Geral

Tradição e lazer juntos no Undokai

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto

A apresentação de taikô foi uma das grandes atrações

A colônia japonesa se reúne todos os anos para a festa do Undokai, criada para manter a tradição oriental no Brasil. Jogos nada tradicionais aos ocidentais, como a corrida do limão, somados a música e culinária, atraíram cerca de três mil pessoas para a festa realizada ontem no Recanto Tenri, em Bauru. Determinados, os orientais não se limitam com a queda da temperatura e nem com o chuvisco: o importante para eles é a união em torno da causa.

A causa é sempre nobre, segundo o presidente da Associação Nipo Brasileira, Nelson Sonoda. “Arrecadamos recursos para custear as atividades do Taikô, curso de língua japonesa e esportes. O Undokai é uma confraternização da colônia, não tem data fixa, mas sempre acontece no final de abril ou começo de maio.”

A festa criada para manter a tradição japonesa no Brasil é hoje uma mistura de raças, comenta Sonoda. “Hoje a festa reúne japoneses, descendentes nipônicos e brasileiros. O Undokai também se adaptou em função disso, pois temos barracas com comida japonesa e brasileira para atender a todos os gostos. Vem muita gente da região para participar.”

O forte do Undokai são os jogos, garante o presidente, embora o foco de atração seja a gastronomia. “Tem muitos bauruenses que não participam da festa, mas fazem questão de vir buscar a comida. Nossa culinária está em alta porque tem muitos ingredientes saudáveis”, observa Sonoda.

Na versão 2012, o Undokai contou com cerca de 15 barracas que contemplavam a colônia e aqueles que curtem a cultura, a música e o artesanato. “Tem yakisoba, pastel, churrasquinho, sushi, tapioca, batata frita, sorvete, brigadeiro, doce japonês, artesanato e banca de CDs e DVDs focados na colônia.”


À brasileira


O yakisoba é um prato tipicamente japonês. Yaki significa fritura, e soba é macarrão, segundo explica Shozo Nakamine, expert no assunto. Ele comenta que fez adaptações para agradar os brasileiros e descendentes nipônicos e acabou por criar sua própria receita. “Meu segredo é o molho. Está guardado a sete chaves”, orgulha-se.

Segundo ele, a mesma comida no Japão tem sabor adocicado. “No yakisoba à brasileira não vai açúcar. Tive que adaptar a receita para atingir o paladar do descendente nipônico e brasileiro. Criei a receita própria. Desde 2003 eu passei a fazer yakisoba para a comunidade japonesa. Estou aposentado e preciso contribuir com os projetos da colônia. Este ano, a verba vai sustentar as atividades do Taikô o ano todo”, ressalta.

Shozo fez escola. Vários voluntários que com ele praticam a solidariedade já estão aptos a fazer o yakisoba em suas casas, aprendem na prática, apenas observando a técnica do mestre. Falam pouco, mas agem rapidamente. Cada um faz uma tarefa para atender o consumidor que chega à banca com fome.

São cerca de 800 porções, cada uma com aproximadamente 500 gramas, em bandejinhas recheadas com macarrão, cenoura, repolho, acelga, carne de primeira e um tempero típico. “A carne bovina pode ser substituída por suína e frango”, ensina o mestre do yakisoba.

Para ele, a receita do prato não é “fechada”. “Cada um pode inventar sua própria receita, acrescentar ingredientes, tirar outros, vai do gosto. A receita diz que tem que colocar tal ingrediente, mas se você não tem, pode substituir. O molho é feito a base de shoyu, e como ele é salgado, não precisa colocar mais sal”.

Shozo lembra que aprendeu a fazer o prato quando tinha 18 anos, com sua mãe. “Morávamos em um sítio e minhas irmãs casaram e foram morar fora. Eu fiquei e comecei a ajudar a mamãe na cozinha, pois sempre gostei de cozinhar. Ia cortando os legumes e observava tudo o que ela fazia. Assim, aprendi a fazer”, conta.

Corrida do limão

A corrida do limão, realizada durante o Undokai, é um jogo destinado à ala feminina nipônica. Basicamente, são mulheres que correm com uma colher de pau e um limão. Não podem segurar e nem derrubar o limão da colher. A atividade desenvolve o equilíbrio físico e mental.


Solidariedade

A festa do Undokai é uma união em torno das tradições e da culinária japonesas. Para fazer as 800 porções que são comercializadas anualmente, o mestre do yakisoba convoca seus ‘alunos’, todos voluntários. “Um dia antes, cerca de 30 voluntários vêm lavar e cortar os legumes. Hoje, (ontem) nós vamos só montando e servindo. Deixamos separados por kits, cada um deles gera 25 porções”, diz Shozo Nakamine.

O grupo de voluntários é formado por homens e mulheres de todas as idades. “Hoje (ontem) estou com mais 15 voluntários. No total foram 45 pessoas trabalhando só nessa barraca. Acredito que dessa maneira estou ajudando a manter a cultura japonesa no Brasil.”

O gosto pela gastronomia fez com que Shozo também desenvolvesse sua receita para outro prato típico japonês, o sukiaky. “Faço duas vezes por ano no (Clube) Nipo. A verba é destinada para a escola japonesa.”

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