Regional

Agudos faz ação contra as drogas

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 14 min

 A sociedade contemporânea vive um drama provocado pelas drogas lícitas - como o álcool e cigarro - e ilícitas - maconha, crack, cocaína e outras. Quando ela atinge um membro da família, significa grandes obstáculos pela frente.

Democrática por natureza, a droga está presente em todas as classes sociais e níveis de escolaridade. Há usuários jovens, adultos e idosos que acabam envolvidos com bebidas, cigarro e até crack. O caminho trilhado pelos usuários quase sempre é o mesmo, semelhante a um método.

Os viciados em álcool, normalmente não se sentem doentes e só procuram ajuda quando já atingiram a faixa etária acima dos 35 anos. Os usuários do crack caminham por outra “trilha”. Perdem a dignidade, a noção de higiene e, por falta de dinheiro, para sustentar o vício praticam furtos, roubos e matam para pagar dívidas.

Em menor grau, os usuários de maconha também partem para a criminalidade. Em muitos casos se transformam em “avião”, levando a droga de um lado para outro a fim de conseguir uma porção e saciar o vício.

Todas essas dinâmicas poderiam ser “barradas” pela educação das crianças, jovens e adultos. Conscientização é sinônimo de prevenção nesse item. Em Agudos (13 quilômetros de Bauru), um projeto que vem sendo desenvolvido há três anos faz esse papel. O “Escolha Seu Caminho - Justiça Preventiva Antidrogas nas Escolas” é desenvolvido pelo Poder Judiciário em parceria com a prefeitura da cidade e com o apoio de órgãos públicos e instituições privadas.

Os objetivos do projeto é provocar o diálogo entre a escola, entenda professores e diretores, com estudantes. Favorecer ações integradas entre escola, família e a comunidade. Realizar a capacitação de professores e profissionais. Criar espaços para que os estudantes manifestem suas ideias. Incentivar a participação de estudantes e professores com premiações e homenagens e ampliar parcerias para crescimento e manutenção do projeto.

Para interagir com os jovens foi criado um blog. O Vamos Blogar pretende discutir o mundo do jovem e do adolescente de Agudos. Ele une unidades escolares levando ao público alvo, informações sobre o mundo dos jovens, dicas de música, entretenimento e também histórias de superação. A ação mobiliza voluntários e parceiros que acreditam que o jovem tem o direito de viver consciente e como protagonista de suas próprias escolhas.

O juiz de direito Adilson Aparecido Rodrigues Cruz que idealizou o projeto frisa que o “Escolha Seu Caminho” é uma forma de despertar não só a consciência, mas atitudes da sociedade  na prevenção, conscientização e repressão as drogas.

“Eu adotei um método para envolver toda a comunidade. Eu quis envolver toda a sociedade agudense de uma forma que alcançasse todo o território do município. Escolhemos as escolas públicas para alcançar o público alvo. Passados três anos a ideia do projeto é fazer com que o poder público funcione no sentido de provocar discussões, conscientizar e encaminhar as pessoas com dependência química. O projeto fez a articulação.”

 

Mobilizada, população vai às ruas

Passeata com gente de todas as idades fez alerta para o problema e provocou discussões especialmente entre jovens

O projeto, inicialmente, foi para as escolas. “Eu quis começar pelas escolas para colocar alguns métodos em prática. No projeto, os adolescentes são os protagonistas e não mais o professor e diretor. Nós temos uma ideia, macro. Ouvimos os adolescentes, dialogamos com eles. O que eles disseram nós trouxemos para o papel e a partir daí, trabalhamos com eles”, comenta o juiz de direito Adilson Aparecido Rodrigues Cruz.

No 2º ano do projeto, ele ganhou as ruas da cidade. Houve uma mobilização da população em torno do assunto. “Organizamos uma passeata com aproximadamente 4 mil pessoas de vários segmentos, envolvemos a sociedade. Causou discussão. Estávamos dentro das escolas e ganhamos as ruas. Estamos sempre buscando incentivos e instigando outros segmentos para a discussão.”

Do diálogo entre educadores e estudantes surgiram várias problemáticas, explica o magistrado. “Os problemas chegaram e tínhamos que dar vazão. Foi nesse ponto que entrou o poder público, que respondeu as necessidades. Eles fizeram convênios, capacitaram os educadores e outros segmentos da sociedade que convivem com crianças e jovens. As coisas foram acontecendo.”

