O Departamento de Água e Esgoto (DAE) silencia, mas relatórios da empresa contratada para concluir as obras de instalação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Candeia, no Núcleo Gasparini, a Sanevix Engenharia, colocam em xeque o projeto, a concepção e a eficiência do serviço prestado na unidade.
Documentos obtidos com exclusividade pelo JC revelam que problemas sérios na execução e no projeto da ETE Gasparini incomodam a área de planejamento do DAE há muito tempo. Os ofícios ratificam preocupação em torno da conveniência, funcionalidade e viabilidade no funcionamento da ETE ao longo dos próximos anos.
A obra iniciada ainda no governo Tuga Angerami, e considerada dispensável para o formato do programa de tratamento de esgoto em Bauru pelo próprio prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), ficou anos paralisada. A estação foi concluída apenas em agosto passado, também às pressas, para integrar, já no governo Agostinho, o calendário oficial de festividades pelo aniversário da cidade em 2011.
A Sanevix levanta dúvidas sobre o projeto executivo utilizado para a obra e salienta, em mais de um ofício ao DAE, que serviços não contemplados no contrato ainda não tinham sido analisados pela autarquia mesmo após a fase final do contrato, no final do ano passado. O DAE, sem informação à comunidade, prorrogou o contrato para o início deste ano. Até agora, não se sabe se as inconformidades no projeto foram sanadas e quais os valores que envolvem as mudanças.
Técnico
De caráter técnico, os documentos que circularam sobre a mesa da Diretoria de Planejamento do DAE, de autoria da contratada, levantam dúvidas sobre etapas do tratamento de esgoto. Em um deles, a Sanevix, responsável pelo término da obra, se espanta com o setor de engenharia do DAE apontar preocupação com os resultados da série de nitrogênio e fósforo no estágio de tratamento.
A comunicação em relação à fase de deposição do lodo do esgoto na ETE revela, ainda, que a autarquia aprovou projeto para a obra considerando o tratamento secundário e não terciário do esgoto. “Quando fomos contratados para dar continuidade ao processo de implantação da ETE, não houve alteração no escopo conceitual da mesma. Ou seja, manteve-se o tratamento secundário. Registre-se que nitrificação/desnitrificação e desfosfatação são funções do tratamento terciário”, adverte a contratada em ofício de setembro de 2011.
O mesmo tema já havia sido motivo de apontamento em outros requerimentos, desde fevereiro de 2010. A empresa salienta que “com a atual estação de tratamento os valores desejáveis de remoção desses parâmetros não serão atingidos, pois os processos para tal não foram previstos no projeto do DAE e, assim, não poderiam ser incorporados na execução”.
Falhas ou correções
A Sanevix elenca correções e dúvidas levantadas para a continuidade das obras da Estação de Tratamento do Gasparini, reforçando preocupação com o “produto final”. O DAE não respondeu a alguns dos itens apresentados. O JC informou o DAE da necessidade de discussão dos relatórios da Sanevix na última terça-feira, através da assessoria de imprensa. Nenhum representante da autarquia quis discutir os relatórios.
No mesmo ofício do final de 2011, a contratada para concluir a obra da ETE Gasparini esclarece que fez uma série de apontamentos no projeto executivo com recomendações de correções. Em razão, a Sanevix sugere a contratação de “estudo minucioso de viabilidade técnica para adequação ou modificação da atual ETE”.
Como informou o JC, nesta semana, a ETE Gasparini também está com seu funcionamento em xeque em razão de receber materiais indesejáveis. Um dos problemas é o retorno de esgoto de residências, situação sob a qual o DAE não tem controle.
A empresa contratada adverte que a alteração de padrões de efluente doméstico interferem na eficiência do tratamento. “Alertamos que a manutenção desse status quo poderá produzir reflexos sobre os padrões de garantia estabelecidos no contrato, conforme prevê a legislação”, cita um dos documentos.
Ou seja, inaugurada às pressas e com uma lista de dúvidas técnicas e operacionais, a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Gasparini pode ser mais um elefante do governo municipal que suga recursos públicos pagos mensalmente pelos bauruenses, sem corresponder ao que foi concebida. Não é o primeiro erro no setor de Estação de Tratamento cometido sob o “planejamento” da engenheira Nucimar Paes. A ETE Tibiriçá teve de reconstruída, recentemente. São milhões de reais escoando do bolso dos contribuintes para o lodo das estações.