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Com iniciativa inédita no Interior, Sebes espera recuperar "zumbis" do crack |
Há muito tempo, a visão simplista de combate ao crack foi morta e enterrada. Hoje, sabe-se que o enfrentamento da questão é um misto de políticas públicas e conscientização que perpassa pilares como prevenção, repressão e recuperação. O último arco vai ganhar dois importantes aliados em Bauru. Em breve, a cidade terá duas casas de passagem, iniciativa inédita no Interior e que é vista como a “ponte” entre o abandono na rua e a recuperação dos usuários.
Fruto de um planejamento iniciado há algum tempo, a instalação das casas de passagem deve sair do papel daqui a, no máximo, dois meses. A previsão otimista do início de funcionamento do “Pronto-Socorro” do crack é da titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo.
“Esses locais não são para institucionalizar o usuário. Na verdade, é como se fosse um ‘primeiro-socorro’. Serão dois equipamentos públicos que servem para atuar antes da comunidade terapêutica e preparar esta pessoa”, explica a secretária, pontuando que as casas de passagem são uma espécie de “passo anterior” ao Centro de Apoio Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD).
Serão inauguradas duas dessas casas, cada uma com 20 vagas. Um dos imóveis será para o público masculino e outro para o feminino. Tendolo afirma que só serão “acolhidas” pessoas acima dos 18 anos.
A iniciativa é, de acordo com a titular da Sebes, inédita no Interior. “Não tenho conhecimento de outras cidades onde foi instalado esse modelo de atendimento. É algo que estamos começando justamente porque vemos como é difícil a adesão das pessoas ao tratamento”.
O convênio com as entidades que cuidarão das casas de passagem já foi firmado. São elas o Esquadrão da Vida, que ficará com a ala masculina, e a Comunidade Bom Pastor, com a feminina (leia mais abaixo). Resta o envio ao prefeito e ao Legislativo. Apesar de não haver detalhes sobre o protocolo de atendimento, há uma preocupação de que não se torne uma espécie de albergue.
“Quando a pessoa é tirada da rua e vai para o tratamento, ela sente muito este impacto. A casa de passagem é algo para mostrar a ela que há outra vida fora o crack. Mas não é para abrigar. Iremos adotar um protocolo que não permita isso. O tempo que a pessoa ficará é o que a casa avaliar adequado”, destaca a titular da pasta.
R$ 1 milhão
Tendolo afirma também que as casas de passagem irão funcionar nas proximidades do Pronto-Socorro Central (PSC), porém, ainda não pode revelar a localidade exata. O número de profissionais envolvidos ainda não foi definido, mas deve girar em torno de 15 para cada um dos imóveis. Entre eles, psicólogos, assistentes sociais, curadores, cozinheiros e terapeutas ocupacionais.
O investimento nas casas de passagem será de R$ 1 milhão. Deste montante, R$ 350 mil são provenientes do Estado e o restante do município. Conforme publicado no Diário Oficial do Município (DOM) no último sábado, cada casa de passagem receberá R$ 50 mil para a implantação de serviço e mais R$ 45 mil mensais.
Especialista cita impacto positivo na motivação para os dependentes
Focadas no enfrentamento ao crack, as casas de passagem irão atender usuários também de outras drogas. O psiquiatra Sérgio Yutaka Sato, que é especialista em álcool e drogas, afirma que pode ser um passo importante na motivação interna de cada pessoa.
“Existe a motivação externa, que são sanções impostas ao usuário, como por exemplo, ações da polícia. Mas existe a motivação interna, que para combater o problema, é até mais importante. É aquele primeiro passo que faz a pessoa querer largar o vício”, aponta.
Ainda não foi definido como as pessoas ingressarão nessas casas de passagem. É provável que elas precisem passar por uma triagem da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes). Porém, é certo que nada terá um caráter obrigatório.
Sérgio Sato explica que, como será mais focado na parte social, o tratamento ofertado nas casas de passagem deve “encarar o usuário como uma pessoa”. “E isso é muito importante. Só de não haver uma obrigatoriedade é algo que pode criar uma adesão maior do usuário com o tratamento. É um acolhimento fundamental”, completa o psiquiatra.
Na segurança
A ideia das casas de passagem foi vista com “bons olhos” pela polícia. O comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, projeta impactos benéficos na segurança.
“Acho que está sendo atacado o cerne da questão. Este combate social influencia até para diminuir o número de roubos a transeuntes e furtos, uma vez que muitos são praticados por esses usuários”, aponta.
Marcos Mourão, delegado seccional de Bauru, destaca o “prejuízo” no tráfico de drogas. “Hoje, a polícia atua na prevenção e repressão. Essas casas de passagem atuam na prevenção. E todo mundo sabe que não adianta só prender. Quando você recupera o usuário, você ataca a ‘lei da oferta e procura’ do tráfico”.
24 horas
Atualmente, um dos grandes problemas em Bauru é a falta de estrutura noturna encontrada por quem precisa de atendimento social. “Quando fazemos busca ativa, muitas pessoas precisam passar a noite no Pronto-Socorro Central (PSC). E elas não querem isso”, afirma a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo.
Apesar de não ter sido revelado todo o plano de trabalho, a secretária afirma que o serviço das casas de passagem será 24 horas. “É algo que falta em Bauru. Esses novos instrumentos ajudarão, inclusive, nisso”.
Entidades conveniadas destacam o exemplo local no combate à droga
Após a convocação por parte do município, duas entidades demonstraram interesse em oferecer o serviço: o Esquadrão da Vida e a Comunidade Bom Pastor. De acordo com o publicado no Diário Oficial do Município (DOM), elas têm até a data de hoje para apresentar os planos de trabalho e de aplicação de recursos na Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes).
Edmundo Muniz Chaves, fundador do Esquadrão da Vida, afirma que mais essa opção no enfrentamento ao crack é muito importante. Segundo ele, é algo que pode colocar Bauru como um exemplo no combate a esta droga, que vem assolando a cidade.
“A casa de passagem é para dar uma direção a esses usuários. É uma oportunidade para ele ser aconselhado e refletir sobre a vida que está levando. É algo pioneiro e que deve ajudar muito”, completa.
Já a presidente da Comunidade Bom Pastor, Celenita de Oliveira Coelho, alerta para outra realidade. Ela acredita que a casa de passagem feminina é uma forma de amenizar a carência de políticas públicas para as mulheres usuárias de crack em Bauru.
“Aqui, não há muitos atendimentos às mulheres, que possuem grandes dificuldades, às vezes até maiores que os homens, para largar o vício. Isso vai suprir, de certa forma, esse problema. E acredito que é uma forma de impulsionar o município a olhar para este público”, destaca.
