Campinas - Os registros de estupros cresceram mais no Interior de São Paulo do que na Capital nos últimos dez anos - o número mais do que triplicou no Interior, enquanto não chegou nem a dobrar na Capital. O crescimento da população sem um aumento proporcional de políticas públicas e a maior disposição das vítimas para a denúncia são possíveis explicações para o índice.
Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que a concentração de denúncias no Interior (que inclui também o litoral) vem crescendo. Do total de ocorrências registradas no Estado em 2001, 46% estavam no Interior, porcentagem que subiu para 56% no ano passado. A Capital tinha 33% dos casos, índice que caiu para 23%. Já a Grande SP passou de 22% para 21%.
Para a delegada responsável pela Delegacia de Defesa da Mulher de Campinas, Cássia Afonso, as vítimas estão denunciando mais e os órgãos têm atuado em conjunto (entidades de saúde que identificam estupros podem registrar ocorrências, por exemplo).
A pesquisadora Angelina Lettiere, mestre pela Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto em violência contra a mulher, concorda que as mulheres estão “mais pró-ativas” na busca por ajuda.
Outro fator é o crescimento populacional comparativamente menor na Capital, que também pode gerar essa “desproporção”, diz Afonso.
Segundo o último censo do IBGE, em 2010, a população de São Paulo cresceu 7,8% em relação a 2000, menos do que em cidades como Campinas (11,5%) e Sorocaba (18,8%).
Em nota, a Coordenadoria das Delegacias de Defesa da Mulher informou que as ações da Polícia Civil são as mesmas em “qualquer município”. A capitão Glauce Cavalli, porta-voz de um dos comandos da PM no Interior, diz que o trabalho da PM é “suficiente” e feito de acordo com os índices criminais de cada local.
Desde agosto de 2009, “ato libidinoso” é considerado estupro. Com a mudança, mais pessoas podem ser consideradas vítimas de estupro, aumentando a abrangência de casos.
Faltam políticas públicas
Ainda que as mulheres estejam mais dispostas a denunciar os crimes, a maior concentração de casos no interior decorre do descompasso entre crescimento populacional e políticas públicas, afirma o professor da pós-graduação de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulis (Unesp) em Araraquara Augusto Caccia-Bava.
Como exemplo, ele cita palestras em escolas, acompanhamento das vítimas por especialistas e formação de um setor da Polícia Militar especializado em enfrentar a agressão sexual.
Para ele, em algumas cidades do interior existem estruturas públicas e profissionais competentes, mas as práticas de violência crescem mais e as políticas de proteção de pessoas ficam desordenadas, passando sensação de impunidade.