Tribuna do Leitor

O dor é inevitável...


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Uma coisa é a legalização do aborto de anencéfalo, ou de qualquer outro imperfeito, ou indesejado; outra muito diferente é imaginar que a prática do ato libertará qualquer mãe da dor e do sofrimento que poderá advir de tal experiência. A decisão pelo aborto cabe única e exclusivamente à mãe. Os familiares e até mesmo ?o pai? devem manter-se imparciais nessa escolha, cabe-lhes o papel apenas de apoiar a opção escolhida; sugestões e pressões formadoras de opinião devem ser sumariamente evitadas. Não há médicos, maridos, familiares e amigos que possam compreender e sentir o que vai pelo instinto materno.

Duas máximas populares resistem ao tempo e por nunca terem sido contestadas ou desmentidas devemos dar-lhes veracidade;  ao descreverem as mães como sendo ?todas iguais? e definirem o ato da maternidade como ?ser mãe é padecer no paraíso?; penso que a sabedoria popular conseguiu ser tão correta em suas definições, simplesmente porque resulta de vivências milenares e de infinitas experiências.

Fato é que o sentimento de ?ser mãe?, para a maioria das mulheres, não acontece apenas quando ela toma seu filho nos braços, queiram ?os outros? ou não a mulher já "sente-se mãe" quando seu filho é um mero embrião e, não raramente, esse amor acorre já na idealização e desejo de ter um filho.

Assim, não há médicos, juízes e legalização que irá amenizar ?as dores? que venham ocorrer durante a gravidez ou após o nascimento de um filho. Ter um filho é viver para sempre em um corpo externo; presenciar a morte de um filho é ter total consciência de nossa incompetência diante da vontade Divina, que mesmo implacável, tem o poder de amenizar a perda irreparável.

É ilusão imaginar que a decisão de ceifar uma vida, tendo por base a tentativa de amenizar o sofrimento de um filho ou da própria mãe, poderá diminuir dores e secar lágrimas, essas não poderão ser evitadas pela ?praticidade? de fazer uso da Lei, melhor sofrer todas as dores e chorar todas as lágrimas pelo tempo pré-determinado da evolução natural ou dos preceitos Divinos, a prolongar esse sofrimento e essa dor em decorrência do sentimento de culpa que pode durar para toda uma vida.

Se religiosas, deixe nas mãos de Deus; se céticas, permita que a natureza complete seu ciclo. É mais fácil resignar-se diante da fatalidade do que conviver com o peso da responsabilidade.


Nádia Tayar Marinho

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