O crime de abuso sexual infantil se multiplica assustadoramente e a sociedade assiste estupefata o caos que abraça a infância. Porém, vejamos a preocupante realidade: casamentos desfeitos, famílias desestruturadas, mães negligentes, pais ausentes, padrastos e madrastas recicláveis, fatos que dão guarida à vergonhosa promiscuidade social. Mulheres que preferem ignorar o sofrimento dos filhos para acobertar estranhos com os quais dividem a mesma cama. Tudo junto e misturado, incentiva a descarada ausência de valores que forma o tenebroso cenário que agasalha a pedofilia.
Seriam as mulheres modernas, inteligentes e autossuficientes, tão ingênuas a ponto de escancarar os portais de seus lares a desconhecidos acreditando ter encontrado parceiro para cuidar de seus rebentos? Seriam incautas a ponto de colocar em risco a segurança dos filhos, pela culpa in eligendo que decorre da má escolha do companheiro?
O fato é que crianças estão diuturnamente à mercê de facínoras. Pais ausentes abandonam em braços estranhos crianças indefesas, dando oportunidade aos monstros pedófilos de praticarem o pavoroso crime hediondo contra a pureza da alma infantil. De quem é a culpa afinal? Além de apontar o dedo para a negligência paterna e materna, seria oportuno repensar que a falta reside no excesso de liberdade e na ausência da responsabilidade dos pais biológicos, que não respondem pela paternidade e após a separação dão graças quando um terceiro, embora desconhecido, diz assumir o papel de padrasto ou madrasta. E sabido é que, crianças em estado de abandono, carentes de afeto, entregam ingenuamente o coração ao estranho que passa a usufruir da rotina familiar.
Então, a fatalidade acontece dentro dos lares, sob o lasso olhar dos que deveriam zelar, mas se calam para acobertar canalhas. Pecam ainda pela culpa in vigilando, ausência de vigilância e proteção, dos que arrastam a concordância tácita que silente autoriza o crime. Urge que a infância seja protegida tanto pelo pai como pela mãe e que ambos sejam realmente obrigados a assumir suas responsabilidades e passem a prestar contas daquilo que se comprometeram demonstrando diuturnamente o compromisso oriundo da paternidade. Aos pais cabe ainda atentar para as nefastas consequências da culpa in eligendo e in vigilando que conduzem sorrateiramente ao imperdoável pecado da negligência. A grande verdade é que o perigo resta ardilosamente aninhado sob o mesmo teto com aval de quem girou a cravelha da porta de entrada.
A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga e autora do livro Quintal de Sonhos