“Se precisasse, começaria tudo de novo, com a maior alegria”. Talvez poucas pessoas, ainda com tanta disposição para a vida, tenham segurança e tranquilidade para dizer esta frase, aos 85 anos de idade, no caso, completados hoje pelo jornalista, relações públicas, contabilista e memorialista Luciano Dias Pires. Mas para ele, não é necessário voltar ao passado, pois a história vive em seu dia-a-dia e é compartilhada com um grande número de pessoas que há 38 anos acompanham o suplemento Bauru Ilustrado, publicado pelo Jornal da Cidade ao final de cada mês.
Apesar de tantas profissões e variadas atividades exercidas ao longo desses anos, ‘seo’ Luciano pode ser definido como um grande contador de histórias, sejam as que rememoram os grandes acontecimentos da cidade ou as que retratam a vida das pessoas. E ele faz questão de dizer que não são apenas aquelas com destaque nos meios sociais e políticos de Bauru. “Eu queria contar a história de gente mais simples, que ajudou a construir a cidade”, comenta.
O memorialista lembra, com emoção, de alguns dos personagens de suas histórias, como a vendedora de pamonha que trabalhava para frequentar a universidade. Ou o funcionário da farmácia, que visitava de bicicleta os doentes para aplicar injeções. Após sua história tornar-se conhecida, ela ganhou uma bicicleta nova como presente de uma empresa.
A mais emocionante, porém, foi o reencontro de uma professora com seus ex-alunos, anos depois de ela ter ido embora de Bauru após a morte de suas duas filhas por uma doença que devastou a cidade. “Ela foi para São Paulo, mas voltou para uma visita. Fizemos uma surpresa e reunimos quatro ex-alunos, já adultos. Foi muito comovente. Todos choraram, inclusive o fotógrafo do jornal e eu”, conta.
Um dos principais motivos de orgulho de Luciano Dias Pires era a seção do Bauru Ilustrado que trazia fotos e informações sobre as famílias que viviam em Bauru. “Ao longo dos anos, foram mais de 300 (fotos). Acredito que tenhamos o maior acervo do tipo no País”, ressalta o memorialista.
Em 1996, ele organizou o primeiro almoço que reunia as famílias que tinham suas histórias retratadas no suplemento. O encontro aconteceu por outros 10 anos e atraía pessoas que viveram na cidade, mas se espalharam pelo mundo.
Acervo
Ao longo dos anos, Luciano Dias Pires foi responsável pela formação de um enorme e rico acervo de objetos e documentos, sem contar as fotografias, que já somam 12 mil.
“Tenho todas separadas por categorias, guardadas em caixas identificadas. Não estão catalogadas individualmente, mas eu acho tudo o que quero lá”, brinca o memorialista.
Bauru Epopeia?
Foi em 1974 que Luciano Dias Pires decidiu dar início ao Bauru Ilustrado. O jornal, até então independente, teria, porém, outro nome. A ideia do jornalista era de que a publicação fosse chamada Bauru Epopeia. A mudança aconteceu após uma conversa com o então prefeito Edmundo Coube. “Ele me deu um toque e disse que o nome poderia levar as pessoas a entender certa dose de presunção”, conta.
A escolha do nome definitivo se deu, no entanto, por conta da proposta inicial de publicar grande quantidade de fotografias, tendência que permanece até hoje.
Mas não foi fácil colocar nas ruas os 5 mil exemplares iniciais, pois os anunciantes não confiavam muito no projeto e, diante da dificuldade persistente, em 1977 Luciano propôs ao diretor do Jornal da Cidade na época, Nilson Cosa, que o “Ilustrado” fosse distribuído junto com a publicação.
“Mas só deu certo quando falei diretamente com o Alcides Franciscato. Ele ligou e determinou na mesma hora que, a partir do mês seguinte, o Bauru Ilustrado saísse com o JC, que se responsabilizou pelas vendas dos espaços publicitários, depois de combinarmos um cachê”, lembra.
