina se desloca da cidade de Mongaguá/SP para Bauru com certa frequência. Ao lado da mãe, dessa vez, ela está em Bauru para fonoterapia intensiva.
“Ela já passou por sete cirurgias, uma delas para corrigir a voz nasalada. Agora, faz exercícios que iremos repetir em casa. Em menos de um ano a voz dela melhorou muito”, afirma Andréa Rouleau, mãe da paciente Alicia.
Segundo Daniela Maria Cury Ferreira Ruiz, fonoaudióloga doutora na área de voz do Centrinho, Alícia nasceu com uma alteração na corda vocal que não tem relação com a fissura. “Essa alteração gera uma dificuldade na voz que implica em rouquidão, falhas eventuais e dificuldade para aumentar a intensidade e falar com uma voz mais forte”, explica Daniela.
A fonoaudióloga do Centrinho explica que os casos de disfonia são bastante comuns, principalmente em profissionais que trabalham com a voz (Veja mais na página ao lado). Para esses casos, o tratamento visa tornar a voz o mais relaxada possível. O princípio básico é eliminar a rouquidão.
Crianças
Assim como grande parte das crianças, Alicia grita, fala alto, tosse...ou seja, tem hábitos vocais inadequados. Para os pequenos, segundo Daniela, a terapia é baseada no princípio da orientação, que ensina as crianças a diminuir os abusos vocais, e em exercícios.
“Os exercícios são fundamentais para diminuir a rouquidão na tentativa de deixar a voz o mais normal possível para que ela não piore com mudanças de temperatura, entre outros agentes externos”, completa a fonoaudióloga.
Caso não haja tratamento, a tendência é que a voz piore cada vez mais. Nos casos infantis, a profissional do Centrinho acredita que a ajuda da família é fundamental, tanto no controle dos hábitos, quanto na prática dos exercícios.
Muito esperta, Alicia sabe bem sobre os benefícios do tratamento: “Eu gosto de fazer os exercícios porque minha voz sai mais limpa quando eu falo”.
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