Está marcada para hoje, feriado de Tiradentes, a Marcha Contra a Corrupção em Bauru, que se une a um movimento de abrangência nacional, organizado através das redes sociais da internet. A expectativa do grupo local é de atrair pessoas plugadas com a ação política e os desafios do setor público. No entanto, o grande desafio deste tipo de manifestação política ainda é levar para as ruas os internautas que marcam seus posicionamentos apenas diante dos computadores.
Fruto de uma geração considerada, por muitos, como alienada, a juventude que agora se mobiliza para este e outros protestos com o mesmo cunho, dispõe de uma ferramenta muito rica para fazer com que a informação chegue a um número grande de pessoas, o que não acontecia em épocas de maior engajamento e fervor político e social.
Porém, o paradoxo é que parte desses jovens parece ter se acomodado à manifestação virtual, fazendo com que suas mensagens não ecoem nas ruas, onde a força das ações coletivas continua fazendo a diferença. O teclado do mundo virtual, no computador, neste caso pode ser o “veneno” para o sedentarismo político. O jovem pluga, convoca colegas, consegue multiplicar o convite. Mas para que o ato mobilize, se multiplique, continua sendo necessário desligar o PC e partir em marcha coletiva nas ruas.
Outras mobilizações semelhantes já tiveram o mesmo efeito, aqui mesmo na cidade. É o caso dos jovens que ocuparam o parque Vitória Régia por algum tempo no ano passado. Apesar da grande mobilização na web, era restrito o número de pessoas que participavam ativamente do movimento. Prova disso é também a baixa expectativa de comparecimento à Marcha de hoje, se for considerado que cerca de 1
mil pessoas de Bauru e região receberam o convite pelo facebook, de acordo com os próprios organizadores do evento. Os próprios organizadores esperam 5
pessoas no ato.
Há pouco mais de um mês, diversos jovens estudantes e membros de entidades bauruenses começaram a se reunir com frequência para discutir ideias que pudessem fazer elo com o bem comum. Em um desses encontros ficou definido o ato “Marcha Contra a Corrupção”.
Tudo começou com trocas de ideias em redes sociais, que se consolidaram em um grupo de, pelo menos, dez jovens. Estes iniciaram uma mobilização através do facebook que ganhou o nome de “Marcha da União Contra a Corrupção”, e decidiram que Bauru também poderia fazer parte do evento nacional de combate à corrupção.
Blindagem do poder
Professor dos cursos de Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maximiliano Martins Vicente entende que a questão é um pouco mais complexa. Ele acredita que os internautas que se articulam e se posicionam nas redes sociais não vão aos movimentos nas ruas justamente por não acreditarem que o ato possa dar respostas às reivindicações.
“Se não houver participação real, tudo fica muito restrito. É importante ressaltar que há um jogo de interesses entre sociedade civil, poder público e iniciativa privada. Se a primeira parte se mobiliza, mas o Estado não tem instrumentos para captar essa demanda, o movimento fica sem validade, pois não gera consequências. Existe um descompasso entre o que as pessoas expõem e à possibilidade de o poder público dar algum tipo de resposta a isso. Hoje ele está blindado”, explica Vicente.
Para o professor, cabe ao Estado providenciar a regulamentação da internet, criando mecanismos de receber as manifestações virtuais. “O poder público já disponibiliza, por exemplo, o pagamento de impostos pela internet. Seria justo que tivesse como utilizá-la para dar retorno a esse tipo de mobilização”, afirma.
Serviço
A “marcha” de Bauru começará às 14h deste sábado, no Parque Vitória Régia. Dentre as propostas dos grupos é possível destacar o fim do voto secreto parlamentar. Algumas atividades serão oferecidas para a população como, por exemplo, oficinas de pipa para as crianças e palestras.
Internet ainda é restrita
Maximiliano Vicente pontua também que é impossível falar em internet sem levar em conta a exclusão social. Ele lembra que, de acordo com os dados do último Censo do IBGE, apenas 33% da população brasileira tem acesso à rede. “Tudo isso ainda é muito restrito, até porque nem todos os usuários estão interessados em participar desse tipo de debate”, ressalta.
O professor, no entanto, garante que as redes sociais são novos mecanismos de socialização e mobilização. “Se antes isso era feito nos partidos políticos, sindicatos e na igreja, agora está concentrado na internet”, pontua.
Outro fator que diferencia a mobilização política atual em relação à de tempos passados é a grande exposição da individualidade. Nos perfis das redes sociais, é possível ter acesso a nome completo, interesses e até endereço. “Antes isso era feito de forma anônima. Hoje em dia, não há mais receio de se manifestar de forma pública”, destaca.