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O nada é quase tudo

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Quando eu era adolescente, vivia pensando no vazio, no nada. Ficava intrigado e apreensivo quando tentava imaginar o que existiu antes do Big Bang, a grande explosão que deu início a tudo. Coisa de adolescente (mas também de cientistas, filósofos, artistas). Minha visão do nada, porém, era influenciada por uma música do Black Sabbath chamada "Caravana dos Planetas", que descrevia os espaços mais insondáveis do universo de maneira um tanto assustadora. Outro dia, minha amiga Vitória escreveu no Facebook o seguinte: "- Eis minha única certeza: o nada. Vazio." Como quase tudo o que é postado no Facebook, percebi aquilo com um tom de sátira ou deboche. Mas depois eu pensei bem e me vieram as aulas do professor Adenil, nos tempos da Unesp. Ele passava para os alunos uns arquivos de Power Point com todo o conteúdo das aulas. Uma vez, pediu para a classe ler um com o título: "O nada é quase tudo". A aula era de semiótica, mas o texto era da área da física. Depois de tantos anos, procurei essa aula em arquivos antigos do meu computador. Tem uma parte assim:

"Eliminando todo tipo de matéria ou radiação, os gases mais rarefeitos e as menores partículas atômicas, limpando os quatro cantos do espaço, chegamos a um universo vazio, algo como uma laranja sem gomos nem casca. Porém, cientistas americanos, com base em imagens de fundo do universo - o brilho que sobrou do Big-Bang -, chegaram à conclusão de que, se você tirar tudo o que é possível do cosmos - matéria, micróbios, rochas, galáxias, átomos, luz -, ele ainda continuará pesando 3/4 (três quartos) do que pesava antes, mais precisamente 73% da sua massa original." Mais à frente, o texto afirmava: "Há 2 mil anos, imaginávamos que éramos o ápice da criação; nosso planeta, o centro do universo. A Terra acabou se revelando um dos súditos do Sol, o Homo Sapiens, neto recente na genealogia dos macacos. O sol, que era símbolo da Divindade, não passa de um grão de poeira brilhante entre incontáveis estrelas. O orgulho humano foi praticamente reduzido a nada." Ainda segundo a aula, Aristóteles dizia que não era possível a existência de espaço sem matéria. "- A natureza tem horror ao vácuo", teria dito o filósofo. Sabemos hoje, contudo, que Aristóteles estava errado.

Esta não é uma afirmação que a gente escuta a todo momento: "Aristóteles estava errado." Por isso mesmo, pela constatação de como até os mais sólidos paradigmas e dogmas do conhecimento estão sujeitos à superação e/ou transformação, é que a compreensão do universo, da vida, das sociedades, das culturas, da arte, da natureza e de si próprio é uma tarefa recompensadora. Porque o saber é infinito em um mundo de vivências e prazeres finitos. Uma pessoa evoluída, culta e realmente sofisticada, portanto, teria sempre prazer com a apreensão do conhecimento, sentir-se-ia realizada com a descoberta. Mas é comum termos medo do desconhecido e frequentemente titubeamos diante da possibilidade de romper as barreiras confortáveis que criamos para nosso conjunto de compreensões - não estou pensando em algo pós moderno, mas sim na óbvia constatação de que cada indivíduo tem um conjunto de crenças responsável por situá-lo na natureza, na sociedade... no todo. Voltando à física e à aula do professor Adenil, só no ano de 2003, a análise de dados do satélite-telescópio WMAP levou à conclusão de que 73% do peso do Universo vêm do vazio. Não é possível imaginar tudo o que se pode descobrir a partir disso.  Podemos entender, portanto, que o nada, o vazio, também é repleto de significados. Ao contrário da visão corrente de nossa sociedade barulhenta e confusa, os momentos de solidão, as paisagens vazias, são mais importantes do que parecem.

Não dá para se interiorizar em frente à TV enquanto o Faustão está falando. É essencial tentar um afastamento momentâneo da sociedade moderna de consumo e buscar atingir um tipo de equilíbrio que seja seu, que seja próprio. E para isso acontecer, precisamos do silêncio, do vazio, do nada. 

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião

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