Esportes

?Loucos? de Bauru

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 8 min

Movidos pela paixão e pelo sonho de presenciar um momento inédito e histórico, 17 integrantes da torcida organizada Fiel Macabra Bauru estarão presentes hoje à noite no Pacaembu para assistir Corinthians x Boca Juniors e ajudar a empurrar o Alvinegro em busca do título da Libertadores. Os “loucos de Bauru” saem da cidade logo pela manhã e percorrerão os 326 quilômetros que separam a “Sem Limites” da Capital com projeção de chegarem à porta do estádio por volta do meio-dia. Ali ficarão concentrados com outros milhares de corintianos à espera do início da finalíssima. No total, cerca de 40 pessoas, somadas as sedes da Fiel Macabra em Bauru, Marília e Itapevi, estarão no estádio para acompanhar a decisão.

Aline Ramos Leite, integrante da Fiel Macabra que marcará presença no estádio paulistano hoje, assim como fez em todas as partidas do Corinthians como mandante nesta edição da Libertadores, relata um ‘momento indescritível’. “Eu fui a todos os jogos do Corinthians no Pacaembu nesta Libertadores. Não tenho nem palavras para descrever. Durante a trajetória, a cada jogo, a confiança foi aumentando. É a primeira Libertadores que tenho a oportunidade de acompanhar o Corinthians indo ao estádio e já pode ser aquela que vai entrar para a história. Para a gente está sendo indescritível”, destaca a torcedora. Aline fez viagem ao Exterior, da qual voltou ontem, e as datas foram programadas matematicamente para não coincidirem com a final desta noite.

Para conseguir acompanhar ao vivo todos os jogos do Corinthians, a estratégia foi uma ação coletiva para superar a concorrência por ingressos. “Tenho o cartão ‘Fiel Torcedor’ e ficava de plantão quando abria a venda pela internet. Contra o Santos, eu e mais três amigos tínhamos 15 cartões ‘Fiel Torcedor’. Ficamos de plantão e, dos 15 cartões, conseguimos sete, para ter uma ideia. Acabou a venda em cinco minutos, congestiona”, comenta Aline. A paixão pelo clube e a obsessão em acompanhar o time na luta pelo almejado título fizeram a torcedora não medir esforços. “Em todos os jogos eu ficava de plantão à espera de abrir. Eu trabalho e mudava meu horário de almoço para estar disponível para a hora que as vendas eram abertas”, relata.

Fora do País na data do primeiro confronto da final, na Bombonera, Aline acompanhou o duelo pela internet e, pelo que viu, aposta na maturidade e serenidade que observou no Alvinegro na Argentina como trunfos para garantir a inédita taça nesta noite. “A gente sabe que o Boca é um time que tem muita tradição na Libertadores, mas, pelo que eu vi, o Corinthians está demonstrando tranquilidade de não entrar em desespero. Tomou o gol e conseguiu ficar calmo para ir buscar o resultado. Estou confiante pela tranquilidade que o time está passando para a torcida. Apesar do torcedor corintiano ser tradicionalmente um torcedor que só vai ao estádio para incentivar, a tranquilidade que o time está passando deixa a torcida confiante no título”, aponta Aline.

 

‘A tal Libertadores’

O sentimento de estar próximo da taça que falta na galeria do Corinthians se confunde com a paixão pelo próprio time. “Este título é tudo para nós. Não tem uma palavra específica. É o que os torcedores de outros times falam que falta para nós. Só falta a tal da Libertadores. E essa tal da Libertadores, que é tão importante, é o que falta para nós. O corintiano já tem tudo. Porque o corintiano não só torce, o Corinthians, para nós, é a segunda pele, nossa inspiração”, descreve a torcedora. Além disso, Aline lembra que a conquista encerraria as zombarias dos torcedores rivais. “Vamos ganhar a Libertadores para ver se o pessoal para de pegar no nosso pé”, brinca.

 

PM reforça policiamento

A Polícia Militar (PM), por meio do Quarto Batalhão de Polícia Militar do Interior, confirmou que intensificará o policiamento ostensivo na cidade hoje, em razão da final da Copa Libertadores da América, entre Corinthians e Boca Juniors.

Essa operação, de acordo com a assessoria da PM, contará com a participação das viaturas de rádio patrulha, de Força Tática, Rocam (com motocicletas), cavalaria, canil e com o reforço do policiamento de trânsito por meio de bloqueios nas principais vias e com o uso do etilômetro (bafômetro).

O objetivo dessa operação, ainda segundo a PM, será “a manutenção da Ordem Pública, proporcionando segurança à comunidade, coibindo atos imprudentes e criminosos”.

O policiamento será empregado em locais onde houver grande aglomeração de torcedores.

