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Andarilhos sonham em ter um lar permanente

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 9 min

Sem-teto: porto seguro são os sonhos

Amparados pelo albergue do Ceac, na falta de um lar permanente, se apoiam no futuro e boa-vontade de voluntários

Na noite fria de quarta-feira, a cidade “ferve” na expectativa do primeiro jogo decisivo da Copa Libertadores. Corintianos e “secadores” rivais se aglomeram em bares ou em frente ao televisor da sala para acompanhar o duelo na Bombonera. Longe dos rojões ou gritos de gol, porém, outra aglomeração se forma em frente ao portão de ferro na rua Inconfidência, Vila Antártica. Lá a expectativa é outra e o jogo em questão é por um prato de comida e um bom banho antes de dormir acolhido por um cobertor debaixo de um teto.

Nessa batalha por dignidade, ao menos durante a noite, os acolhidos pelo albergue mantido pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), têm importantes aliados à sua espera. Os voluntários que se revezam diariamente para servir uma refeição de qualidade, o banho, além de uma cama acolhedora, abrem mão de seus afazeres e famílias para garantir alento a quem precisa descansar do mundo hostil encontrado na claridade do dia. “O mundo já é duro lá fora, alguém aqui tem que amenizar”, observa a voluntária Lígia Donegat.

O que leva uma pessoa a abandonar sua rotina, às vezes até um raro momento de lazer com a família, para ajudar desconhecidos que, em alguns casos, com estão de espírito alterado, podem até “dar trabalho” além do habitual?

“É saber que somos úteis para alguém, sair de nosso cotidiano em prol de algo maior, fazer o bem”, decifra Edimar Rodrigues de Araújo, voluntário no encaminhamento dos atendidos até os dormitórios, dois com 20 leitos cada, além de mais um com dez camas.

Os dois aposentos maiores dedicados aos homens ficam com as beliches tomadas. Dentro do alojamento, que de forma rígida tem as luzes apagadas às 22h até a alvorada das 6h, quando os albergados acordam, tomam o banho e café da manhã antes de enfrentar o dia novamente.

Poucas mulheres aparecem, mas quando chegam, são acolhidas em amplo quarto com berçário anexado.

E é na hora de dormir que se encontram as diferentes gerações e histórias debaixo do mesmo teto provisório e que, em comum, têm o fato de não possuir o porto seguro de um lar permanente.

Com o olhar distante e triste, barba por fazer e um curativo que esconde os 15 pontos que levou atrás da orelha direita, segundo diz, após cair de um caminhão durante trabalho na coleta de material reciclável, Francisco dos Santos aproveita enquanto o sono não chega para sonhar acordado com dias melhores.

Vindo de Jardim Alegre, noroeste do Paraná, tudo o que ele quer é arrumar um emprego de caseiro na zona rural. É o que de melhor sabe e pode fazer, afirma. Vítima de paralisia infantil, não pode pegar peso, mas garante eficiência como zelador de sítios. “Sei tirar leite, mexer com terra. Queria esse serviço e um lugar para morar”, deseja.

 

De sonho e de pó

Enquanto Francisco sonha, na cama ao lado, Luiz Carlos Tadeu Santos, 54 anos, desabafa: “vivo um pesadelo há nove meses”. Foi nesse tempo que a vida dele se transformou num “parto” por causa do vício.

Dependente de crack, conta que, por iniciativa própria, largou a família em Manaus (AM), onde tinha emprego, numa fábrica de bicicletas, e uma vida para tentar tratamento em Bauru. “Soube do Esquadrão da Vida (entidade de referência na recuperação psíquica e social de dependentes químicos). Cheguei aqui há cinco dias para tentar me tratar”, admite.

Entrevistado na última quarta-feira, dentro do alojamento masculino do albergue, Santos conta que navegou rio adentro, de balsa, até Belém, de onde desceu no mapa de ônibus até Brasília, Goiás e chegou a Bauru na expectativa de recolocar a vida nos eixos.

