Podemos colocar a questão do descontrole climático nos seguintes termos: se formos incapazes de mudar nosso comportamento e a ameaça for real, perderemos tudo; se conseguirmos mudar radicalmente nosso comportamento e a ameaça for ilusória, não perderemos absolutamente nada! Aliás, as medidas a serem tomadas para enfrentar a ameaça climática, ao diminuírem a poluição e a possibilidade de conflitos cruentos por água potável, terra agriculturável e petróleo, permitem que a humanidade possa avançar com serenidade. No entanto, se acreditarmos no que diz a maioria dos cientistas, estamos em vias de não conseguir mais impedir o "descontrole" na Terra.
Sem me estender, assinalo apenas dois aspectos sempre citados em artigos científicos e que me parecem particularmente inquietantes. O primeiro é que, como consequência do efeito estufa, da diminuição do albedo, de mudanças na vegetação entre outros, o aumento da temperatura do planeta provoca considerável evaporação da água dos oceanos que, por sua vez, acentua o efeito estufa. Provavelmente, entramos num círculo vicioso que não depende mais da emissão de gases ligados à atividade humana, mas que se acelera por conta própria, isto é, estamos no limiar de um processo irreversível de aquecimento conhecido como retroalimentação do vapor d´água. O segundo aspecto a considerar é que as reviravoltas climáticas acontecem mais bruscamente do que se imaginava até aqui. Estima-se hoje que o último período glacial terminou de maneira abrupta há cerca de 11.500 anos. Não houve um processo secular de transição para um clima temperado; essa mudança ocorreu em não mais do que uma década.
Agora na Rio +20, as nações se mobilizam mais uma vez, mas, será que o salto de solidariedade e até de profunda cumplicidade entre elas é exequível? Estariam os países do Norte dispostos a mudar seu modo de vida? E os países emergentes, sobretudo a China e a Índia, estarão dispostos a pôr em risco a decolagem econômica, na primeira oportunidade que têm nos últimos séculos, para sair do subdesenvolvimento? Será que uma ação global a favor do clima é possível em um mundo caracterizado por grave dessimetria nas relações internacionais?
Confesso que não consigo superar com facilidade estas preocupações porque estamos em um mundo preso ao tribalismo, ao egoísmo e no qual a credibilidade moral ainda é um bem raro. Um mundo em que as grandes crises levam as nações, os grupos sociais, as empresas e os indivíduos a protegerem ferozmente os próprios interesses, mais do que a dar demonstrações de solidariedade ou de generosidade. Assim como é difícil admitirmos que nosso comportamento possa provocar um cataclismo climático, é difícil admitirmos que tal mundo consiga ser inteiramente repensado. Repensado para iniciarmos uma etapa completamente diversa da aventura humana, uma etapa em que deixaremos de lutar contra o outro para enfrentarmos um inimigo bem mais terrível e que ameaça a humanidade em seu conjunto. Mas, mais uma vez, confesso que estaria mentindo se dissesse que confio inteiramente em nosso instinto coletivo de sobrevivência; mesmo que semelhante instinto exista para o indivíduo, ele permanece hipotético no tocante à espécie. De qualquer forma, o presente século será, para a humanidade, o século da regressão ou será o século de uma saudável metamorfose... não há meio termo.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru SP