 

Consumo de cerveja e carne aumentam

Se tem algum são-paulino, palmeirense ou santista que pode estar contente com o desempenho do Corinthians na Libertadores ele é comerciante. Além de impulsionar o consumo em bares, onde torcedores costumam se reunir para assistir aos jogos, a longeva trajetória alvinegra na Libertadores - alcançou a final pela primeira vez - aumentou a venda também nos supermercados. Desta forma, proprietários, mesmo não sendo corintianos, estão tendo o que comemorar.

É o que atesta o gestor de compras da rede Confiança Supermercado, Carlos Gomes Júnior, que relata aumento de 15% nas compras de bebidas pelos consumidores nas últimas quartas-feiras de jogos pela Libertadores. E a bebida parece regrar o tradicional churrasco, uma vez que a procura por carnes nesses mesmos dias registra aumento de 10% a 15%, de acordo com o gestor de compras deste departamento do Confiança, Pedro Sérgio Baptista.

 

Só amanhã de manhã...

Há quase 30 anos, o jornalista e historiador Luciano Dias Pires não sabe o que é ver o Corinthians jogar. Editor do Bauru Ilustrado (suplemento do JC), aos 85 anos ele conta que o bom-senso falou mais alto do que sua paixão pelo clube de Parque São Jorge. “Não assisto. Não aguento ver os jogos, fico muito nervoso. Acabo me irritando com lances perdidos e saio chutando tudo, mesa, cadeira, tudo”.

Quieto e concentrado dentro de casa, o alvinegro contraria a afirmação de que sofre sozinho. “Escuto uma chuva de rojões, mas não dá nem para saber se são de corintianos ou se são dos outros. Mas um corintiano nunca sofre sozinho”. Os outros a que se refere, são os torcedores rivais, mobilizados para “secar” o Timão hoje à noite, como em tantas outras vezes na história do clube paulista. “Faz parte do esporte a rivalidade. Ficamos 22 anos na fila, e não 23, como alguns dizem”, frisa, em tom de contestação. “Neste período sofremos muito com as piadinhas dos rivais. Diziam, por exemplo, que o melhor desodorante da época era a bandeira do Corinthians, pois quando acabava o jogo era só enrolar e colocar debaixo do braço”.

Sem acompanhar os jogos, ele conta que só fica sabendo o resultado quando algum dos filhos liga, ou então quando lê o Jornal da Cidade pela manhã. “Em alguns casos eu chego a sintonizar o radinho que fica na cabeceira da cama, por volta das 5 horas da manhã, para ouvir o noticiário. Mas assistir mesmo, não dá”.

A relação de Luciano com o Alvinegro Paulista começou bem cedo, quando junto com o pai e irmãos mais velhos, aprendeu a torcer pelo clube. A paixão pelo time paulistano ainda tem relação com outro amor no futebol: o Noroeste de Bauru, fundado no mesmo 1º de setembro de 1910. “Tinha por volta de oito anos quando comecei a acompanhar os jogos e torcer para o Corinthians. Fomos campeões em 1941 (Paulista), quando estava com 14 anos, e depois só fomos conquistar outro título (ainda Paulista) em 1951, quando já tinha 24 anos. Depois foram 22 anos sem títulos e, mesmo assim, criei três filhos e seis netos, todos corintianos”.

O gol de Basílio contra a ponte Preta e o fim do jejum em 13 de outubro de 1977, ainda estão vivos na memória do historiador. “Lembro que sai nas ruas de Bauru com uma bandeira enrolada no corpo e outra na cabeça. Fui até o viaduto do Bela Vista comemorar com toda a torcida. Foi uma festa só”, conta.

Para Luciano, a angústia e o sofrimento da falta de títulos ajudaram também em sua formação profissional. “Essa fé e esperança em momentos de sofrimento me ajudaram na vida profissional. Suportando gozações de torcedores rivais, acabei aprendendo a suportar muitas coisas”, diz.

Hoje, Luciano será mais um corintiano torcendo por um título inédito. “Já vi o Corinthians perder de 6 a 0 para o Palmeiras  e já o vi conquistar inúmeros títulos. Mas este será um momento especial. É uma conquista que ainda não temos. Na verdade, significa muito mais para acabar com as gozações dos outros torcedores do que qualquer coisa”.

Mesmo sem acompanhar a partida, seja pelo rádio ou pela televisão, Luciano Dias Pires, como milhões de corintianos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, vai passar por momentos de angústia hoje à noite. O que ele espera é que, no final da Libertadores, a bandeira alvinegra deixe de ser “desodorante” e volte a ser envolvida no corpo de mais um “louco”. “Continuamos torcendo como sempre, como nunca”, afirma.

Questionado sobre o que é ser corintiano, o historiador não precisou recorrer à memória e tampouco às precisas lembranças de momentos de glória e de tristeza que passou nestes 77 anos de “corintianismo”. Foi simples e direto: “Ser corintiano? Bom, isso tudo é uma loucura”.

 

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