Tribuna do Leitor

OS CAMINHOS DA CATIRA


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Quando o famoso rei Artur, aquele da Távola Redonda, começou a moldar o que viria a ser o grande império inglês, se reunia com seus principais cavaleiros ao redor da mesa no grande salão do sir Ector para elaborar os planos das grandes cruzadas com as quais expandiria o domínio de seu reinado, passavam horas estudando os mapas reveladores da geografia por onde seu exército cruzaria, planícies e montanhas em relevos desconhecidos.

Quando tudo era acordado para a partida, seus conselheiros, em passos miúdos e repetitivos, dançavam freneticamente ao redor da grande távola redonda. Era uma dança ritmada ao som de uma lira, isso servia para elevar o moral dos comandantes que dali partiam para sanguinárias batalhas em defesa do reino da Bretanha e do generoso e destemido rei .

Entre tantas cruzadas, uma partiu para o oriente para libertar as terras de Israel e assim foram tomando gosto pela terra egípcia, que viria a ser no futuro dominado pela Inglaterra em toda a extensão do rio Nilo e assim essa mania de dançar batendo os pés ao redor de uma mesa foi difundida nas terras do Oriente Médio.

Séculos depois, com a tomada da Península Ibérica, isso que já era uma dança organizada e popular entre os árabes e algumas tribos africanas foi incorporada pelos portugueses que com o descobrimento do Brasil trouxeram em sua bagagem cultural essa dança já bem modificada para entreter os portugueses que para cá vinham em missão expansionista, em favor do reino português e do rei das terras lusitanas.

Quando os bandeirantes, partindo da Vila de São Paulo, passaram a avançar sertão adentro com as chamadas entradas e bandeiras, foram plantando vilas pelo interior paulista deixando nas posadas sementes de cultura e costumes, entre elas uma dança que, acompanhada da viola portuguesa, levava as pessoas a dançarem em grupo com número indefinido de participantes, agora com uma novidade, pois já se via entre eles negros e índios e isso agregava novos passos na coreografia.

Mais tarde, com o surgimento das cidades interioranas nas margens do rio Tietê, os caipiras passaram a festejar dias santos e outras datas comemorativas como festas juninas, casamentos ou mesmo as colheitas bem sucedidas, com bailes e essa dança herdada dos bandeirantes que, ao longo dos anos, foram adaptando ao toque da viola aprimorando os passos, sempre buscando uma forma alegre e simples, como é o gosto do caipira do interior paulista.

Isso foi passado de pai pra filho até nossos dias e hoje um grupo de pessoas que, por ser de origem rural, compartilha da mesma ideia que é preservar esse legado cultual e, se possível, passar o bastão a gerações futuras. Acho que somos os novos cavaleiros da távola redonda nessa cruzada em defesa da nossa cultura contra os grandes invasores com seus exércitos eletrônicos.

Lázaro Carneiro, diretor artístico do Clube da Viola de Bauru e aprendiz de catireiro

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