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Bauru tem com 61 mil pessoas hipertensas

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 7 min

Definir um número exato de pessoas com diagnóstico líquido e certo de hipertensão arterial em Bauru é um quebra-cabeça com peças que não se juntam porque a doença é silenciosa e virou epidemia. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) “caça” os prováveis hipertensos em um grupo estimado em 61.912 habitantes, dos quais 20.217 estão em tratamento, o que corresponde a cerca de 33% do total estimado.


Além dos hipertensos tratados pela SMS há os pacientes com diagnóstico confirmado sob cuidado médico na rede particular e outro contingente de hipertensos que bate à porta dos atendimentos de urgência e emergência dos Prontos-Socorros à beira da morte. A pressão alta aumenta a probabilidade de infarto, problemas renais e derrame (AVC), que é a maior causa de morte no país.


Conforme o JC noticiou na edição do dia 26 abril deste ano, Dia Nacional do Combate à Hipertensão, houve uma ligeira queda no número de óbitos causados pela doença em Bauru. No primeiro trimestre de 2011 faleceram por hipertensão 75 pessoas contra 60 no mesmo período deste ano, de acordo com dados do Sistema de Informação de Mortalidade da Prefeitura de Bauru.


O médico sanitarista Pedro Luiz Pereira, responsável pelo Programa de Controle da Hipertensão da SMS, alerta que a hipertensão passa muito tempo desapercebida – em silêncio –, diferente, por exemplo, do diabetes, doença com o diagnóstico mais evidente. Diante desse complicador, ele ressalta que o grupo de risco de hipertensos é estendido para mais de 61 mil pessoas em Bauru como alvo para o planejamento de assistência do município.


O médico trata com cautela esse dado estatístico por entender que 61 mil é um número superestimado porque equivaleria a aproximadamente 20% do total da população do município.  


No entanto, ele organiza a estratégia de combate à hipertensão arterial da SMS com base no número superestimado de hipertensos que são alvo constante de busca, como quando se faz campanha de medição de pressão arterial “Eu sou 12 por 8”. Na realizada em 22 de abril último, do total de 640 pessoas avaliadas, aproximadamente 20% apresentaram pressão arterial acima de 12 por 8.


“A gente está sempre tentando incluir nos 20 mil alguém dos 61 mil. Eu me programa com quase 70 mil que são alvo da minha atenção. Nos outros 290 mil habitantes o risco é menor”, situa Pereira.


A rede de saúde municipal projeta um grupo alvo superestimado e um grupo com assistência constante equivalente a um terço dos atendidos somente pelo Serviço Único de Saúde (SUS).


“Não tenho a estimativa de atender todos os hipertensos. Também não acho que tenha quase 70 mil hipertensos. Só tenho que me preocupar com 70 mil pessoas com hipertensão. Porque a incidência nunca é maior que isso. Meu pior resultado seria ter 70 mil pessoas hipertensas em Bauru”, esclarece Pereira.



Média brasileira


De acordo com o médico sanitarista Pedro Luiz Pereira, os números de Bauru acompanham a média nacional no que se refere às características dos pacientes. Ele acrescenta que a metodologia de cálculo é baseada em dados do Ministério da Saúde (MS). O recorte desse grupo estimado superior a 61 mil pessoas trabalha com a projeção de 8% de pessoas na faixa etária de 18 a 24 anos de idade e 35% maiores de 25 anos.   


Para se chegar aos 61 mil prováveis hipertensos em Bauru o cálculo de projeção utiliza o número total de habitantes definido pelo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), usado pelo governo federal para definir políticas públicas, inclusive na área da saúde.  


De acordo com Pereira, o MS define que 78% do total de habitantes de Bauru são usuários do Serviço Único de Saúde (SUS). É com base nesta informação que a SMS planeja sua estratégia de acompanhamento da população com hipertensão arterial projetando 61.217 prováveis hipertensos.


Pereira lembra que os 20.217 pessoas diagnosticadas com hipertensas são acompanhadas sistematicamente pelo SUS com atendimento ambulatorial nas unidades básicas de saúde de Bauru. “Estou atendendo praticamente um terço do horizonte total”, define. Acrescenta que a estratégia do Programa é atender o maior número de hipertensos do município.


Atender de forma sistemática é, a partir do diagnóstico definitivo, monitorar regularmente a condição do paciente, com aferição da pressão arterial, orientações e administração de medicamentos na rede de postos de saúde do município.


