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Entrevista da Semana: José Esmeraldi

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Foi em seu cantinho especial repleto de vinis da sua coleção, CD’s, revistas, livros, rádios e seu pequeno e querido estúdio de rádio – montado no fundo de casa - que o radialista José Esmeraldi recebeu a equipe do JC para contar suas mais vivas histórias.


A paixão pelo rádio começou aos 8 anos de idade quando o então menino ganhou um protótipo de Rádio Gelena. “Eu esticava um arame no varal de roupas de metal da minha mãe, colocava uma espécie de fone nos ouvidos e ouvia, entre o chiado, rádios dos Estados Unidos e Alemanha. É claro que eu não entendia nada, mas vibrava com aquilo. A partir de então, eu me apaixonei pelo rádio”, lembra.


Mas foi somente após a aposentadoria e, em Bauru, que o paulistano realizou seu sonho de trabalhar no rádio. Os ouvintes de Bauru e região puderam assim escutar e conectar a imaginação através de sua bela e grave voz nas rádios Rádio Universal de Agudos, Rádio Clube Bandeirantes, Auri-Verde e Rádio Unesp.


Atualmente, ele está com uma rádio online no endereço eletrônico http://semlimitesfm.webnode.com/. Histórias pessoais, como a superação da síndrome do Pânico, também fazem parte da entrevista que você lê, a seguir.



Jornal da Cidade – Quando o senhor se apaixonou pelo rádio?


José Esmeraldi – Isso aconteceu quando eu tinha uns 8 anos de idade e ganhei o meu primeiro rádio. Lembro-me que eu morava na Vila Califórnia, em São Paulo, e o rádio era um protótipo de Rádio Gelena. Eu esticava um arame no varal de roupas da minha mãe, que também era de metal, colocava uma espécie de fone nos ouvidos e ouvia, entre o chiado, rádios dos Estados Unidos e Alemanha. É claro que eu não entendia nada, mas vibrava com aquilo. Você imagina isso naquela época.  A partir de então, eu me apaixonei pelo rádio e ele se tornou um grande amigo.



JC – Uma amizade de levar para todo canto?


Esmeraldi – Exatamente. Eu passei a ouvir rádio como um maluco. Para você ter ideia, eu não dormia sem meu rádio de cabeceira. Era um pequeno rádio de válvula que eu colocava em uma cadeira perto da cama. O engraçado era que ele caia muito e vivia todo colado (risos). Com ele eu viajava ouvindo os programas de calouros...



JC – Nessa época o senhor já se imaginava radialista?


Esmeraldi – Não, ainda não. Eu gostava muito de ouvir as músicas, as falas dos locutores... Meu pai tinha uma empreiteira naquela época. Ele construiu a maior parte dos prédios de Pinheiros e, quando eu tinha uns 14 anos, eu já trabalhava em almoxarifados. Porém, eu era muito rueiro, jogava bola e sempre chegava em casa machucado. Então ele decidiu que eu iria trabalhar com ele. Eu atendia as ligações no escritório. Só que o número do telefone do escritório era muito parecido com o da rádio Bandeirantes, que tinha um programa chamado “Telefone Pedindo Bis”. Foram tantas as ligações erradas que eu resolvi, um dia, dizer que era da rádio, sim. Foi quando eu descobri o quanto era gostoso falar com o ouvinte. Naquele momento, senti um desejo muito grande de trabalhar no rádio. Mas não foi possível, até pela vida que eu tinha... Eu era muito inibido, não tinha coragem...



JC – O senhor chegou a fazer faculdade?


Esmeraldi – Então, eu me formei em contabilidade. Até tentei fazer uma faculdade de jornalismo, fiz um ano e meio, mas depois me casei e desisti. Nunca gostei muito de estudar, a verdade foi essa. Trabalhei em grandes empresas como a Goodyear, a Matarazzo... Depois tive um problema de saúde que hoje chamam de síndrome do pânico.   



JC – Quais foram os caminhos para superar esse desafio?


Esmeraldi – Foi um problema violento que atrapalhou meus estudos e meu trabalho. Fiquei um ano e meio sem trabalhar. Eu não podia sair na rua que me dava um desespero. Fiz uma série de tratamentos que não deram resultado.



JC – E qual foi o remédio?


Esmeraldi - Eu gostava de cerveja, fumava, tomava muito café... Eu não conseguia dormir ou trabalhar. Depois de mais de um ano de tratamento, comecei a ler e descobri que tinha maus hábitos. Parei de tomar café à noite e percebi que isso me ajudou a dormir melhor. Decidi parar também de fumar, aquele hábito não me acalmava como eu imaginava, ao contrário. Menina, acabou o meu problema. Meu problema era mais químico do que psicológico.   



