Desmatamento zero na Amazônia. Aumento ou diminuição das áreas de preservação permanente ? APP, de margens de rios, lagoas, nascentes etc. e reflorestamento onde houve desmatamento. Anistia ou não das multas para os que desmataram. Aumento das restrições em encostas e topos de morros. Intocabilidade da mata atlântica e do cerrado. Estes são os assuntos que alimentam a grande polêmica envolvendo ambientalistas, defensores do desenvolvimento sustentável, ruralistas, políticos e governantes. Se sobram argumentos a todos eles, nem sempre eles encontram amparo na lógica e na ponderação. Muitas vezes pecam por assumirem posições antagônicas de difícil conciliação. Foi isso o que dificultou a elaboração do projeto do novo Código Florestal e a sua aprovação no Congresso.
Não pretendemos polemizar com nenhum deles, apenas emitir opinião sobre esses assuntos pelo que conhecemos e vivemos. Qual o sentido de desmatamento zero na Amazônia? É de não se cortar nenhuma árvore mais? Diz a proposta propagada pelo Greenpeace, com apoio de artistas, que seria somente em casos que envolvessem o interesse nacional. E quais seriam os casos de interesse nacional que justificariam a derrubada de matas? Estariam previstos em lei e o mapa físico do Brasil teria uma configuração redesenhada, com as atuais áreas de ocupação agropastoril e urbanas e uma vasta extensão verde intocável? A exploração econômica seria apenas de coleta, como a dos índios da época do descobrimento, porque os atuais bem que vendem as suas árvores aos madeireiros? O País teria que crescer e se desenvolver somente no espaço já explorado? No caso da mata atlântica e do serrado, onde estaríamos morando se não houvesse desmatamento? Onde irão morar e trabalhar os futuros 500 mil ou mais habitantes que Bauru pretende ter nas próximas décadas, sem cortar o cerrado?
No caso das APPs, matas ciliares que foram exterminadas quando da formação das pequenas propriedades, os sítios de agricultura e pecuária de subsistência, que alimentaram a maior parte da população quando esta era predominantemente rural, e que sobreviveram ao urbanismo, como continuarão existindo se tiverem que cortar os seus pastos, chiqueirões, roças e pomares, próximos de suas aguadas? A mesma situação das roças, pomares e vinhedos das encostas de morros, nos estados do Sul. Se tiverem que pagar multa e reflorestar onde a mata foi cortada há muito tempo, só haverá uma saída ? abandoná-los e ir para a cidade. Imaginemos essas exigências na Europa, obrigando a Suíça a tirar suas vaquinhas das montanhas e Portugal a cortar os vinhedos do Porto.
Não que o propósito e as ideias estejam errados. Ninguém pode negar a necessidade e a urgência de medidas que preservem o nosso planeta e, consequentemente, a nossa própria vida. É preciso conter o desmatamento predador, estabelecer limites nas terras ribeirinhas para não permitir que grades de disco as desnudem, para o plantio de cana, milho ou soja, provocando assoreamentos e matando nascentes. Encostas e topos de morros, vulneráveis às chuvas, quando a camada de terra sobre as rochas perde sustentação, também precisam ser protegidos do desmatamento. Tudo isso é certo, o que não é certo é o radicalismo, que prejudica o entendimento e dificulta as medidas inovadoras. Há soluções eficazes para esses problemas. Para as matas, onde há madeiras de lei, a exploração pode ser feita pelo processo de manejo, que já faz parte do Código Florestal. O que é preciso é transformá-lo num procedimento de execução regular, como se faz na Noruega e outros países que o adotam há muito tempo. Nas APPs ribeirinhas, bem como nas encostas e topos de morros, hoje ocupados por agropecuária de subsistência, assistir os proprietários na regeneração sem inutilizar a sua propriedade. Existem técnicas de reflorestamento apropriadas. A USP tem muitos exemplos, como uma experiência pioneira e bem sucedida, feita em meados do século passado pelo ex-diretor do Horto Florestal de Bauru, engenheiro José Carlos Bolliger Nogueira, referida na publicação: "Reflorestamento misto com essências nativas: a mata ciliar". Não seria mais racional ajudá-los a reflorestar? Antes de tentar impedir o desmate para expansão urbana, que é inevitável, reflorestar com as essências da área a ser ocupada, as áreas degradadas da mesma região. Sem o radicalismo dos que querem destruir tudo, pela ganância e egoísmo, e dos que querem impedir tudo, sem considerar as necessidades inescapáveis, será possível preservar o Planeta Azul.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras