Ao contrário do que decreta a música de Antônio Carlos Jobim, nosso Tom Jobim, é possível, sim, ser feliz sozinho. Especialmente se o termo sozinho estiver relacionado ao fato de não dividir o mesmo porta-escovas de dente com outra pessoa.
De prova, estão 14.798 bauruenses que, segundo o Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), moram sós em imóveis espalhados pelos bairros de Bauru. A maioria, por opção, é claro.
Esse grupo, 67% maior que há 10 anos, é cheio de personalidade e ideais. Fazem parte dele estudantes, que dividem seu tempo entre vida profissional e os estudos e que batalham para realizar seus sonhos; divorciados, que optaram por manter a privacidade e não voltar a morar na casa dos pais; e por viúvos, que querem preservar a independência conquistada e não interferir na rotina dos filhos.
Neste contexto, morar sozinho deixou de ser algo pejorativo, relacionado à solidão, ao egoísmo e ao isolamento para tornar-se uma espécie de prêmio que muitos almejam.
“É ter independência, tranquilidade e não atrapalhar ninguém. É poder chegar em casa e ler um livro sem ser interrompida”, resume Nair Urbaneto Boneli, viúva que mora sozinha há 22 anos e adora a vida que leva.
Para a psicóloga Norma Regina Spirito Figueiredo, a independência da mulher e sua presença no mercado de trabalho, as transformações culturais acarretadas pela globalização, o aumento da longevidade e a melhoria financeira contribuíram para a mudança deste cenário.
“E isso é algo extremamente positivo. Quando a pessoa opta por morar sozinha significa, na maioria dos casos, que ela tem uma mente saudável e está segura para buscar sua autonomia e independência”, explica a psicóloga, que não enxerga o aumento na estatística como o triunfo de um modo egoísta de se viver nem vê na circunstância o risco de isolamento.
“É diferente. Hoje, a pessoa pode morar sozinha e ter uma vida social ativa e saudável. Morar só não significa ser solitário nem se isolar”, defende.
Sendo assim, a música Satisfeito, de Marisa Monte, faz muito mais sentido: “Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho? Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho. No meu caminho não tem pedras, nem espinhos. Eu durmo sereno e acordo com o canto dos passarinhos”.
Vila Universitária é o paraíso dos singles
Em Bauru, a Vila Universitária e os bairros que compõem seu arredor, na Zona Sul da cidade, são, de acordo com as imobiliárias entrevistadas pelo JC nos Bairros, os locais que mais concentram pessoas que moram sozinhas do município.
O grande número de prédios com um ou dois dormitórios que lá estão situados, a boa localização geográfica e a proximidade com diversas empresas do ramo de serviço e comércio estão entre os principais fatores para esta concentração de singles.
“Em primeiro lugar, os singles buscam segurança e praticidade, por isso, a maioria opta por morar em apartamentos, que têm portaria e são fáceis de limpar. Em segundo, buscam facilidades proporcionadas pela boa localização. Todas essas características é possível encontrar nos arredores da Vila Universitária e Altos da Cidade”, explica Marcello Mastroianni, gerente da Moraes Imobiliária.
Uma prova é Nair Urbaneto Boneli, que fez um escambo com a construtora do prédio onde ela mora atualmente.
“Como os Altos da Cidade possuem uma localização privilegiada, muitas construtoras disputam espaço por aqui. Há cerca de 10 anos, a construtora do meu apartamento me propôs dar o terreno e a casa onde eu morava em troca de uma unidade no prédio que seria construído no local. Eu aceitei”, conta.
Além disso, o local concentra uma grande quantidade de supermercados e restaurantes, que facilitam a vida que quem não tem vontade nem paciência para cozinhar.