Ciências

O câncer imortal de Henrietta

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Algumas estruturas e doenças têm nome de cientistas e quando isto acontece chama-se epônimo como na doença de Chagas ou mal de Alzheimer.  Homenagens em ciência e medicina são curiosas como dar nome a cemitérios, laboratórios, necrotérios e hospitais, quando não hospícios e crematórios. Tô fora!!! Alguns imortalizam seus nomes com filhos, outros em livros e há aqueles com nomes em ruas e praças.


Por anos estudei culturas de células coletadas em animais ou humanos em recipientes com meios de cultura. Periodicamente deve-se remanejar as células pois o ambiente esgota os nutrientes e degradam as condições ambientais.


Não é fácil cultivar células desde a coleta e manutenção. Dá muito trabalho e a contaminação dos meios de cultura com químicos, microrganismos e células  indesejáveis são comuns. Os pesquisadores preferem comprar células em meios de cultura apropriados para serem submetidas a testes de drogas, contaminações, vacinas e mutações genéticas para o estudo do câncer. A mais popular entre os cientistas são as células HeLa (fala-se rilá), mas por anos não sabia o que estava atrás destas 4 letras: uma mulher chamada Henrietta Lacks.


Sem que lhe pedissem, em 1951, ao ser internada para diagnosticar e tratar um câncer no colo uterino chamado carcinoma epidermoide, os pesquisadores liderados por George Gey coletaram e cultivaram suas células malignas. Isto aconteceu no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore.


Ao contrário das inúmeras tentativas com outras células, conseguiram construir uma fábrica de células para pesquisas, pois proliferavam aceleradamente, sem exigências, viabilizando o seu comércio para o mundo. Tentativas com outras células fracassavam, mas com as de Henrietta não! Aos trilhões, muito mais do ela teve em seu corpo todo, estas células são compradas, vendidas, embaladas e enviadas para laboratórios de todos os continentes, a um custo de 25 a 50 dólares por frasco pequeno.


Ela morreu em 1951 aos 31 anos, mas apenas depois de 20 anos sua família tomou conhecimento do que aconteceu e nunca se beneficiou de nada. As células HeLa foram e são as mais usadas para testes de drogas contra o câncer, biologia celular, mapeamento genético, desenvolvimento de vacinas como a pólio e muitas, muitas outras pesquisas envolvendo muitas doenças, inclusive Parkinson, com muito dinheiro envolvido. Até nas primeiras missões espaciais as células HeLa foram levadas para descobrirem como se comportam células humanas em gravidade zero.


Nos grandes laboratórios as células HeLa, os camundongos e preás são os burros de carga nas pesquisas. No mundo da ciência mais de 60 mil trabalhos científicos foram publicados com células HeLa, sendo mais de 300 artigos por mês nos dias atuais.


A quantidade de células HeLa vivas hoje pesariam juntas 50 milhões de toneladas e enfileiradas estima-se que dariam três voltas em torno da terra. Elas proliferam e trocam de geração a cada 24 horas e fazem isto até hoje de forma contínua. As células HeLa representam uma das principais descobertas biomédicas do século passado. Mas por que as células de HeLa proliferam e não morrem nunca?



Imortais?


O virologista alemão Harald Zur Hausen foi ridicularizado quando afirmou que o câncer uterino era provocado por um dos mais de 200 subtipos de HPV ou papilomavírus humano. Quando ficou sabendo da proliferação incessante das células de HeLa pediu ao Hospital Johns Hopkins para procurar o vírus nas células cancerosas originais de Henrietta.


Incrível! O HPV tipo 18 estava lá, o marido dela era um homem sexualmente promíscuo. No painel de controle do “avião” chamado célula, o botão ou gene p53 se ativado leva a morte celular, mas inativado, a vida não para!


O HPV 18 inibe o gene p53 que controla o tempo de vida; uma vez inibido as células não morrem e não param de proliferar. O p53 é conhecido como gene da morte programada ou apoptose. O câncer de colo uterino está associado ao HPV 18 e outros subtipos sexualmente transmitidos. Deve-se providenciar a vacinação das meninas para evitá-lo. Mais um dos inúmeros benefícios das células de Henrietta para o mundo. Hausen ganhou o prêmio Nobel de Medicina em 2008 pelo seu trabalho!


E o câncer de Henrietta Lacks tornou-se imortal, mas não ela, como alguns acreditam!







 

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