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Gasto com juros cresce 60% em 3 anos


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Os brasileiros gastam R$ 194,8 bilhões por ano com pagamento de juros de empréstimos bancários. Isso equivale a dizer que, se todas as 54 milhões de pessoas com conta em banco hoje tivessem buscado crédito no sistema financeiro, cada uma teria um gasto anual de R$ 3,6 mil. Essa cifra corresponde à despesa só com juros, sem considerar a amortização do empréstimo principal.

Os cálculos da despesa com juros foram feitos, a pedido da reportagem, pelo presidente da empresa de classificação de risco Austin Rating, Erivelto Rodrigues. Para chegar a esse resultado, foram consideradas cinco linhas de crédito: cheque especial, crédito pessoal, crédito consignado, aquisição de veículos e de bens.

Os saldos e as respectivas taxas de juros cobradas em cada linha usadas no cálculo estão disponíveis no relatório de crédito de março do Banco Central. Ficaram de fora o crédito imobiliário e o cartão de crédito.

Os dados mostram que, para as linhas analisadas, o gasto com juros cresceu 60% em três anos. Em março de 2009, a despesa anual com juros das linhas de crédito analisadas era de R$ 121,5 bilhões e, em março deste ano, atingiu R$ 194,8 bilhões. No mesmo período, o saldo das operações de crédito correspondentes cresceu 85%: de R$ 264,5 bilhões em março de 2009 para R$ 490,7 bilhões em março deste ano.

“O ritmo de aumento do gasto com juros foi menor do que o aumento do volume dos empréstimos feitos ao consumidor exclusivamente por causa da redução da taxa básica de juros, Selic, já que o spread ficou estável no período”, ressalta Rodrigues.


Selic


Em março de 2009, a Selic efetiva, que é o parâmetro do custo de captação dos bancos, estava em 11,7% ao ano. Em março deste ano, era de 9,4%. A queda é de 2,3 ponto porcentual. Durante esse período, o spread, que é a diferença entre o custo de captação e de empréstimo, ficou estável e em torno de 28%.

Nas últimas semanas, o governo vem pressionando os bancos privados a reduzir os juros cobrados do consumidor para impulsionar o consumo, reativar o mercado doméstico e a atividade econômica, que enfraqueceu no primeiro trimestre. A estratégia foi baixar as taxas cobradas nas linhas de crédito dos bancos oficiais (Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) para acirrar a concorrência e forçar a queda dos custos dos empréstimos aos clientes.

Fabio Silveira, sócio da RC Consultores, compara o efeito atual dos juros, amarrando o consumo, com o impacto nos preços exercido pela inflação. “O Plano Real tirou o peso da inflação no mercado doméstico, que foi trocado pelos juros e impostos.”

Silveira diz que, no momento atual, no qual a economia mundial deve crescer 2,5% este ano, a metade de 2011, é crucial reduzir os juros para garantir o dinamismo do mercado doméstico. “Imagina o quanto poderíamos ter crescido, se não tivéssemos carregado juros elevados por quase 20 anos?”, questiona.

Consumidores inadimplentes acham que redução de taxas é passageira

Escaldado pela inadimplência, o consumidor desconfia do “mundo maravilhoso do crédito” anunciado nas últimas semanas, primeiro pelos bancos do governo e em seguida pelos bancos privados, no qual as taxas de juros foram reduzidas em até 21%.

“Eu não acredito que os bancos vão baixar os juros”, disse a técnica de enfermagem Valkiria Machado, de 42 anos. Na quarta-feira da semana passada, ela foi ao shopping Metrô Itaquera, na zona leste da capital paulista, em busca do mutirão de renegociação de dívidas em atraso promovido pela Boa Vista Serviços, que administra o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC).

“O que manda neste País é o juro, aliás um dos mais altos do mundo. As taxas podem até se estabilizar por algum tempo, como aconteceu com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), mas depois volta”, deduziu a técnica de enfermagem.

Com renda de mensal de R$ 1,5 mil, ela renegociou uma dívida não paga de R$ 1.373 contraída em 2009 nas Casas Bahia para comprar eletrônicos. No meio do caminho, teve problemas de saúde e parou de trabalhar. O resultado foi o atraso nas prestações. Depois dessa experiência ruim, ela não quer fazer novos financiamentos. “Quero comprar um carro, mas vou fazer uma poupança para isso.”

O comerciante Valdemir Avanse, de 46 anos, é outro consumidor que, até a semana passada, estava inadimplente porque se descontrolou nos gastos. Agora ele não acredita no corte dos juros anunciado pelos bancos. “Tenho um pé atrás. Como até a semana passada (retrasada) o juro do cheque especial era de 9% ao mês e agora está em 2%?”, questiona o comerciante.

No momento, disse ele, a situação está boa para o consumidor, mas não acho que essa mudança veio para ficar. “Depois os bancos vão aumentando um pouquinho as taxas.”

A cozinheira Marta Elizabeth Alexandre, de 48 anos, não sentiu, na semana passada, boa vontade do banco para renegociar a dívida em atraso. Ela deve R$ 2.210 no cartão de crédito. Marta também desconfia do movimento recente de corte nos juros bancários.

Ela deixou de pagar o cartão de crédito porque perdeu o emprego. Agora, novamente empregada, decidiu quitar a dívida. “Eles propuseram um plano de 36 prestações de R$ 176,28, mas não aceitei.”

Segundo ela, não houve acordo por dois motivos. O primeiro foi a sua renda mensal de R$ 950, que não comporta a prestação, já que ela tem despesas de aluguel e alimentação, entre outras. O segundo é que a cozinheira achou a proposta descabida. Afinal, por uma dívida de R$ 2.210 não paga, teria de desembolsar ao final de três anos R$ 6,3 mil se tivesse aceitado os termos da renegociação. “Não acredito no corte dos juros. Você acha que eles vão perder dinheiro? Se eles quisessem cortar juros, teriam resolvido o meu problema agora.”

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