Os educadores ouviram os adolescentes quando já estavam preparados para lidar com a situação. “Quem ouve os adolescentes são os professores, pessoas próximas a eles. Ouviram, porém, não como psicólogos ou assistentes sociais, profissionais que a rede pública já disponibiliza, mas como ‘ouvidor’, capaz de entender a problemática que envolve o público-alvo.”

Para o magistrado, trabalhando com as escolas, o público, em tese, mais suscetível, seria atingido. “Escolhemos as escolas estaduais, alunos da 5ª série ao 3º ano. Dessa maneira entendemos que atingiríamos os jovens dessa faixa etária. Por que as escolas estaduais? Porque elas estavam em todo o município e abrangem uma classe social que em princípio, em tese, mais suscetível.”

Cruz frisa que a dizer que o público suscetível frequenta a escola pública é até um preconceito, uma vez que a droga está presente em toda a sociedade. “A droga atinge o novo, velho, rico e pobre. Se começarmos  a andar nos pontos de vendas, desde que se saiba onde, vamos encontrar gente de todo jeito, de todas as classes sociais. A droga é democrática.”  

Para ele, a questão da dependência química não está restrita a uma determinada família. “Quando o problema chega atinge você e seu meio. Hoje está tão banalizada essa situação que o jovem subestima. Tá fácil o acesso. Ele subestima, embora saiba as consequências. Começa a achar que pode, então ele arrisca.”

 

Articulação e mobilização é o foco da assistência social no município

O departamento de Assistência Social da Prefeitura de Agudos está focado na articulação e mobilização no município, destaca Rosemeire Cornélio, titular da pasta. De acordo com ela, Agudos tem cadastrados  292  dependentes químicos, sendo 272 adultos e 20 adolescentes. “São usuários de drogas lícitas, como a bebida, e ilícitas como o crack, que tem grande incidência.”

“Estamos capacitando as pessoas que trabalham diretamente com esses jovens. Articulamos  os serviços existentes no municípios através das igrejas, clubes de serviços, Caps, saúde, assistência social, escolas estaduais e municipais.”

Na prática, isso é sinônimo de cursos, palestras etc. “No ano passado, fizemos um curso do Denarc. O curso Quadros foi outro trabalho interessante. Através de imagens, o jovem consegue falar a respeito das drogas junto com os professores e outros profissionais.”

A partir do momento que se capta o problema, ele é encaminhado ao órgão competente. “São encaminhados para os órgãos da prefeitura, através do Caps, internação quando necessária ou tratamento. O Capstem psicólogos, terapeutas ocupacionais, psiquiatra, assistentes sociais, enfermeiros para atendimento do dependente. Eles mantêm grupos para atendimento coletivo e individuais.”


Tentando recuperar o tempo

“Os convênios não atendem a demanda , não vai atender nunca, a demanda é muito maior. O poder público de Agudos, como um todo, Brasil, acordou muito tarde para a questão. Estamos correndo atrás do prejuízo”, comenta o juiz de direito Adilson Aparecido Rodrigues Cruz.

Na opinião dele, não há receita pronta. “Estamos sem receitas . Exemplo disso é a campanha de combate ao tabaco, o cigarro. Como foi feito? Diminuiu? Eu não tenho essa certeza. A questão do álcool e do adolescente, não sabemos como lidar. Há tentativas que seguem o caminho da conscientização. É uma questão de saúde pública , mas sempre insuficiente. Temos que fazer alguma coisa quando deparamos com o problema na nossa frente e foi isso que eu fiz.”

O projeto “Escolha Seu Caminho” começou por uma necessidade. “Eu recebia e recebo questões dos usuários de entorpecente. A questão da dependência que chegava até mim. Isso me incomodava muito. As entidades e todos os segmentos da sociedade me procuravam e não havia uma articulação. Dispus- me a fazer isso.”

 Para abordar o usuário e sua família foi usado o diálogo. “Do usuário, procuramos saber o porquê dele ter escolhido esse caminho. Com as famílias, trabalhamos para recuperar a essência, fazer com que os familiares aceitem e encarem o problema para poder resolver. Há dois padrões de comportamento familiar. Aquela que despreza o usuário e aquela que tenta auxiliá-lo, mas como envolver a parte financeira, não consegue.”