Pereira esclarece que há pessoas que vão à unidade básica. Porém, não aderem ao programa. Outras frequentam, mas não realizam o tratamento.

 

Hipertensão vigiada


Enquanto os 20.217 hipertensos acompanhados no Programa de Controle da Hipertensão da SMS passaram por três consultas médicas no ano passado, a população geral teve 2,4 consultas em 2011, na rede pública. Neste ano, o médico Pedro Luiz Pereira esclarece que os pacientes hipertensos já passaram por 1,3 consultas, enquanto que os outros usuários somente 0,8 até o final do mês passado.


O médico comenta que, no final do ano passado, o Programa fechou com um total de 21.178 pacientes em atendimento, população menor do que os monitorados neste ano. A queda de hipertensos no programa, conforme Pereira, deve-se ao óbito de pacientes e a alta médica.

 

Enfrentar é melhor tratamento


A hipertensão arterial é uma doença que não aceita menosprezo.

É fatal e não faz distinção de idade para fazer suas vítimas. Jovem, com 35 anos, muitos planos, bom humor e com hipertensão arterial. De asmática, Karina Cristina Del Masso se descobriu hipertensa já aos 19 anos. Ela comenta que a administração de uma superdosagem de um medicamento para tratar a asma, acelerou seu coração e sua pressão arterial chegou a 23 por 17 – a normal é 12 por 8. Desde então, começou o tratamento com remédios e acompanhamento frequente.


Ela conta que, no início do tratamento para normalizar a pressão arterial elevada, o médico tentou retirar os medicamentos, porém o problema persistiu e retomou a dosagem diária. A rotina de Karina pela manhã inclui o remedinho e cuidados constantes com a doença. Na última quinta-feira, a jovem passou pelo acompanhamento ambulatorial da equipe da Unidade Básica de Saúde da Vila Cardia. Karina não vacila. Ela comenta que o diabetes e o colesterol estão em ordem.


Ela integra o grupo de 1.414 pessoas com idade menor do que 40 anos, entre os 20.217 pacientes hipertensos acompanhados pelo Programa de Controle da Hipertensão, da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Bauru.


Karina avalia que sua boa qualidade de vida está diretamente ligada ao acompanhamento da pressão arterial. “A gente já sabe que o problema existe”, comenta.


Ela ressalta que sua família tem histórico de hipertensão arterial. Há 2 anos, sua mãe Vera Lúcia Del Masso faleceu aos 57 anos de idade ao sofrer um infarto. Karina se recorda que a mãe chegou ao hospital com a pressão arterial alta. Seu pai Alberto Del Masso Jr. de 64 anos também é hipertenso e é acompanhado na UBS da Cardia. Os avós paternos também eram hipertensos.

 

Doença já afeta metade da população acima de 55 anos

Mais da metade dos brasileiros com 55 anos ou mais são hipertensos, conforme aponta a edição 2011 da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel), do Ministério da Saúde (MS).


A pesquisa por telefone entrevistou 54 mil adultos em todas as capitais do Brasil. Leia detalhes dos dados da Vigitel 2011 nos quadros.


A doença crônica atinge mais as mulheres em todas as faixas etárias avaliadas a partir de 18 anos.


A população de 65 anos ou mais apresenta 64,3% de mulheres hipertensas, enquanto que os homens representam 52,4%.


Os anos de estudo também influenciam na doença. A Vigitel 2011 revela que quanto menor a escolaridade maior a taxa de hipertensos.

Diagnóstico prejudicado


O médico sanitarista Pedro Luiz Pereira comenta que o diagnóstico de hipertensão arterial não é relatado de forma correta nos postos devido a falhas na coleta das informações.


Como exemplo, ele cita um usuário que entra para tratar-se de uma gripe e é hipertenso.


“O sujeito é hipertenso e vai fazer uma consulta com gripe. Você acha que o médico vai dizer que ele é hipertenso ou que ele tem gripe? Você sabe que ele vai marcar que o CID (Classificação Internacional de Doenças) é de gripe. A gente não tem essa informação”, lamenta.


Pereira tem a impressão de que a imprecisão do diagnóstico é constante e, por consequência, afetará a estratégia de combate e prevenção de doenças do município.  “O sujeito vai entrar em um outro planejamento”, lamenta o médico sanitarista.

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