Tribuna do Leitor

Meu crime imperdoável


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Cometi um crime terrível e boa parte dos motoristas desse mundão já deve ter cometido também. Alguns por falta de dinheiro, outros por esquecimento. O fato é que se esquecer de licenciar seu carro pode gerar um pandemônio. Sem contar o constrangimento, a submissão a um sistema leonino camuflado e o dinheiro que se aplica para resolver a situação. Passei por isso nesta semana e confesso que parecia estar vivendo em um universo paralelo, onde o cidadão é o último que fala e o primeiro que apanha.

Não! Não pretendo justificar meu erro. Errei. Porém, considerar isso um crime?! Não posso submeter-me à lei sem o direto de questioná-la, não seria democrático e, apesar do aperto de mãos entre o "símbolo da pouca-vergonha nacional" e a "ave de rapina", acredito que o meu país me concede o direito de raciocinar e divergir, mesmo que para ser calado diante de uma caneta carregada com uma dose de poder.

Domingo passado (17/06), meu automóvel foi apreendido no centro de Araraquara. Estava em Jaú, na casa de amigos, e resolvemos nos divertir naquela cidade. Na volta, fomos abordados pela Polícia Militar araraquarense. Dentro dos seus direitos e deveres, recolheu meu carro. Pedi, por favor, à policial que deixasse eu e meus amigos na rodoviária e ela, na intransigência que a farda pode conferir, respondeu: - eu não sou táxi. Fui deixado a pé, de madrugada, a 150 quilômetros de casa, sem eira, nem beira, em um local desconhecido, à mercê da sorte, do azar, de assaltos, de todo o mal que o escuro pode abrigar.

Que tipo de proteção é essa que ela teve por mim? Que tipo de proteção a comunidade pode esperar dela? Que tipo de treinamento recebe? Que tipo de conta ela presta por submeter alguém ao poder do seu distintivo? Nunca senti tanta saudade de Lençóis Paulista. Dos ouvidos, bocas, olhos e mãos que a autoridade lençoense tem para compreender, mais que isso, zelar pela gente.

Caminhamos por um tempo,
encontramos um táxi e voltamos para Jaú (imagine a fábula que pagamos). Anteontem (21/06), munido com o licenciamento, ?escassas garoupas? e ?suadas onças-pintadas?, voltei a Araraquara e precisei ir a três locais distantes: à empresa de guincho, à repartição pública e ao pátio de recolhimento. A surpresa: meu GPS havia sumido, junto aos óculos de sol e outras coisas menores. Claro que esbravejei. Daí perguntaram sobre um tal inventário junto à notificação (não vejo porque tinha obrigação de saber disso, pelo que entendi, isso cabe à polícia). Pediram as notas fiscais, ri da pergunta patética, já que não tenho por hábito carregar minhas notas nos bolsos. Você tem?

Providenciei (via e-mail) os documentos fiscais para espanto do estabelecimento. Fui ressarcido por alguns dos objetos roubados. Ninharia mediante ao montante de dinheiro que deixei nesse planeta de valores invertidos. Novamente, pensei na qualificação daquela mulher que me deixou na rua. Em sua responsabilidade sobre isso. No prejuízo financeiro e psicológico que me causou. No tempo de trabalho que perdi. Nota importante: quando dei por conta do roubo, disquei 190 (o nosso número de segurança), eis que a polícia disse que não poderia comparecer ao local, que me dirigisse à unidade mais próxima. Pergunto-me se ela e todas as autoridades têm consciência que suas ações geram reações em cadeia que prejudicam e humilham aqueles que deveriam ser profissionalmente instruídos, humanamente protegidos e merecidamente respeitados.

Pensamento da semana: Lealdade e Constância me parece um bom lema para o bem da sociedade, basta que seja interpretado, compreendido e aplicado.

Anderson Prado de Lima, diretor da Revista O Comércio, diretor-secretário da Associação Comercial e Industrial de Lençóis Paulista, colunista do Jornal Tribuna, membro do Conselho Municipal de Turismo, formado em letras e marketing de varejo

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