 Para ele a camada social mais baixa não tem meios de amparar esse adolescente. “A classe média e alta  tenta dar um aparato. Porém, quais são as chances daquele que tem aparato em relação ao outro se recuperar? É ai que entra o  poder público oferecendo serviços. É importante frisar que se não houver aparato, esse jovem vai partir para o crime. Ele começa subtraindo objetos da própria casa para vender. Chega a agredir para furtar um celular e adquirir a droga. Não é uma questão individual é coletiva.”

 

Voluntária já foi traficante

Zélia de Souza Silva está com 49 anos e ficou durante 12 vendendo crack em Agudos. Atualmente, ela é voluntária no projeto “Escolha Seu Caminho.” Segundo ela, um chamado de Deus fez ela abandonar o tráfico. “Nunca fui usuária. Tinha dois filhos para criar e não tinha emprego. O dinheiro que ganhei com o comércio ilícito não gerou coisas boas. Hoje ajudo as pessoas a deixarem esse mundo.”

A casa dela é um ponto de pregação. “Eu evangelizo traficantes e dependentes. Estou resgatando aqueles que um dia eu viciei. O tráfico é vício. Quanto mais dinheiro você ganha, mais quer ganhar.”

 

Próxima fase do projeto

Uma lei municipal de Agudos garante que anualmente seja realizada a Semana Contra as Drogas. Esse ano, foi realizada entre 6 e 12 de maio. A intenção é fortalecer o projeto e ampliar os esforços no combate e prevenção do consumo.

O evento é fruto da parceria entre a prefeitura e a rede social da cidade. Durante a semana foram realizados apresentações de danças, shows artísticos e palestras. Também foram oferecidos serviços de saúde, além de maquiagem e manicure gratuitas.

O juiz de direito Adilson Cruz enfatiza que este ano o Estatuto da Criança e Adolescente foi escolhido como foco do trabalho.

“Estamos trabalhando o ECA. Mas não no sentido só dos direitos da criança e adolescente. Queremos aprofundar. Saber como é feito esse direito no dia a dia. É uma abordagem diferente.”

Segundo ele, quando se fala em ECA, a primeira reação dos educadores é dizer que só têm direitos. “Mas como se faz esse direito? Não é simplesmente ter o direito. Você pode parar nesse discurso ou ir buscar respostas. Às vezes a gente pensa que tem algum direito  e não tem, porque ele não existe ou porque não estou enxergando o direito do outro. Essa discussão dentro da escola gera o diálogo. Faz nascer uma dialética.”

 

Prefeitura tem três frentes de trabalho, diz prefeito

A prefeitura de Agudos atua em três frentes, prevenção, combate e tratamento, afirma o prefeito municipal Éverton Octaviani.

“Na prevenção com os projetos Escolha Seu Caminho e Crescer e Edificar.  No combate, apoiando as polícias Civil e Militar e no tratamento, com convênios com as instituições que tratam os usuários”, explica

A preocupação da administração municipal com o avanço das drogas fez com que ela efetivasse convênios nada tradicionais, explica Éverton Octaviani.

“A demanda de mulheres usuárias cresceu e nós firmamos um convênio com uma clínica na cidade de Santa Izabel, próximo de Guarulhos. Para tratar os menores, o convênio foi feito com o Esquadrão da Vida de Pompéia.”


Demanda


O poder público dispõe de 50 vagas em  cinco instituições diferentes para atender a demanda. “Mantemos convênios com a Recomeço daqui de Agudos, com o Esquadrão da Vida de Bauru. Todas elas atuam no tratamento de dependentes químicos.”

O Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) funciona como porta de entrada, explica o prefeito. “É a partir de uma avaliação dos profissionais que ali atuam que podemos proceder a internação. Acredito que  temos conseguido suprir as necessidades, por enquanto.” É o Caps que dá respaldo para a família, segundo Octaviani.


Preocupação


“Existe uma preocupação com a  família quando o usuário vai internado. Eles são orientados para acolher o usuário quando retorna da internação. O trabalho é feito por uma equipe multidisciplinar. Psicólogo, terapeuta ocupacional e assistente social auxiliam a família”, afirma Octaviani.

Já o projeto “Crescer e Edificar”, que é uma parceria  da Secretaria de Esportes com a Associação Desportiva de Agudos,  trabalha com formação desportiva.  

“São mais de dez modalidades dentro do trabalho esportivo. Tem acompanhamento social e das famílias das crianças. As assistentes sociais acompanham o desempenho escolar,  são quase três mil crianças nesse projeto”, explica o prefeito de Agudos.