Vida em família
Dos 85 anos de vida de Luciano Dias Pires, 83 foram vividos em Bauru. Nascido em Botucatu, veio ainda pequeno para a cidade com os pais Francisco Xavier Pires e Lázara Dias Pires. Também tinha dois irmãos mais velhos: João Batista Dias Pires e Jack Dias Pires, que foi um dos expedicionários bauruenses na Segunda Guerra Mundial.
Por aqui, constituiu sua própria família, fruto do casamento de 57 anos com a doce Helena da Silva, que conheceu no curso Normal do colégio Guedes de Azevedo.
O memorialista é pai de Luciano, jornalista e chargista, Luiz Antônio, diretor do Zoológico de Bauru, e da professora Lúcia Helena. Pires tem ainda seis netos - Fernanda, Bárbara, a cantora Luciana, Daniel, Gabriela e Mathias - e aguarda, ansiosamente, pelos bisnetos...
Tudo começou com a ferrovia...
Apesar da dedicação paralela aos veículos de comunicação impressos, radiofônicos e televisivos, a trajetória profissional de Luciano Dias Pires se deu na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), onde ingressou em 1945. Alguns anos depois, largou o emprego e tentou a vida em São Paulo como radialista. Sem sucesso, retornou e atuou como relações públicas da empresa por muito tempo, inclusive na capital do Estado, até se aposentar em 1982.
O memorialista é um apaixonado pela ferrovia, e foi a partir dela que iniciou seu interesse pela história da cidade. “Em 1965, estava na Europa e tive contato com a indústria do turismo ferroviário existente lá. Fiquei fascinado por tentar implantar aquilo em Bauru, já que nossos trens chegavam ao Paraguai e a Bolívia”, explica.
Conhecendo a fundo a história da Noroeste, Luciano se deu conta de como ela se confundia com a história e o desenvolvimento da cidade. “Fui lendo artigos, buscando, fuçando, conversando com as pessoas... Hoje, posso dizer que sou considerado um expert”, brinca Pires.
Paixão pelo rádio começou aos 8 anos de idade
“É o meu xará? Quem sabe você, em um futuro que vai chegar logo, será também um locutor de rádio!”. Se Luciano Dias Pires já era vidrado nas ondas do rádio, depois de ouvir este comentário de um locutor recém-contratado da Bauru Rádio Clube, Luciano Santoro, trabalhar diante do microfone se tornou uma obsessão. Mesmo aos 8 anos de idade.
Fã do então locutor esportivo Aurélio Campos, Pires tentou a sorte na Rádio Tupi, em São Paulo. Seu primeiro teste, porém, foi frustrado. “Fui sabatinado pelo Homero Silva, que era um nome influente do rádio naquela época. Mas ele foi muito indiferente. Me mandou ler um texto, sem que eu tivesse ensaiado, e falou, ao final, que eu tinha a voz grave, mas que deveria voltar seis meses depois de treinar muito. Claro que, se ele estivesse vivo, estaria me esperando até hoje”, ri, Luciano.
Foi em Bauru, porém, que ele teve sua primeira oportunidade. Apaixonado pelo Noroeste, começou a ler mensagens comerciais e informar os resultados de jogos de todo o Brasil a partir da criação do serviço de som no velho estádio do Alvirrubro.
Por conta disso, surgiu o convite para assumir a locução do período noturno, das 20h às 23h, na Bauru Rádio Clube.
Daí em diante, foi só sucesso! Em 1954, quando o time do Noroeste chegou pela primeira vez à elite do futebol de São Paulo, criou o programa “Pra Frente Noroeste”, um dos maiores sucessos do rádio na época. No ano seguinte lançou o Grande Jornal Falado G-8, o primeiro programa do gênero jornalístico da cidade.
Dois anos depois foi para a Rádio Terra Branca, mas concluiu seu ciclo no rádio na década de 1960, quando partiu de vez para a comunicação impressa.