Polícia

?Estavam esperando o jogo do Timão?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

O placar de 1 a 1 foi suficiente para o Corinthians eliminar o Santos e chegar à sua primeira final de Libertadores. Mas para Elízio Carlos da Silva, 44 anos, o jogo terminaria em 3 a 1 para o “Timão”. Infelizmente, ele não pôde ver que errou o palpite e nem vibrar com o feito histórico do time de coração. Horas antes, ele foi vítima fatal de um acidente na Bauru-Ipaussu. Também morta na colisão, a filha de Elízio, Ana Paula da Silva, 21 anos, nutria o mesmo amor pelo time. No velório, a camisa da equipe sobre o caixão conferia tons ainda mais dramáticos à tragédia.

“Eles estavam esperando o jogo do ‘Timão’”, conta Isabel Dias da Silva, 35 anos, esposa e mãe das vítimas. Bastante abalada, ela apenas lamenta: “Infelizmente, não conseguiram”. Na ocasião, no fim da tarde de anteontem, Elízio dirigia seu veículo, um Citroën Xantia, no sentido Bauru-Piratininga. No carro, além da filha Ana Paula, estava o seu sobrinho Diego Silva, 18 anos, que está internado em estado grave (leia mais abaixo).

Isabel conta que os três teriam vindo a Bauru fazer compras exatamente para assistir pela televisão ao jogo decisivo. Quando voltavam, a apenas 400 metros de onde residiam - um sítio no bairro rural Águas Virtuosa -, envolveram-se em forte colisão com uma carreta que transportava combustível.

Minutos antes da tragédia, Ana Paula, que trabalhava como camareira, ligou para sua irmã Débora Cristina Dias da Silva, 18 anos. “Ela disse ‘estamos chegando. Daqui a pouco, estamos aí’”, conta. Porém, eles não chegaram. “Comecei a ouvir o barulho das sirenes. Tive a certeza de que havia ocorrido algo”, relembra Débora, chorando bastante.

A jovem conta que a irmã era muito esforçada e carinhosa. Além do Corinthians, tinha outra paixão: a filha, de apenas 5 anos. “Ela era uma ótima mãe”, completa.

No velório ontem, Débora estava com a camisa do Corinthians que o pai vestiu antes de sair de casa. Além dela e dos seus outros dois irmãos - com 11 e 22 anos de idade -, muitos amigos do bairro compareceram para se despedir deles.

 

‘Sarrista’

Elízio, conhecido como “Biriba”, foi descrito como um homem muito trabalhador. Ele fazia “de tudo” no Horto Aimorés. “Era uma excelente pessoa. Um excelente pai”, conta Débora. Porém, esta não é a única qualidade que vai ficar na memória de quem o conheceu. Segundo todos, ele tinha um grande senso de humor.

Em meio às lágrimas, o irmão mais velho de Elízio, Luís Carlos da Silva Filho, afirma que o irmão era muito “sarrista”. “Ele tirava sarro de todo mundo”, conta. O assunto das piadas não podia ser outro: o time de coração.

“Eu sou são-paulino. E ele vivia pegando no meu pé. Era uma pessoa muito divertida. Quando o Corinthians ganhava, ninguém aguentava. Ele era daqueles que gostava de ficar falando”, relembra, esboçando um leve sorriso na face triste.

Por volta das 16h30 de ontem, os corpos de Elízio da Silva e Ana Paula foram sepultados no Cemitério do Jardim Redentor. Abraçados, os familiares choravam e tentavam tirar forças uns dos outros. “Ele só queria ver o Timão dele”, completou Débora da Silva, em tom de despedida.


Estado grave

Além das duas vítimas fatais, também estava no carro Diego Silva, 18 anos. Em estado grave, ele foi levado ao Pronto-Socorro Central (PSC). Até o fechamento desta edição, o jovem ainda estava internado no Hospital de Base (HB) e, de acordo com a instituição, seu quadro era considerado grave.

Mesmo neste estado preocupante, o pai de Diego, Luís Carlos da Silva Filho, considera o fato de o filho estar vivo um milagre. “Ele tem Deus dentro dele. Ele estar vivo é um milagre em meio a toda esta tragédia”, afirma.

Segundo Luís Carlos, Diego estava no banco do passageiro quando a colisão ocorreu. Já Ana Paula da Silva estava sentada na parte traseira, bem atrás do pai.


No fim da fila, a tragédia

Com a colisão, formou-se um congestionamento de aproximadamente 3 quilômetros ao longo da rodovia João Baptista Cabral Renó (SP-225), a Bauru-Ipaussu. Entre os “presos” na ampla fila de veículos estava Elízio Carlos da Silva Filho, 22 anos. Como o nome já denota, ele perdeu o pai e a irmã no grave acidente.

“Eu estava voltando para casa quando fiquei preso no trânsito que se formou. Não imaginava o que se tratava. Quando cheguei perto, vi o carro e soube da tragédia”, conta o jovem. 

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