“Ele estava com o copo na mão, como se fosse gente grande. Quando vi aquilo, quase entrei em estado de choque”. A cena descrita por uma testemunha é, de fato, chocante. Na noite de anteontem, um menino de apenas 4 anos de idade ficou embriagado após consumir cerveja por incentivo da própria mãe, que também estava alcoolizada.
Horas depois, uma garota de 11 anos foi atendida na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Mary Dota pelo mesmo motivo. Desacompanhada dos pais, ela estava em uma festa e, depois de consumir bebida em excesso, acabou passando mal.
Não é a primeira vez que o JC noticia casos de pessoas menores de 18 anos que se envolvem precocemente com o álcool. Mas, ao que parece, esta relação de proximidade tem ocorrido cada vez mais cedo, por causas que passam, principalmente, pela desestrutura familiar.
O problema é que, com o organismo ainda em formação, estas crianças são mais vulneráveis às consequências imediatas e de longo prazo provocadas por este tipo de substância, segundo alertam especialistas (leia mais ao lado). São danos que poderão afetar intensamente o menino de 4 anos que ingeria cerveja em uma lanchonete, ao lado da mãe, anteontem à noite, em uma lanchonete localizada no Jardim Araruna.
O exame clínico realizado pelo médico legista constatou que tanto ele quanto a mãe estavam embriagados. E, como a criança tomava a bebida sem a ajuda da mulher, a suspeita é de que ele já estivesse acostumado àquela realidade. “Ele mesmo virava o copo de cerveja. Já estava bêbado, zonzo e com o olhar caído”, diz uma cliente, que pediu para não ser identificada.
De acordo com ela, a dona do bar teria relatado que a mãe, que seria moradora de rua, passou a tarde toda e parte da noite no estabelecimento, ao lado do filho e da filha de dez meses de idade. “Eles estavam em uma mesa na calçada, no frio, sem comer. Aquilo foi um absurdo”, comenta.
A proprietária do bar, Ana Paula Ramos de Oliveira, argumenta que só percebeu que o garoto estava bebendo por volta das 20h30, quando a Polícia Militar (PM) foi acionada. O Conselho Tutelar também foi ao local e retirou as duas crianças do convívio da mãe, que já teria sido atendida diversas vezes pela rede socioassistencial do município. Não houve confirmação se ela também seria usuária de entorpecentes.
“Esta mãe já tinha sido vítima de violência doméstica, foi para um abrigo, fugiu e voltou para casa. Depois, passou pelo albergue e pelo atendimento oferecido pela rede, mas acabou voltando para a rua. Por este motivo, decidimos que, desta vez, as crianças deveriam ser levadas a um abrigo, longe da mãe”, detalha a conselheira tutelar Naiara Maria de Farias.
Fim de festa
Já no caso envolvendo a garota de 11 anos, os responsáveis puderam levá-la de volta para casa já que, em princípio, não tinham conhecimento de que ela estava em uma festa consumindo bebida alcoólica. De acordo com a avó, de 49 anos, a menina não convive com a mãe - que é deficiente auditiva - e está fora da escola.
No início da noite de anteontem, ela teria saído de casa, no Jardim Ivone, para participar de uma festa com as amigas. Por volta da meia-noite, chegou à UPA do Mary Dota totalmente alcoolizada e, de lá, foi levada por familiares ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI).
“Eu fiquei esperando ela chegar, mas demorou muito. Depois, fomos avisados de que ela estava no pronto-socorro”, relembra a avó, que divide uma casa simples com dois filhos e pelo menos cinco netos, entre eles a menina de 11 anos.
“Como estou doente, é uma filha minha que cuida dela. Eu não sei o que aconteceu, não sei se ela já tinha bebido antes. A minha neta é uma pessoa boa, só precisa voltar para a escola”, lamenta. Ontem à noite, a garota estava de volta à casa da avó e a família deverá ser acompanhada e orientada pelo Conselho Tutelar.
Investigação
A Polícia Civil irá investigar a responsabilidade sobre a embriaguez das duas crianças que passaram mal, anteontem, em Bauru. Os dois casos devem ser encaminhados nos próximos dias à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).
“Vamos instaurar inquérito, apurar os fatos e ouvir os envolvidos para descobrir o que realmente aconteceu”, adianta a delegada Priscila Bianchini de Assunção Alferes. De acordo com ela, a pena prevista para quem oferece bebidas alcoólicas a menores de idade, crime previsto no artigo 243 do Estatuto do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é de dois a quatro anos de detenção.
Ingestão precoce favorece dependência
Com o organismo ainda em formação, as crianças são mais sensíveis aos efeitos imediatos e as consequências de longo prazo que o álcool pode provocar. Segundo afirmam especialistas, a ingestão precoce e frequente da substância pode, inclusive, favorecer a dependência na vida adulta, caso a pessoa tiver propensão ao vício.
“Se houver tendência genética, o risco de haver dependência é muito grande. É o mesmo mecanismo da criança que tem o paladar muito acostumado com o açúcar. Se ela tiver tendência, a probabilidade de se transformar em um adulto obeso é muito maior”, afirma a pediatra Adriana Barbieri Horikawa.
Entre os problemas causados pelo consumo repetitivo – que poderão aparecer numa etapa prematura da vida - estão a cirrose e a gastrite, além da morte constante de células cerebrais. “As crianças são tão sensíveis ao álcool que não há, por exemplo, nível seguro de bebida que uma gestante pode ingerir sem prejudicar o bebê. Quanto mais novo, piores são os efeitos ao sistema nervoso central”, argumenta o nutrólogo Hilton Borgo, lembrando ainda que as perdas se estendem à esfera escolar e de convívio social.
Como efeito imediato, mesmo que a experiência com a bebida seja única, os pequenos podem apenas sofrer hipoglicemia e passar mal, entrar em coma ou até mesmo morrer, dependendo da quantidade ingerida. “O fígado da criança não metaboliza o álcool da mesma forma que um órgão adulto. Por isso, os efeitos agudos - como sonolência, apatia e vômitos - são muito mais intensos e mais prováveis de acontecer”, observa Adriana.