Tribuna do Leitor

Reencontro de dois galienses


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Depois de longos 43 anos, no dia 8/6, fui ao encontro do meu amigo de juventude Renato Luchiari. A última vez que nos vimos, por acaso, foi em 1969 em um baile de Carnaval em São Paulo, no Clube do Palmeiras. Ele estava a serviço da seccional da Polícia Civil do bairro de Perdizes, onde exercia o cargo de escrivão. Ele e eu temos a mesma idade. Nasceu em Agudos (SP) é conterrâneo de minha saudosa mãe, dona Maria. Ainda criança mudou-se para Gália, onde viveu a sua infância e adolescência. Nos anos 50/60, em nossa plena juventude, frequentávamos os mesmos lugares - as escolas, o Rio das Antas, o jardim da praça, as sessões do Cine Gália, o Clube Recreativo, a sinuca no Bar do Marra e baralho - 21 e 7 e meio - na casa do Mário Yamazaki e Luvercy Rodolfo Mazanatti. Até hoje, Renato leva a pecha de "Garrucha", isto porque, durante um jogo de baralho na casa do Mário, um dos jogadores afirmara, com veemência, que ele tinha tocado em umas das cartas (não entendo de jogos de cartas, mas a regra era mais ou menos assim: quem tocasse primeiro em uma delas perdia o jogo). Bem, aconteceu o maior vespeiro. Renato, já indignado com a insistente acusação, saca de sua garrucha dois canos, segundo ele: "já engatilhada, e bala na gulha", como se dizia por aquelas bandas do Interior, que carregava sob a blusa, e aponta-a em direção do desafeto, nesta altura, extasiado e paralisado.

Cena impagável, digna de filmes de "bang bang" (Western) quando o "mocinho" e "bandido" defrontam-se no centro do "Saloon", e os demais presentes escafedem-se através da porta-balcão, aquela de duas faces. Os dois ali sozinhos na mesa de jogo, inquisidor e acusado, se entreolham por alguns instantes... Nisso, o silêncio é interrompido pela turma do deixa disso. Renato respira fundo... E desengatilha o "cão" de sua jurássica arma, pondo fim ao entrevero. Esse tipo de acontecimento era cena corriqueira nos filmes de "bang bang", apresentados com certa frequência na tela do Cine Gália. Por conseguinte, acredito, os jovens daquela época tentavam transportar certas cenas assistidas no cinema para a vida real. Acredito, também, que, ímpeto desta natureza tinha apenas caráter aventuresco, sem o prazer e a intenção de maldade, mas, somente, uma pitada de autoafirmação.

Renato reside na cidade de Promissão, onde mantém, desde 2007, uma coluna semanal em dois jornais: A "Cidade" de Promissão e "Correio de Lins", intitulada "Coluna do Dr. Renato", com crônicas do cotidiano e artigos diversos. O reencontro deu-se no dia 8-6-2012. Já em São Paulo, ligou para mim e combinamos um almoço no centro gastronômico de Sampa. Depois de 43 anos, a necessidade de uma senha, recíproca, para identificação física: a roupa, a calva, a "barriga de chope", bengala, quem sabe. Cheguei na hora combinada. A senha funcionou, conferia. Lá estava o Renatão: forte e sorridente, atrás de seus majestosos óculos de aros largos. Fomos para o Restaurante Zeffiro, aliás, ao lado da residência de seu filho.

Tivemos um prazeroso e longo almoço, em que revivemos as nossas famílias, amigos e aventuras nas décadas 1950/60 - os anos dourados de nossas vidas. Renato sempre espirituoso e irreverente, como na sua juventude, lá em Gália. A conversa corria solta, mas, ao redor das 18h, despedimo-nos, pois ele e sua esposa, naquele sábado, tinham um compromisso marcado com o show de André Rieu. Ao final, trocamos os nossos livros, ambos lançados no mês de maio/2012 - o dele "Reflexões Ao Pôr Do Sol", o meu (quem ainda não leu, tomou conhecimento: "Gália - Décadas de 50/60 - Anos Dourados"). Assim, despedimo-nos, novamente, mas com o desejo de continuarmos, em breve, o nosso papo.


Laerte Mazetto

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