Mãe de dois filhos, casada, filha de uma dona de casa e de um comerciante, a fonoaudióloga e uma das “criadoras” da área de saúde auditiva do Centrinho, Regina Célia Bortoleto Amantini, 46 anos, assumiu mais uma atribuição na manhã de ontem. Talvez a mais desafiadora delas.
Depois de crescer profissionalmente dentro do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), o Centrinho, e ajudar a construir a história da instituição nos últimos 23 anos, Regina foi nomeada oficialmente a nova superintendente da unidade. Ela é a primeira pessoa a comandar o hospital depois de José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão, que ajudou a fundar o Centrinho em 1967 e se aposentou recentemente.
“Ele imprimiu sua marca no Centrinho, então o desafio de assumir o cargo é enorme. Mas sei que ele confia no meu trabalho e que vou continuar contando com o apoio dele sempre que precisar. Então, estou confiante”, diz Regina.
A nomeação foi assinada pelo reitor da USP, João Grandino Rodas e publicada na edição de ontem do Diário O?cial do Estado. Mas a fonoaudióloga já vinha desempenhando a função de superintendente desde 21 de julho de 2011, quando foi indicada por Tio Gastão como sua substituta.
A proximidade com o ex-superintendente, que ela diz ter sido “um anjo” em sua vida, é de longa data. Regina tinha por volta de 18 anos e ainda estudava fonoaudiologia na Universidade do Sagrado Coração (USC), quando participou de um projeto dentro do Centrinho.
À época, tio Gastão já tinha a ideia de ampliar o atendimento no hospital, voltando-se também para a área de saúde auditiva, além da já consolidada prestação de serviços a pacientes com anomalias craniofaciais. “Um dia, ele estava visitando os pacientes e começamos a conversar. Ele me contou sobre a ideia que tinha e comecei um estudo que gerou vários projetos. Na época, ninguém imaginava tudo o que iria acontecer”, relembra.
Quatro anos depois, já formada, Regina prestou concurso público e começou a trabalhar como fonoaudióloga contratada pelo Centrinho. Por 16 anos, atuou na equipe de implante coclear do hospital, contribuindo com o programa que é pioneiro no país.
Em outubro de 2006, assumiu a chefia técnica da Divisão de Saúde Auditiva do Centrinho, que ajudou a criar. Atualmente, pelo hospital já passaram mais de 85 mil pacientes vindos de todo o país, sendo 30 mil deles deficientes auditivos.
Afinidade
Além da forte afinidade profissional com tio Gastão, foi a evidente desenvoltura em funções de liderança que levou Regina ao cargo máximo da instituição. Ela mesma se denomina batalhadora e determinada em busca de seus ideais, mas afirma que assumirá uma função conciliadora na superintendência do Centrinho.
“Mesmo porque ninguém trabalha sozinho. No Centrinho, tudo sempre é discutido entre os chefes para proporcionar o melhor atendimento aos pacientes e as melhores condições de trabalho aos funcionários. Claro que, como instituição pública, temos regras e limitações. Mas nada é decidido de maneira rígida”, defende.
Regina ainda não sabe quais serão seus próximos passos no novo cargo, mas em breve deve se reunir com os chefes da instituição para elaborar planos, entre eles o aprimoramento dos serviços e futuras reformas nas dependências do hospital. A única certeza, segundo ela, é que sua gestão será a continuidade do trabalho realizado por tio Gastão nos últimos 45 anos.
“Ele foi o mentor do Centrinho e ainda estamos assimilando o fato de ele ter se aposentado. Ele é insubstituível, mas faremos todos os esforços para manter a qualidade de atendimento que é característica do hospital. O objetivo é jamais decepcioná-lo”, observa.
Vocação descoberta
Mais do que dedicada, Regina Célia Bortoleto Amantini se diz apaixonada pelo que faz. Na adolescência, queria ser dentista, quando conheceu uma criança com deficiência auditiva.
Ao se deparar com uma história de muitas restrições, se encantou com a possibilidade de poder transformar aquela realidade e ajudar deficientes auditivos a conquistar autonomia e, assim, todas as oportunidades de uma vida “normal”.
“Decidi buscar informações sobre como poderia proporcionar esta mudança. Então descobri a fonoaudiologia. No mesmo dia, abandonei completamente a ideia de cursar odontologia”, relembra.
Lista tríplice
Após a aposentadoria de José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão, a expectativa era de que o conselho deliberativo do Centrinho enviasse uma listra tríplice à reitoria da Universidade de São Paulo (USP) para que o novo superintendente do hospital fosse escolhido. Não foi o que ocorreu.
O reitor João Grandino Rodas decidiu nomear Regina Célia Bortoleto Amantini, que já ocupava o cargo desde o ano passado, indicada por Tio Gastão como sua substituta. Mas, ao final de 2013, quando se encerra a gestão de Rodas, a lista com o nome de três possíveis superintendentes do Centrinho terá de ser enviada para apreciação do reitor que assumir o próximo exercício. A expectativa é de que Regina seja incluída entre os indicados.
Perfil
Nome: Regina Célia Bortoleto Amantini
Data e local de nascimento: 27 de abril de 1966, em Garça
Estado civil: casada com Deodato Amantini Junior
Filhos: Caio, 19 anos, e Lucca, 17 anos
Lema de vida: “Proporcionar bem-estar às pessoas para que elas vivam cada vez melhor”
23 anos de Centrinho
Graduada em Fonoaudiologia pela Universidade do Sagrado Coração (1987), mestre em Distúrbio da Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1993) e doutora em Distúrbio da Comunicação Humana pelo Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (2002), Regina Célia Bortoleto Amantini ingressou no Centrinho-USP por concurso público em 1989, na função de fonoaudióloga.
Pouco antes, em 1985, ainda como aluna de fonoaudiologia, desenvolveu um dos projetos embrionários da área auditiva no Centrinho-USP.
Entre 1990 e 2006, atuou na equipe de implante coclear do hospital, contribuindo com o programa que é pioneiro no país. Desde outubro de 2006, é chefe técnica da Divisão de Saúde Auditiva do Centrinho-USP, que desenvolve inúmeros programas na área. Ao assumir a superintendência do hospital, ela deixará o cargo de chefia na divisão, mas o nome de seu substituto ainda não foi divulgado.