“Tudo virou um pesadelo há nove meses. Começava a chegar atrasado no emprego até que perceberam. Perdi o trabalho e o respeito em casa. Disfarçava para a mulher não perceber, mas não tinha jeito.  Até que vendi minha moto, torrei R$ 2 mil em crack num quarto de motel e fui embora”, narra.

Apesar de seguir o impulso de queimar a primeira pedra, Luiz confessa com os olhos marejados: “Na rua eu passo em frente ao orelhão, mas falta coragem para ligar para os parentes e dizer que estou vivo. Eu quero me recuperar e voltar para lá bem”, deseja.

Quem também lamenta a triste viagem na esteira das drogas é Paulo Roberto da Rocha Campos. Ex-palhaço salva-vidas de rodeios, conta ter caído do cavalo após se aventurar no traiçoeiro rastro da cocaína e encontrar o destino do crack.

De casa e da família, “Faísca” (nome artístico da época de arenas e picadeiro) tem ainda aceso o desejo de aceitação. No braço direito, o nome da filha caçula Kailini tatuado, diz, lhe dá força para tentar desviar de uma rota que lhe tirou emprego, respeito e uma casa para morar. “Estou pedindo socorro”, apela.

 

Histórias de vida escondidas na fila

No albergue noturno, pessoas à espera de amparo escondem relatos de como a vida pode ser surpreendente e cruel

Após passarem pela triagem inicial (embriagados ou pessoas listadas por terem causado problemas cedem lugar para os outros na fila de entrada), todos vestem o mesmo uniforme, comem a mesma comida e dormem em camas iguais. No entanto, a bagagem de vida de cada um é distinta, alguns com histórias surpreendentes.

Quem coleciona na memória muitas delas é o voluntário Irani de Castro. Aos 84 anos, ele é o chefe do turno de quinta-feira e comanda o trabalho de outras 15 pessoas que, por livre e espontânea boa vontade, doam seu tempo em prol de quem não tem o básico do básico.

Seguidor da doutrina espírita, assim como a maioria dos voluntários, ele comanda a prece para garantir proteção no início de mais uma noite no albergue.

No apagar das luzes dentro do alojamento, ele também faz questão de levar uma palavra de paz e otimismo aos abrigados que, independentemente ao que aconteceu na rua durante o dia, respeitam e absorvem toda a serenidade do momento de fé e reflexão.

Do alto da experiência de meio século de voluntariado, “seo” Irani lembra algumas das histórias camufladas sobre roupas esfarrapadas e expressões de fome. “Já vi muita coisa, mas tem algumas que ficam na cabeça. Teve uma vez que chegou um cidadão aqui que não entendia nossas perguntas”, recorda.

Irani lembra que, para entrevistar o migrante, teve o auxílio de outro albergado, que entrou na conversa, dirigindo-se logo ao homem silencioso. “Do you speak english?”, perguntando se ele, por acaso, falava inglês... russo... francês e assim por diante, sempre na língua correspondente ao idioma indagado.

O estrangeiro em questão era um francês em viagem pela América do Sul e que havia sido assaltado até que, de trem, chegou a Bauru. O “voluntário” em questão, era um ex-jogador de futebol que, pelas viradas da vida, perdeu o que tinha e foi parar no albergue em Bauru, ainda na região central próximo à estação ferroviária.

Ex-jogador do São Paulo - Irani desculpa-se pela memória falhar na tentativa o nome do atleta -, o cidadão havia jogado na Europa na década de 1970, daí a justificativa sobre o “mendigo poliglota”.

Mas o mundo da bola revela seu lado triste também nas noites atuais do albergue. Ao invés dos uniformes com números nas costas e chuteiras nos pés, hoje Marco Antônio Benedito veste a mesma camisa que os outros assistidos e o distintivo no peito é o do Ceac. “Sou alcoólatra, gastei tudo em bebida. Futebol é uma máfia, todos os jogadores bebem”, denuncia.

