Tribuna do Leitor

Não sou herói


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Internautas recebem com frequência mensagens sobre idosos denominados "velhos". Não! Velho é molambo! Em outubro, chegarei aos 86 anos. Guapo e feliz. Um idoso que ainda sonha. Simples. Adaptei-me aos costumes modernos. Computador, celular etc. Não encho o saco dos filhos, netos, nora, genro e amigos. Vivo no meu canto. Lendo, escrevendo livros, poesias e artigos para o JC. Amigos no Facebook e no MSN. Amo pessoas, filmes na TV, a terra e a Terra, chuva, sol, trigo e o meu gato Joca. Por quê?

Porque sou a impressão digital de Deus. Somos. Asas dos anjos a escolher como e para onde voar. Tartaruga a caminhar até ao lar transitório ou eterno. Ouvindo árias num Stradivarius. Sou o que fiz e faço da vida. Destino não tem nada a ver com isso. Elegi o meu bem e o meu mal. Marquei nos passos os meus acertos e meus incontáveis erros. Porque choro as mesmas lágrimas da adolescência. Por amor. Saudade de namorar. Dos amados que adejaram para mundos invisíveis. Das pessoas que me esqueceram e não as esqueci.

Porque me sinto abençoado por Deus ter me dado tanto tempo. E forças para suportar as dores físicas e sentimentais. Tantas coisas ainda para fazer e a fé que as farei... Não chamem idoso de velho. É gente com idade avançada. Escreveu a história da família. Cada um do seu jeito. Fazendo o melhor. Tijolo a tijolo. Lares, edifícios, pontes e santuários. Se deixar comida cair fora do prato, pôs comida em muitos pratos. Se falar sozinho, fez declaração de amor pra alguém. Se trocar ou esquecer nomes, não é o fim do atalho. Quando perde os óculos, procurá-los. Se escutar mal ouviu orações, parabéns pra você e o Hino Nacional.

São tantos idosos vitimas de preconceitos de meia dúzia de babacas... Ando com o nariz aprumado. Honra em saber quem sou e o quanto valho. Não sou herói. A diferença. Respeito os jovens. Aprendo com eles. Respondo-lhes com o caráter, o decoro, a retidão, a fé e a esperança para que cheguem a ser idosos. Quando amadurece na árvore ainda é povo. História viva no mural do Céu.

Não é "aquele velho". É a vida sem disfarces com cicatrizes na cara. Abriu porteiras. Engordou o gado. Plantou o feijão e o arroz. Fez terra virar asfalto. A vida é o entusiasmo. Delicado sopro divino a nos conduzir para a eternidade. Para chegar a Deus não é preciso ser herói.

Munir Zalaf


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