Estava marcada para ontem, às 16h30, a primeira audiência do “caso “Evelyn”, travesti de nome de nascimento Erik Ribeiro, 20 anos, que foi brutalmente espancada, esfaqueada no pescoço e nas costas e depois abandonada em um matagal na Vila Viação B, em Bauru, em fevereiro deste ano (leia mais abaixo).
No entanto, apenas a acusação e suas testemunhas compareceram ao Fórum. O acusado Carlos Augusto Jeronymo Pinto, 31 anos, não se apresentou e foi representado por seu advogado, Paulo Roberto Ramos.
O caso foi encaminhado, por sorteio, para o juiz Ubirajara Maintinguer na 4ª Vara Criminal de Bauru. Na tarde de ontem, o clima era de apreensão no Fórum. Foram intimados a comparecer à audiência: Evelyn; Everton de Jesus, 27 anos, segunda testemunha a ter contato com a vítima; Markinhos Souza da Associação Bauru pela Diversidade (ABD); o pastor Aloísio Pereira da Silva, que encontrou a travesti em meio ao matagal; e uma testemunha de identidade preservada.
Jeronymo chegou a ser preso sob acusação de tentativa de homicídio um dia após o crime e permaneceu por 30 dias na Cadeia Pública de Duartina. No entanto, ao término do período, passou a responder pelo delito em liberdade.
Inicialmente, a audiência realizada na tarde de ontem poderia ser crucial para o caso. Jeronymo poderia ir a júri popular ou ser absolvido, mas sem a sua presença e com alguns pedidos da defesa, essa decisão foi adiada para um novo encontro sem data definida.
“Esse cara tem que pagar pelo que fez. Ela (Evelyn) ficou com sequelas, não mexe direito um lado do corpo. Eu e as amigas tínhamos que dar comida na boca dela porque ela não conseguia segurar os talheres para comer. Muitos casos como este devem ficar escondidos porque as vítimas não têm coragem de denunciar, mas nós vamos até o fim”, disse Simone Ribeiro, 40 anos, mãe de Evelin.
Desfecho
Ao final dos rápidos depoimentos das testemunhas de acusação, que foram contestadas em alguns pontos pela defesa, a equipe de reportagem tentou falar com o juiz Ubirajara Maintinguer, mas foi informada por um assistente de que não havia tempo entre as audiências.
O advogado de defesa, Paulo Roberto Ramos, explicou que ficou sabendo bem próximo ao horário da audiência que Jeronymo não poderia comparecer, alegando problemas de saúde. Quando questionado se havia apresentado atestado médico, ele justificou que a irmã do acusado não conseguiria chegar a tempo.
“Ele está com problemas de saúde e eu vou justificar. Aí fica a critério do juiz. As versões são conflitantes. Nós vamos fazer a juntada do atestado médico aos autos do processo e temos que aguardar ainda um exame toxicológico que está marcado para a semana que vem. Ele alega que quase foi assaltado pela vítima e que teria agido sob efeito de entorpecentes”, justificou o advogado.
Ao ficar sabendo do posicionamento da defesa, Evelyn e as testemunhas ficaram espantadas. “Eu não acredito nisso”, resumiu a vítima.
Carlos Augusto Jeronymo Pinto, 31 anos, possui antecedentes criminais já tendo sido condenado em 29 de junho de 2005, pelo juiz da 1ª Vara Criminal de Bauru, Benedito Antonio Okuno, a cumprir pena de 4 anos e 8 meses de regime fechado por um roubo praticado.
Contra a homofobia
Markinhos Souza, da ABD, teme que o crime tome maiores proporções. Em menos de dois meses foram três casos parecidos, sendo o primeiro o assassinato do travesti Josimar Ferreira Severino, 23 anos, conhecido como Safira, e o segundo a agressão do homossexual C.H.M., 28 anos, em um supermercado de Bauru, ambos registrados em janeiro deste ano e noticiados pelo JC.
“Esse caso não pode ficar impune. São muitos casos aparecendo recentemente e isso tem que acabar. Os agressores têm que ser punidos. O problema é que ainda falta uma lei específica para a homofobia”, enfatizou.
O caso ocorrido no supermercado bauruense acabou gerando o “beijaço gay”, ato que reuniu cerca de 100 manifestantes da Praça Rui Barbosa, em Bauru, no final do mês de fevereiro, pedindo o fim da homofobia.
Relembre o caso
Era madrugada do dia 9 de fevereiro quando amigas deram a falta de Evelyn. Em entrevista ao JC, na ocasião, ela contou que estava no viaduto da Nações Unidas com a Duque de Caxias e lá acabou encontrando seu agressor.
Segundo relatos da vítima, o Carlos Augusto Jeronymo Pinto, ainda desconhecido por ela, passou com um automóvel prata e ela pediu carona. Durante o trajeto, o agressor teria parado para consumir crack e ainda solicitado um programa com Evelyn.
Pelo valor de R$ 50,00, ela aceitou e ambos foram para um motel afastado da cidade. No entanto, quando estavam próximo ao local, o automóvel atolou. Por motivos desconhecidos, fora do automóvel, Jeronymo teria mostrado a faca a ela e começado a desferir golpes, além de agredi-la.
O agressor ainda jogou blocos de concreto na cabeça da vítima. A barbárie somente parou quando ela fingiu que estava morta. Foram 30 horas sob sol intenso e, para sobreviver, Evelyn comeu mato. Recuperada e sorrindo, hoje ela ainda tem sequelas. “Essa minha mão às vezes fica repuxando quando faço movimentos rápidos”, disse Evelyn.