Na noite fria de quarta-feira, a cidade “ferve” na expectativa do primeiro jogo decisivo da Copa Libertadores. Corintianos e “secadores” rivais se aglomeram em bares ou em frente ao televisor da sala para acompanhar o duelo na Bombonera. Longe dos rojões ou gritos de gol, porém, outra aglomeração se forma em frente ao portão de ferro na rua Inconfidência, Vila Antártica. Lá a expectativa é outra e o jogo em questão é por um prato de comida e um bom banho antes de dormir acolhido por um cobertor debaixo de um teto.
Nessa batalha por dignidade, ao menos durante a noite, os acolhidos pelo albergue mantido pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), têm importantes aliados à sua espera. Os voluntários que se revezam diariamente para servir uma refeição de qualidade, o banho, além de uma cama acolhedora, abrem mão de seus afazeres e famílias para garantir alento a quem precisa descansar do mundo hostil encontrado na claridade do dia. “O mundo já é duro lá fora, alguém aqui tem que amenizar”, observa a voluntária Lígia Donegat.
O que leva uma pessoa a abandonar sua rotina, às vezes até um raro momento de lazer com a família, para ajudar desconhecidos que, em alguns casos, com estão de espírito alterado, podem até “dar trabalho” além do habitual?
“É saber que somos úteis para alguém, sair de nosso cotidiano em prol de algo maior, fazer o bem”, decifra Edimar Rodrigues de Araújo, voluntário no encaminhamento dos atendidos até os dormitórios, dois com 20 leitos cada, além de mais um com dez camas.
Os dois aposentos maiores dedicados aos homens ficam com as beliches tomadas. Dentro do alojamento, que de forma rígida tem as luzes apagadas às 22h até a alvorada das 6h, quando os albergados acordam, tomam o banho e café da manhã antes de enfrentar o dia novamente.
Poucas mulheres aparecem, mas quando chegam, são acolhidas em amplo quarto com berçário anexado.
E é na hora de dormir que se encontram as diferentes gerações e histórias debaixo do mesmo teto provisório e que, em comum, têm o fato de não possuir o porto seguro de um lar permanente.
Com o olhar distante e triste, barba por fazer e um curativo que esconde os 15 pontos que levou atrás da orelha direita, segundo diz, após cair de um caminhão durante trabalho na coleta de material reciclável, Francisco dos Santos aproveita enquanto o sono não chega para sonhar acordado com dias melhores.
Vindo de Jardim Alegre, noroeste do Paraná, tudo o que ele quer é arrumar um emprego de caseiro na zona rural. É o que de melhor sabe e pode fazer, afirma. Vítima de paralisia infantil, não pode pegar peso, mas garante eficiência como zelador de sítios. “Sei tirar leite, mexer com terra. Queria esse serviço e um lugar para morar”, deseja.
De sonho e de pó
Enquanto Francisco sonha, na cama ao lado, Luiz Carlos Tadeu Santos, 54 anos, desabafa: “vivo um pesadelo há nove meses”. Foi nesse tempo que a vida dele se transformou num “parto” por causa do vício.
Dependente de crack, conta que, por iniciativa própria, largou a família em Manaus (AM), onde tinha emprego, numa fábrica de bicicletas, e uma vida para tentar tratamento em Bauru. “Soube do Esquadrão da Vida (entidade de referência na recuperação psíquica e social de dependentes químicos). Cheguei aqui há cinco dias para tentar me tratar”, admite.
Entrevistado na última quarta-feira, dentro do alojamento masculino do albergue, Santos conta que navegou rio adentro, de balsa, até Belém, de onde desceu no mapa de ônibus até Brasília, Goiás e chegou a Bauru na expectativa de recolocar a vida nos eixos.
“Tudo virou um pesadelo há nove meses. Começava a chegar atrasado no emprego até que perceberam. Perdi o trabalho e o respeito em casa. Disfarçava para a mulher não perceber, mas não tinha jeito. Até que vendi minha moto, torrei R$ 2 mil em crack num quarto de motel e fui embora”, narra.
Apesar de seguir o impulso de queimar a primeira pedra, Luiz confessa com os olhos marejados: “Na rua eu passo em frente ao orelhão, mas falta coragem para ligar para os parentes e dizer que estou vivo. Eu quero me recuperar e voltar para lá bem”, deseja.
Quem também lamenta a triste viagem na esteira das drogas é Paulo Roberto da Rocha Campos. Ex-palhaço salva-vidas de rodeios, conta ter caído do cavalo após se aventurar no traiçoeiro rastro da cocaína e encontrar o destino do crack.
De casa e da família, “Faísca” (nome artístico da época de arenas e picadeiro) tem ainda aceso o desejo de aceitação. No braço direito, o nome da filha caçula Kailini tatuado, diz, lhe dá força para tentar desviar de uma rota que lhe tirou emprego, respeito e uma casa para morar. “Estou pedindo socorro”, apela.