Diz o jargão popular ? não cutuque onça com vara curta, o que no sentido literal quer dizer mantenha distância segura do bicho! Mas como se sabe, muitas vezes nem sempre a prudência e a sensatez prevalecem e num minuto de bobeira, cometemos atos impensados e insanos.
Em março de 2007, estávamos pescando do rio Paraguai, lá no município de Corumbá, próximo à divisa com a Bolívia. Havíamos pescado a manhã inteira e, por volta do meio-dia, quando o sol estava à pino, resolvemos subir o rio já nos deslocando rumo ao acampamento.
Meu parceiro de pesca estava um pouco cansado e com vontade de esticar as pernas. Sugeriu que parássemos por uns instantes junto a um banco de areia às margens do rio. O local era muito bonito e convidativo. Uma pequena faixa de areia muito fina, de uma tonalidade marrom claro, cercada por uma vegetação rasteira, típica da região do nosso querido pantanal sul-mato-grossense.
Eu, já um pouco ressabiado com histórias de onças contadas pelo nosso piloteiro e ainda conhecedor de alguns vídeos do youtube sobre o assunto, fui logo dizendo: Este local é um dos preferidos para batida de onça!
Meu parceiro, ansioso para descer do barco, questionou-me dizendo que eu estava sonhando acordado e que onde já se viu num lugarzinho tão pitoresco ter onça e ainda mais àquela hora do dia. Estávamos nos aproximando da margem numa acalorada discussão para saber quem tinha razão, quando tivemos uma visão que nos deixou perplexos!
A aproximadamente 50 metros à nossa frente saltaram na água vindas da vegetação rasteira da margem do rio, duas onças pintadas. Era um casal, o macho, um belo exemplar forte e musculoso, seguido da fêmea, que não ficava muito atrás em tamanho e robustez.
Naquele frenesi entre o espanto e euforia e sabe lá mais o quê, diante daquela cena totalmente inesperada e inédita, solicitamos ao nosso piloteiro que aproximasse mais o barco das pintadas. Nosso guia comentou que numa fazenda próxima, naquela margem do rio, estavam aparecendo reses abatidas por onça e que o casal devia estar voltando de uma proveitosa caçada por aquelas bandas.
Num ímpeto de irracionalidade, partimos para cima das onças e nosso piloteiro foi logo dizendo: Querem uma caronazinha até a outra margem? E estendeu o remo para facilitar o embarque! Nunca na vida vi bichos tão arredios e orgulhosos, nem deram bola para nós e preferiram ir a nado mesmo!
Para nossa sorte, as pintadas recusaram o convite! Caso contrário, vocês não estariam lendo esta história, pois certamente não teria sobrado viva alma para narrar o acontecido.
E quanto a mim, depois dessa aventura, pescaria por aquelas paragens só embarcado! Paradinha básica em bancos de areia das margens para dar uma esticadela nas pernas ou apreciar a natureza,, somente munido de um bom e garantido repelente antionças.
Edson de AlmeidaPescador e contador de causos