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Fiéis virtuais cadastram perfis em ferramentas específicas de acordo com cada tipo de crença |
Desde a “antiguidade” do Orkut, as mídias sociais são um prato cheio para congregar pessoas com crenças em comum. Comunidades sobre os mais variados assuntos não faltam dentro das mídias sociais. Agora, uma nova segmentação deste tipo de ferramenta até pode causar certa polêmica, caso o tom da discussão se eleve (leia mais sobre o assunto na página 9).
São as mídias sociais religiosas. Relativamente novas em relação a outros tipos de páginas do gênero, os grupos começam a arrebanhar ovelhas, ou seguidores, que se congregam em campos restritos. Em Bauru, o tema ainda é prematuro, mas já desperta a curiosidade entre os seguidores de diferentes religiões.
Mesmo ainda na fase de engatinhar, em comparação às mídias sociais mais poderosas, como o Facebook ou o Twitter, essas novas listas, contudo, congregam considerável quórum de perfis cadastrados.
Uma delas é o Hisby (hisby.com). Criada há menos de um mês pelo empresário Júnior Gonçalves, de Porto Velho (RO), a rede é mantida por fiéis da igreja Metodista Wesleyabna e já contabiliza marca superior a 12 mil usuários.
“Ganhamos cerca de 1,5 mil perfis por dia”, calcula o idealizador da ferramenta, em entrevista ao JC, por telefone.
Apesar de criada e mantida pelo segmento evangélico, garante o empresário, a iniciativa tem como proposta reunir fiéis cristãos em discussões de tom ecumênico.
Outra premissa da rede, acentua Júnior, é incentivar a utilização saudável das mídias sociais, com “mensagens virtuais de paz, que refletem positivamente na vida real”, distingue o criador da página.
Segundo Júnior, o retorno financeiro dos cliques na página será aplicado nos projetos filantrópicos desenvolvidos pela igreja no Norte do País.
“Temos projetos que tiram jovens da rua, com reinserção social”, assegura o empresário, que milita no mercado publicitário.
Edificantes
Outras ferramentas do espectro religioso, como o “Cristãobook” - endereço www.cristaobook.com.br -, anunciam a geração de relacionamentos edificantes através das mídias sociais.
Porém, a segmentação no universo digital criado - de início, para o compartilhamento - não denotaria caráter de restrição?
Para o idealizador da rede social evangélica de Rondônia, não. “Queremos apenas uma rede mais limpa, sem estímulo a conteúdos nocivos, entre eles a pornografia”, diferencia Gonçalves.
Já o professor Fausi dos Santos, de Bauru, acredita que a tecnologia é “inevitável”.
Segmentar ou segregar?
Estudiosos e religiosos de Bauru têm o mesmo conceito sobre a segmentação de mídias sociais, especialmente no campo religioso. Para o evangélico Edson Valentim, vice-presidente do Conselho de Pastores na cidade, a evangelização pela rede é válida, inclusive o incentivo ao debate, com limites.
“O problema é quando há extremismo”, observa.
Também pastora, da Igreja Batista Beriana de Bauru, Márcia Regina Cândido Madeira, a exemplo de Valentim, admite ainda não ter familiaridade com essa nova proposta de mídia social.
Adepta do Facebook, onde os fiéis trocam informações sobre cultos e outras iniciativas ligadas ao universo religioso na cidade, ela diz ver com bons olhos a chegada da nova ferramenta, desde que utilizada com bom-senso e respeito. “A polêmica pela polêmica, simplesmente, não é algo que nos atrai. Se o propósito for agregar, acho saudável”, opina.
A visão é compartilhada também por fiéis católicos. Coordenador do Setor Juventude, da Diocese de Bauru, Bruno Henrique Bilia afirma que a proposta é edificante. Para o leigo, contudo, é preciso levar em conta o estágio embrionário da iniciativa. “É interessante e vem para somar. Mas a Juventude ainda é muito ligada ao Facebook”, ressalva.
‘Perigo está no gerenciamento’
A rede em si não apresenta um risco de “guerra santa” virtual, o que preocupa “é a forma de gerenciamento”.
Essa é a análise do professor de filosofia bauruense Fausi dos Santos, sobre as redes sociais religiosas na Internet.
Para o estudioso, mesmo com a premissa do respeito às diferenças de pensamento, comunidades específicas (físicas ou virtuais) buscam, naturalmente, o senso partidário.
“O segregacionismo é histórico nas instituições religiosas”, especifica.
O professor detecta até um certo antagonismo “ideológico/histórico” na proposta. “O uso das ferramentas informacionais se torna presente em todos os segmentos da vida social, até mesmo no campo religioso que, historicamente, se mostrou resistente aos grandes saltos da modernidade”, avalia.
Por outro lado, o acadêmico compreende que, assim como qualquer outro segmento, a adesão à tecnologia na religião também é inevitável. “As denominações perceberam que as redes sociais têm um alcance fantástico, com poder de agregar milhares de pessoas num mesmo discurso”, analisa.
“Temos sites com serviços específicos, entre orientação espiritual, bênçãos e orações. Nesse sentido, as atividades evangelizadoras tomam uma nova dinâmica, de arrebanhar um público cada vez mais antenado ao mundo virtual”, complementa. “Um público que não é mais a exceção, mas sim a regra”, conceitua.
Para ele, a segmentação não é um mau sinal. O fenômeno, de acordo com o professor, reflete as próprias mudanças nas relações humanas modernas. “Não se trata de um mal em si. É um processo que denuncia, na verdade, mudanças significativas nas relações e vínculos, agora permeados pela virtualização e velocidade das informações”, define.