Longe dos gramados, ele chega para mais uma noite no albergue. Após deixar os pertences na recepção (regra da casa) e os R$ 0,35 que carregava nos bolsos, o ex-zagueiro lembra da época em que a preocupação maior era barrar os atacantes. “Passei pelo XV de Piracicaba, equipes B do Palmeiras e Grêmio e Botafogo de Ribeirão Preto”, relembra.

Marco alega não poder mais jogar por conta de uma séria lesão no joelho. E é através das contradições e dos sonhos que a dura marcação da vida na rua mostra suas garras. “Mas ainda quero ver se jogo a segunda divisão do Mato Grosso, por onde já passei. Lá é fácil”, garante, a caminho do beliche onde ia passar a noite.

 

Relato do repórter: a fila do desabafo

Essa conversa de “repórter cidadão”, além do clichê, pode soar até hipócrita. O camarada é o exemplo de “bonzinho por um dia” e escreve no jornal o quanto é fundamental (os outros) abraçar o voluntariado, e ponto. Acompanhei o trabalho dos voluntários no albergue do Ceac por duas noites, oportunidade em que tentei dar uma força para o pessoal. Não fiz nada demais, além de entregar um par de tênis aqui ou levar um bolo de chocolate ali, etc.

Mas me impressionou muito - além da extrema dedicação dos voluntários - a necessidade que os albergados têm simplesmente por um pouco de atenção. Não tive qualquer trabalho na abordagem de personagens para a matéria. Os próprios fizeram fila para conversar comigo e testemunhar suas dificuldades, muitas vezes um interrompendo o outro.

Colegas na dor de não ter uma casa para desabafar as derrotas ou até comemorar as vitórias (por que não?), reuniram-se no alojamento para contar seus dramas pessoais ao ponto da segurança pedir para cessarmos a “terapia em grupo” para que os outros, principalmente os que acordam cedo para trabalhar, pudessem descansar, enfim, com as luzes apagadas.

Não importa o que façam durante o dia, no período noturno, ao menos, testemunham funcionários e voluntários da casa, o respeito prepondera nos alojamentos, talvez por ser a única fonte de calor (nas duas maneiras) que os abrigados encontram.

Na segunda noite, reencontro alguns personagens da véspera, ávidos em completar os relatos. Um deles, Luiz Carlos, que afirma ter deixado o Amazonas em busca de reabilitação contra dependência química em Bauru, insiste: quer que eu ligue para seus parentes para avisá-los de que está vivo.

Argumento que não posso fazer o telefonema, impedido pela isenção jornalística na ocasião. Asseguro a ele que o contato da familiar, que vive em Goiânia (GO), foi passado para a assistente social da casa, que se incumbiu de tomar as providências. “Só de falar com você fico mais tranquilo”, disse o “xará”, que foi dormir mais leve enquanto eu saía, com uma “bigorna” nas costas.


Um ano de casa nova

Neste mês, a nova sede do albergue noturno do Ceac celebra um ano de fundação. O abrigo, que existe há cinco décadas, ganhou nova cara e espaço com as acomodações realocadas da rua Sete de Setembro estrategicamente para a Vila Antártica, a poucos metros do Terminal Rodoviário.

Após o primeiro ano de atividades em espaço físico ampliado, os planos também são de aumentar a atuação do CEAC no atendimento aos migrantes, chamados de “trecheiros” dentro da casa de passagem, e também aos sem-teto da cidade que encontrarão, ainda neste ano, mais que “casa, comida e roupa lavada”.

A entidade visa prestar atendimento também durante o horário comercial, com a atuação de assistentes sociais, psicólogos, oficinas educativas e recreativas, além de encaminhamento profissional, antecipa a coordenadora social Francine Tamos.

“Através das oficinas eles poderão despertar as aptidões que, muitas vezes, nem mesmo se lembram que possuem”, confia a coordenadora.

Serviço: Doações ou inscrições para turmas de voluntários, também presentes em outras iniciativas mantidas pela entidade, podem ser combinadas pelo telefone (14) 3366-3232.

 

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