JC – Imagino que essa superação mudou sua vida.


Esmeraldi – Sim. Voltei a trabalhar, mas eu queria trabalhar com o público, lidar com gente, com vendas. Foi quando entrei em um grande laboratório farmacêutico. Passei a trabalhar nas ruas, o que me ajudou muito a superar de vez o pânico. Depois entrei na Xerox do Brasil, empresa que me trouxe para Bauru em 1982 e onde me aposentei em 1988. Antes disso passei por outras cidades.    



JC – E o que veio com a aposentadoria?  


Esmeraldi – O sonho que nasceu lá quando menino: o de trabalhar com o rádio. Foi em Bauru que eu passei a me dedicar ao rádio, isso a partir de 1988. Fiz o curso do Senac para ver se tinha jeito para a coisa. Fui muito elogiado no curso e o sonho que sempre foi acalentado virou realidade.



JC – E como o senhor conseguiu o seu primeiro emprego no rádio?


Esmeraldi – Eu fiz um projeto chamado “Gerasom Saudade - A história contada e cantada por quem viveu a própria história”. Não sou capaz de tocar uma música sem embrulhá-la para presente. Acho que tocar música por tocar é uma falta de respeito com o ouvinte. A pessoa tem o direito de saber quem é o compositor e um pouco sobre a história da música, para ter um pouquinho da história. Levei o projeto para a Rádio Clube Bandeirantes. Mas aquele era um ano de Copa do Mundo e não tinha espaço. Pediram para eu esperar, mas como eu não queria perder aquele ânimo eu fui na Rádio Universal de Agudos e comecei a trabalhar lá. A Copa do Mundo passou e vim para a Bandeirantes, onde também fiz um pouquinho de jornalismo.       



JC – O senhor também trabalhou na Auri-Verde, certo?


Esmeraldi – Eu sempre gostei muito de AM. Então fui até a Auri-Verde e fiquei lá de 1993 até 2004. Fiz uma série de programas que considero marcantes. Teve o “Chapéu De Couro”, um programa de música sertaneja nordestina. Eu queria fazer alguma coisa diferente para dar opção para o ouvinte. Teve também o “Clube do Gramofone”, que dava carteirinha de sócio para o ouvinte. Chegamos a ter mais de 500 sócios.



JC – O senhor deve colecionar histórias dessa época...


Esmeraldi – E como. Como todo bom clube, uma vez por mês, eu fazia um baile chamado “O Grande Baile Imaginário”. A sonoplastia era tão boa que apareciam pessoas na rádio para o baile. Certa vez, chegou um moço todo bem vestido de terno branco e gravata perguntando onde era o baile (risos).



JC – O senhor também passou pela Rádio Unesp, certo?


Esmeraldi – Sim. Fui convidado pelo diretor da Unesp na época para trabalhar na rádio com o programa “Rádio Saudade”. Fiquei lá de 1996 a 2007. Hoje estou com um projeto meu que é uma rádio online. O endereço é o http://semlimitesfm.webnode.com. Lá tenho histórias e tudo mais. É uma maneira de manter meu trabalho vivo. O rádio é uma paixão que está no sangue.


 

JC – Novos projetos?


Esmeraldi – Tenho um projeto que ainda estou tentando viabilizar, uma rádio comunitária. Mas confesso que estou frustrado por não conseguir programa em nenhuma rádio da cidade. Não entendo isso.



JC – O que é música boa para o senhor?


Esmeraldi – Ah, isso é muito difícil de falar. Por exemplo, você gosta de bacalhoada?



JC – Sim.


Esmeraldi – Então, eu detesto. Assim, é difícil dizer o que é música boa e o que é ruim. Agora, há músicas com conteúdo de mau gosto. Se não tivesse televisão e imagem, essas músicas não fariam sucesso, porque só para ouvir não dá. O bacana disso é que a turma dança, o Neymar dança, o Cristiano Ronaldo dança...E todo mundo vai. Antes era preciso ter voz para cantar.



JC – O que a música representa para o senhor?


Esmeraldi – Uma forma de expressão onde eu posso mostrar aquilo que está dentro de mim para que outras pessoas possam sentir se gostam ou não. É umavontade de me doar, de dar coisas boas para as pessoas. Gosto do rádio, em si.  

 

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