Polícias


No combate ao tráfico, a prefeitura dá apoio, de acordo com Octaviani. “Damos apoio às polícias. Temos delegacia nova que foi reconstruída, pelotão da PM novo. Trouxemos a Força Tática. Temos um sistema de câmara de segurança, tem a central de monitoramento na Polícia Civil.”

 

Oração, trabalho e conscientização

Comunidade Recomeço iniciou atividades em 2000 e recebe homens maiores de 18 anos; foca terapia dos 12 passos

 

A Comunidade Terapêutica Recomeço está instalada no pé da serra de Agudos e auxilia na recuperação de viciados em drogas lícitas e ilícitas. Trabalha com a triologia oração, trabalho e conscientização para fazer com as pessoas que se entregaram às drogas “renasçam” para a vida.

O trabalho de conscientização é feito com a terapia dos 12 passos, filosofia utilizada por outros grupos de apoio como  Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos. Trabalha com os sentimentos com a finalidade de evitar recaídas. “Os exercícios psicológicos  trabalha com  sentimentos. A raiva, vergonha, luto são itens que não podem faltar na recuperação, frisa o presidente da entidade, Luiz Fernando Lopes.

A laboraterapia, que nada mais é do que a manutenção da entidade, também faz parte do tratamento. “Temos um pessoal que trabalha na horta e no pesqueiro. Cada um tem a sua função aqui dentro. O trabalho com as famílias é feito pelas assistentes sociais, mensalmente. É importante a participação das famílias para que o resultado seja positivo. Afinal, a maioria deles irá retornar ao convívio familiar.”

O público-alvo da entidade, que teve suas atividades iniciadas em 2000, são os homens maiores de 18 anos. “Nossa capacidade é de 25. Até poderia manter mais dependentes aqui. Nossa busca é por qualidade. Com mais qualidade funciona melhor.”

O grau de recuperação, segundo Lopes, gira em torno de 7%. “Eu acredito que a Recomeço esteja até acima desse índice. Temos muitos dependentes de álcool. O álcool é muito difícil de tratar. Muitos acham que o alcoolismo é uma droga tranquila e não é não. Para mim, é uma das piores drogas que existem. É mais difícil tratar, mais difícil da pessoa aceitar. A sociedade apoia o álcool, não apoia o alcoolista. Na hora que ele está caído na sarjeta, o pessoal  dá a volta e vai embora. A maioria tem acima de 35 anos.”

Os alcoólatras chegam na entidade dizendo que não usam drogas, só bebem. “É uma droga aceita na sociedade, isso dificulta muito. O crack preocupa muito, porque muitos deles partem para a criminalidade. Aqui em Agudos, anos atrás  a gente podia deixar a porta aberta, o carro na rua. Hoje a gente tem que tomar cuidado porque, infelizmente, a maioria dos crimes que acontecem em todo o território nacional são  motivados pela falta de dinheiro para a droga. Se a gente não fizer alguma coisa, vai piorar. Melhorar é difícil.”  

O tratamento da dependência dura de nove a 12 meses e gera uma despesa diária de R$ 60,00 por pessoa. “Oferecemos quatro refeições/dia, cama, banho, acompanhamento psicológico, material didático e cursos. Algumas famílias ajudam nas despesas.”  

Segundo Lopes, o índice de desistência do tratamento é alto. “Não tenho estatísticas, mas muitos desistem. A fase mais difícil é a abstinência da droga. Eles acabam relevando o sofrimento todo que eles têm lá fora para continuar usando a droga. É difícil. Alguns vão a óbito. Tive problemas de perder um ente da minha família mesmo tendo a casa à disposição para ele se tratar quando quisesse. A dificuldade maior são eles aceitarem e depois ficarem devido a forte abstinência. Tem muita desistência, a grande maioria.”

Para sobreviver, a Recomeço conta com os convênios. “Recebemos algumas doações, efetuamos eventos e temos convênios, um deles com a prefeitura da cidade. Também temos inscrição no Conselho Municipal de Assistência Social.”

A ajuda da administração municipal não se encerra com o convênio, ressalta o presidente da entidade. “Conquistamos uma sala de informática, graças a atual administração municipal. Além de ajudar a conseguir todos os computadores, cedeu a Internet via rádio gratuita. Todos conectados a rede. Temos os professores que vem dar aulas de computação. Ao término desses cursos esses residentes tem acesso a um certificado válido no território nacional. O diploma é cedido por uma escola de computação do município.”



 

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