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Entrevista da Semana: Maria Moreno Perroni

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 9 min

Atuando há 15 anos como diretora técnica regional da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, em Bauru, a enfermeira, pedagoga e psicóloga Maria Perroni teve de aprender a controlar a emoção e deixar que a razão fale mais alto em seu íntimo, ou pelo menos nas suas decisões.


A transferência dos internos do Lar Escola Rafael Maurício de Bauru para Dois Córregos (SP), que está completando um ano, foi um dos capítulos mais dolorosos da carreira desta sorocabana que chegou a Bauru em 1978, vinda de São Paulo, acompanhada do marido e médico Felipe Perroni.


Ela lembra que chegou a ser ameaçada pela decisão de transferir os garotos em decorrência dos problemas financeiros que inviabilizaram o funcionamento da instituição. Na verdade, ela apenas cumpria uma decisão judicial. “Aquilo mexeu muito comigo. Eu contive a emoção e precisei trabalhar com a razão”, lembra. Acompanhe a seguir essas e outras histórias da vida e carreira de Maria Perroni.



Jornal da Cidade - Que presente você gostaria de receber hoje, no Dia das Mães?

Maria Perroni - Eu gostaria que nossos projetos, programas e serviços tivessem continuidade e apresentassem os resultados esperados, que todas as pessoas não vivenciassem mais a exclusão social, que as famílias deixassem para trás também a miséria moral e social e não somente a miséria material, financeira.


JC - Então, o presente de seus sonhos é uma sociedade menos miserável, em todos os aspectos?

Perroni - Isso mesmo. Uma sociedade menos miserável e mais justa. Que essas pessoas tivessem seus direitos garantidos. Eu trabalho há muitos anos para que sejam respeitados os direitos das crianças, dos adolescentes, dos idosos, das pessoas com deficiência e agora das famílias. O que eu gostaria é que esses direitos fossem realmente garantidos.


JC - E que presentes você gostaria de poder oferecer às mães?

Perroni - Uma vida menos sofrida, menos miserável, com muita esperança de que algo vai mudar na vida delas. Se eu acredito que pode acontecer, eu tenho esperança e ter esperança é importante na vida de todos.


JC - Tem filhos?

Perroni - Sim. Tenho dois homens. Um já está casado, tem dois filhos, ou seja, já tenho dois netinhos. O outro vai se casar este ano.


JC - Que lembranças tua mãe te traz?

Perroni - Ela faleceu faz dois anos. Ela morava comigo. Eu tenho lembranças muito boas delas. Ela teve uma vida de muito trabalho, de muito sacrifício. Ela soube educar muito bem os três filhos que ela teve, com valores morais, valores éticos, com solidariedade. Desde pequena, eu vi minha mãe praticando a solidariedade. Esses valores foram importantes para minha vida. Na forma simples de ela ser, de uma pessoa sem estudo, mas que soube transmitir uma sabedoria que não está nos livros.


JC - E que lembranças espera que teus filhos tenham de você?

Perroni - Espero que as mesmas que tenho da minha mãe. Porque procurei passar para eles os mesmos valores, a importância da solidariedade, do amor ao próximo e da união da família. Graças a Deus, eu tenho uma família abençoada.


JC - Você disse que tem dois netos. Ser mãe e ser avó são coisas diferentes?

Perroni - Totalmente. O amor é incondicional, mas o amor de mãe e de avó são diferentes. O amor de avó é sem compromisso de educar, mas com muito compromisso de amar. E o amor também educa.


JC - Você acredita que a lição de solidariedade que recebeu de sua mãe foi responsável por te levar a trilhar o caminho da assistência social?

Perroni - Desde a adolescência eu sempre gostei de ajudar as pessoas. É meu jeito, que fui aprendendo com minha mãe, como já disse. Minha primeira formação foi na área de enfermagem. Exerci a profissão de enfermeira durante 15 anos, em São Paulo. Casei-me com um médico. Depois de casada, resolvi montar uma escola para cuidar de crianças. Então, fiz pedagogia. Trabalhei durante cinco anos na escola, cuidando de crianças de 0 a 6 anos. Quando vim para Bauru, decidi fazer psicologia.


JC - E você veio para cá por qual motivo?

Perroni - Meu marido era diretor do Hospital Municipal de São Paulo. E ele foi convidado para administrar o Hospital Beneficência Portuguesa, aqui em Bauru. Por questões de saúde, ele decidiu aceitar o convite e vir morar no interior. Isso foi em 1978. Estou aqui desde então. A proposta de trabalho acabou não se concretizando, e meu marido foi ser coordenador da Unimed, montou um consultório e fez o trabalho dele aqui. Ele foi professor de medicina legal na Instituição Toledo de Ensino (ITE). Ele era médico e advogado. Em Bauru, eu me formei em psicologia e depois me especializei em psicologia social. Eu tive consultório em Bauru onde trabalhei com criança e adolescente. Eu dividia meu tempo entre a clínica e o Paiva (uma instituição sem fins lucrativos que atende crianças de 6 a 11 anos de idade, famílias carentes e idosos que vivem em situação de risco, abandono e/ou vulnerabilidade social). Até que fui convidada a ocupar um cargo na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social. E aqui estou há 15 anos, atuando como diretora técnica regional.


