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Horário eleitoral estimula barganha

Julia Duailibi
| Tempo de leitura: 4 min

Às vésperas das convenções municipais que definirão as coligações dos candidatos a prefeito, os partidos abriram a temporada de negociações e ofertaram espaço nos governos, vagas no Legislativo e ajuda para eleger vereadores de legendas aliadas, com o objetivo de angariar segundos a mais na propaganda eleitoral gratuita, no rádio e na TV.


O critério mais valorizado nos acordos interpartidários não é o programa de governo para as cidades ou a identidade ideológica entre as legendas, mas o tempo que cada sigla tem no horário eleitoral gratuito, que, na realidade, custará R$ 606 milhões em renúncia fiscal para o governo.


Os governadores têm cedido espaço nas secretarias em troca de apoio a seus candidatos nas capitais. Os prefeitos que concorrem à reeleição condicionam a manutenção dos aliados em seus governos ao apoio a suas candidaturas.


Parlamentares chegam até a se licenciar da Câmara dos Deputados ou da Assembleia para permitir que um suplente assuma a sua cadeira no Legislativo e, em troca, apoie certa candidatura a prefeito.


As alianças pelo País reproduzem a disputa pelo PP, de Paulo Maluf, promovida por PT e PSDB, em São Paulo, na semana passada. Para conseguir 1 minuto e 35 segundos na TV, ao pré-candidato José Serra (PSDB), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) sinalizou com a Secretaria de Habitação, com capacidade anual de investir R$ 1,5 bilhão.


Mas o governo federal atravessou a negociação e entregou para o PP, de Maluf, a Secretaria de Saneamento Ambiental, do Ministério das Cidades, que tem orçamento de mais de R$ 2 bilhões. A articulação deixou o pré-candidato do PT, Fernando Haddad, com um minuto a mais de tempo de TV que o adversário tucano.


A ação do governo federal também se reproduziu a favor do candidato petista em Salvador (BA), Nelson Pelegrino. O líder estadual do PR, o ex-governador baiano César Borges, foi nomeado vice-presidente de Governo da Caixa Econômica Federal. Pelegrino e Borges reuniram-se na quinta-feira para tratar do apoio.


Os governadores também entram com o peso da máquina para atuar a favor dos seus candidatos. O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), atuou a favor de sua candidata em João Pessoa, Estelizabel Bezerra. Foi a campo e costurou acordo com o PC do B em troca da Secretaria de Meio Ambiente.


Sem apoio do governador, o PMDB, do pré-candidato José Maranhão, ofereceu ao PTB até vaga na Câmara. O presidente municipal da sigla, Benjamin Maranhão, é deputado e se licenciará abrindo espaço para o suplente, Armando Abílio, do PTB.




Procedimento padrão


Em Pernambuco, o governador Eduardo Campos (PSB) costurou frente com 15 partidos para apoiar o seu candidato em Recife, Geraldo Júlio, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico. A ação garante a ele, por enquanto, o maior tempo de TV. As legendas que apoiam a candidatura ocupam espaços no governo: o PR, por exemplo, tem a Secretaria de Turismo, o PP a de Esporte, e o PTB, o Detran.


A mesma fórmula foi reproduzida por Cid Gomes (PSB), no Ceará, onde o governador empregou capital político para desamarrar o apoio a Elmano de Freitas, candidato do PT, com o qual rompeu, na disputa em Fortaleza. Fechou alianças com dez partidos em torno de Roberto Cláudio, que terá quase três minutos a mais na TV que o petista.


Em Porto Alegre, o candidato à

reeleição, José Fortunati (PDT), construiu arco de alianças de 11 partidos, que têm cargos no governo, como PTB, PP e PMDB.


Fortunati, que chegou a dizer que secretários que apoiassem outra legenda deveriam sair do governo, ofereceu espaço para o PT em troca de aliança - mas o partido terá candidatura própria.


Na segunda-feira, ao confirmar o apoio ao prefeito, os dirigentes do DEM chegaram a pedir mesma “posição de destaque” no governo Fortunati.


Também candidato à reeleição, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), formou aliança com 18 partidos, que deve dar a ele mais de um terço de todo o tempo de TV da corrida carioca.


Para o marqueteiro Nelson Biondi, mudanças na lei eleitoral que restringiram showmícios e outdoors aumentaram a importância da exposição na TV: “Nas cidades grandes, a TV é praticamente a única forma de expor o candidato. O tamanho da coligação tem relação direta com a importância que a TV ganhou”.


Biondi destaca que o mais importante não é o bloco de propaganda com todos os candidatos, mas as inserções, de 15 ou 30 segundos, na programação.

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