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O Xou da Xuxa

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

O psicanalista Freud, no início do século 20, designou por complexo de Édipo "o conjunto de fortes emoções e impulsos da primeira infância, de apego erótico, provocado por alguém do sexo oposto". Essa pulsão inconsciente se concentra em torno dos pais, mas pode variar para pessoas ligadas à família ou conhecidas. Esses impulsos primários têm origem fisiológica e são inconscientes. Por interdições de ordem cultural, também inconscientes, as crianças vítimas de abusos sexuais sofrem na fase adulta com esse recalque. O incesto está integrado na vida do imaginário e é, com frequência, resultado desse complexo de Édipo não resolvido. A sua aceitação apresenta-se como tabu, na medida em que há um interesse erótico considerado ilícito, entre parentes consanguíneos, afins ou agregados. Para certos antropólogos, a culpa é do modelo de família patriarcal, em que o homem exerce o poder e todos os seus membros lhe devem obediência. Em seu corajoso depoimento ao Fantástico, Xuxa condena o pai autoritário e ausente pelos abusos que estigmatizaram a sua vida, a ponto de aflorar somente agora, aos 49 anos. Concorre também para esses abusos em família o sentimento de menos valia que sempre cercou a mulher, historicamente considerada propriedade do homem e sem palavra de ordem dentro do lar. Ainda que seja uma prática que acompanha a história da humanidade, há poucos relatos recentes levados a público pela mídia. Acontecem quando envolvem pessoas famosas. Passa a impressão de estar havendo um aumento da violência sexual incestuosa. Essa impressão, no entanto, não é verdadeira. O que está ocorrendo é uma maior visibilidade da violência contra os vulneráveis de ontem e que hoje ocupam posições de destaque.

Menos mal. Foi importante Xuxa romper esse pacto de silêncio. A nadadora Joanna Maranhão também contou ter sido abusada pelo seu técnico, quando menor. A sua denúncia mobilizou até o Congresso Nacional, que acaba de aprovar lei que ficará conhecida pelo seu nome. É necessário pôr um fim à erotização precoce da infância, pois isso banaliza a sexualidade e torna as crianças presas mais fáceis. E a responsabilidade é nossa, da família, em primeiro lugar. Enquanto a sociedade não acreditar que existe o abuso sexual intrafamiliar, não vai sequer enxergar o que muitas vezes está na sua frente. Quem sabe esteja aí a razão da reação cibernética contrária ao depoimento de Xuxa. Li acusações sobre "vitrinação do ego" somada à necessidade de reversão de audiência do seu programa que já foi líder no horário. É verdade que o seu programa patina no gosto do espectador; que as catarses de pessoas famosas já foram muito exploradas na televisão norte-americana, antes de chegar por aqui. Tudo isso gera impacto, é ponto de audiência que vale milhões de reais, vende jornal, revista. O que fazer? O ser humano é movido a escândalos. O deus consumo nos empurra para o abjeto. Isto não invalida o ato espontâneo de Xuxa que pode servir para encorajar as pessoas à denúncia. Vamos esperar que isso não sirva para inibir demonstrações de afeto do avô para seus netos e netas, dos tio para com os sobrinhos menores. Representaria o fim da família como modelo catalisador do amor e da solidariedade essenciais para melhorar a sociedade. A Lei Joanna Maranhão altera o prazo de prescrição do crime de pedofilia, estupro e de atentado violento ao pudor praticado contra crianças e adolescentes. Passa a ser contado a partir do dia em que a vítima fizer 18 anos. Significa que as vítimas de abuso têm até 20 anos para denunciar. O Disque Direitos Humanos (Disque 100) recebe por dia, em média, 225 denuncias sobre violações de crianças e adolescentes. No Brasil, pela mídia, é como se esse tipo de crime não existisse. Por isso as revelações de Xuxa só foram levadas ao ar porque se trata de uma estrela. A loira de olhos azul-turquesa marejados comoveu milhões de espectadores. Escancarou uma porta que teimava em permanecer fechada para os meios de divulgação, e para as próprias autoridades. Merece, pelo menos o respeito de todos nós.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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