JC - O trabalho que você desempenha na secretaria daria para dizermos que se confunde um pouco com a função de mãe, pela assistência àqueles que estão em dificuldade social e material?

Perroni - Aqui eu sou técnica. Tenho uma equipe técnica que desempenha um trabalho técnico. Mas temos de ter uma avaliação geral, que envolve questões técnicas e emocionais. A razão e a emoção caminham juntas. Tem horas que a emoção não deixa você agir com a razão, mas você tem que colocar a razão em primeiro lugar. Temos trabalhos que mexem muito com a nossa emoção, como a transferência dos meninos do (Lar Escola) Rafael Maurício. Aquilo mexeu muito comigo. Eu contive a emoção e tive de trabalhar com a razão. Pois a razão me dizia que, dentro do aspecto legal, eu tinha de agir daquele jeito. Eu estava cumprindo uma ordem judicial. E a razão me dizia que eu tinha de dar uma vida melhor e um local melhor para aqueles meninos morarem. E é o que eles têm hoje. Eu me emociono quando vou visita-los e vejo a forma como eles estão.


JC - E eles estão nas condições que você imaginava quando tomou a decisão de transferi-los para Dois Córregos?

Perroni - Sim. Em alguns casos, numa condição até melhor do que eu esperava. Hoje, posso dizer que toda dor e sofrimento que passei na época foram compensados.


JC - E a assistência social como um todo, ela avançou desde que você assumiu a diretoria regional?

Perroni - Eu avalio que houve um grande avanço. Principalmente, a partir do momento que a assistência social passou a ser uma política nacional, como a saúde e a educação. Isso ocorreu em 2004 ou 2005. Foi implantado o SUAS (Sistema Único de Assistência Social). Antes disso, as entidades mais conhecidas eram beneficiadas porque ficavam com uma fatia maior na distribuição dos recursos. Além disso, muitos desses recursos chegavam com destinação definida. Atualmente, os municípios fazem um plano municipal de assistência e inclui nele toda a rede de assistência social que possui e recebe um valor “x” para ser distribuído entre as entidades. É um tratamento mais igualitário. Hoje, não se dá mais recursos para as entidades a título de benemerência, mas sim por serviços executados e pela qualidade desses serviços. Agora, o município tem autonomia. Acho isso um grande avanço porque o município sabe onde os recursos devem ser aplicados.


JC - Apesar dos avanços, o que ainda precisa melhorar nessa área?

Perroni - Precisamos de mais concursos públicos, para que os municípios tenham seus Cras e Creas compostos por pessoas competentes e com perfil para esse tipo de trabalho. Os recursos humanos desses centros de referência são fundamentais. Atualmente, o Cras (Centro de Referência de Assistência Social) é a porta de entrada da família na assistência social. Cabe ao centro ouvir a família e elaborar um trabalho para tirá-la da situação que a levou a buscar o Cras.


JC - Além do trabalho na assistência social, o que mais te desperta o interesse? O que você gosta de fazer quando não estão trabalhando?

Perroni - Eu adoro cozinhar. Fico pensando no que vou fazer quando me aposentar e uma das possibilidades é a de fazer um curso de chef de cozinha. Quero voltar também a fazer um trabalho voluntário.


JC - Normalmente, você cozinha para quantas pessoas e com que frequência?

Perroni - Nos fins de semana eu cozinho para os meus filhos, meu irmão, minha cunhada, meus sobrinhos, que moram aqui. Estou sempre fazendo um prato diferente, gosto muito de cozinhar para bastante pessoas. Quando estou sozinha faço apenas um lanche. Minha casa sempre esteve cheia. Era comum reunir os amigos lá. Quando meu filho mais velho mudou-se para São Paulo, eu senti que a turma distanciou um pouco. Depois, foi meu filho mais novo que se mudou. Hoje, moro sozinha.


JC - E como você lida com essa situação de ficar sozinha, depois de se acostumar a estar com a casa sempre cheia?

Perroni - Eu nunca estou sozinha. Durante a semana toda eu trabalho e viajo muito a serviço. Aos sábados e domingos tem sempre alguém em casa. Então, eu nunca me sinto só.


JC - E a vida política? Você é vice-presidente estadual do PSDB Mulher. Você é atuante nessa área também?

Perroni - Estou no segundo mandato como vice-presidente estadual do PSDB Mulher. São três anos de atuação política. Falta um para terminar o segundo mandato. São dois anos cada mandato. E eu não pretendo continuar, porque são reuniões em São Paulo, em Brasília e eu não posso ficar me ausentando do meu trabalho. Para conciliar as duas coisas, eu viajava de sábado e domingo para dar palestras. Acho que é preciso dar oportunidade para outras pessoas, mais novas, com ideias novas, que possam dar uma injeção de ânimo.


JC - Assim que terminar o segundo mandato pensa em uma aposentadoria da vida política?

Perroni - Mesmo fora da vice-presidência vou continuar ajudando o partido, mas com uma atuação mais nos bastidores porque eu acredito na seriedade das ações do governo do Estado. No dia em que eu não acreditar mais, eu deixo tudo. Enquanto isso não acontecer, eu continuo.


JC - Pensa em se candidatar?

Perroni - Jamais me candidatei e nem vou me candidatar. Não tenho esse tipo de pretensão.

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