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?Caso Drielly?: polícia abre inquérito

Tisa Moraes e Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

A Polícia Civil instaurou, ontem, inquérito para apurar se a estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, que aguardava vaga para internação no Hospital Estadual (HE), morreu por negligência médica. A jovem faleceu na última quinta-feira, depois de permanecer por três dias em uma maca instalada improvisadamente no corredor do Pronto-Socorro Municipal (PSC).

Na manhã de ontem, o delegado Dinair José da Silva, que responde interinamente pelo 3º Distrito Policial (DP), contatou a família da paciente, que compareceu à delegacia para registrar boletim de ocorrência. A partir do documento, foi instaurado inquérito para investigar a responsabilidade sobre a morte da estudante. O trabalho deverá ser concluído em 30 dias, prorrogáveis por igual período.

Até o momento, apenas uma tia da jovem foi ouvida. De acordo Silva, nos próximos dias ainda serão chamados a prestar depoimento familiares, incluindo o namorado da vítima, André Alvarenga, além de funcionários, enfermeiros e médicos que atenderam Drielly no PSC e na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Núcleo Mary Dota, onde ela também procurou socorro.

“Vamos pedir autorização para as duas unidades para ter acesso às fichas clínicas da paciente. Depois, enviaremos estas fichas ao Instituto Médico Legal (IML), para saber as circunstâncias da morte. Os documentos também servirão para identificar quem foram os profissionais que atenderam a jovem e todos serão chamados a prestar esclarecimentos”, detalha, esclarecendo que pedirá à Secretaria Municipal de Saúde a lista de médicos e funcionários que trabalhavam no dia em que a estudante morreu.

O delegado adianta que também irá enviar ofício ao Conselho Regional de Medicina (Cremesp) para que a entidade apure a conduta médica adotada no caso. “Eles certamente irão investigar em que circunstâncias se deu o atendimento no Pronto-Socorro e no Hospital Estadual. Dependendo do que for apurado, a punição pode ir de uma simples advertência à cassação da licença médica”, adianta.

 

Indenização

Na esfera criminal, os funcionários – se identificados - poderão responder até mesmo por homicídio doloso ou culposo. Simultaneamente, a família de Drielly poderá requerer, na esfera cível, pagamento de indenização por perdas e danos morais e materiais.

“Esperamos que toda a apuração em âmbito policial e pelo Ministério Público ajude não apenas a apontar os culpados neste caso específico, mas também a melhorar o atendimento público de saúde na cidade”, observa Silva.

Quando o inquérito for concluído, o caso será encaminhado ao Judiciário. Conforme esclarece o promotor criminal João Henrique Ferreira, para haver punição nesta esfera, deverão ser identificados, nominalmente, todos os funcionários que eventualmente tenham contribuído para a morte da estudante, agindo ou se omitindo de forma culposa ou dolosa.

O problema, no entanto, é que o caso pode ser entendido como resultado da falha do sistema como um todo, e não de ação ou omissão de pessoas específicas, o que pode dificultar a responsabilização no âmbito criminal.

Já na esfera cível, o Estado e o município poderão ser acionados a reparar o dano causado à família da jovem.

“O poder público responderá pela deficiência dos serviços prestados. Os familiares poderão requerer indenização material, que considera o trabalho que a pessoa exercia e a perspectiva de vida que ela tinha, e moral, cujo valor pode variar muito”, comenta o promotor.

 

Relembre o caso

Drielly de Brito começou a sentir dores abdominais no dia 19 e procurou o Pronto-Socorro Central (PSC), onde recebeu medicação e foi liberada. Dois dias depois, realizou exames na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Mary Dota e, com necessidade de internação, voltou ao PSC para aguardar vaga no Hospital Estadual (HE).

A solicitação para internação clínica cirúrgica teria sido feita pelo PSC na madrugada do dia 25, depois de a equipe médica receber os resultados dos exames de ultrassonografia, realizados pelo próprio HE, que detectaram um quadro de colecistite aguda calculosa (pedra na vesícula). Na madrugada do dia 26, o estado da paciente agravou-se e ela precisou ser entubada. Nova vaga foi solicitada ao Estado, desta vez para internação em UTI. O leito foi liberado duas horas depois em Promissão, a 122 quilômetros de Bauru.

A Secretaria de Saúde informou, entretanto, que o estado da paciente era bastante grave e ela não tinha condições para ser transportada. Às 6h do mesmo dia, o PSC voltou a fazer o pedido para internação no HE, que foi atendido pelo Estado às 7h, quando Drielly sucumbiu a uma pancreatite necro-hemorrágica.

 

Pai da jovem vai à Câmara

Ele não estava interessado na discussão que tomava conta da Câmara Municipal, onde os vereadores tentavam concluir se o Estado ou o município eram culpados. Culpados pela morte inexplicável e injustificável de sua filha, Drielly Carla Alves de Brito, na última quinta-feira, no corredor do Pronto-Socorro Central (PSC).

José Luiz de Brito, porém, pedia por justiça. O motorista de caminhão foi à sede do Legislativo porque queria usar a tribuna e pedir qualquer tipo de ação dos parlamentares para que sua filha, morta aos 22 anos, não se tornasse apenas uma estatística. Impossibilitado pela burocracia do regimento interno, o pai - desesperado - desabafou junto à vereadora Chiara Ranieri (DEM) e do presidente Roberval Sakai (PP).

Mas não. Ele não se preocupou com colorações partidárias e também não quis dar entrevista. Mas falava. Com intensidade e velocidade desesperadas. Com o desespero de quem não pôde comemorar o aniversário de sua filha, mas foi visitar seu túmulo.

Agora, além de sua dor, José Luiz precisa ter forças para dar suporte à esposa - e mãe -, acamada, medicada e dopada.

Ele não sabe de quem. Mas sabe que houve negligência.

“Se tivessem me dito que o problema era falta de vaga. Se tivessem me falado isso quando ela chegou ao Pronto-Socorro, eu teria dado um jeito. Eu venderia meu carro, venderia minha casa para pagar uma internação particular. Mas teria minha filha em casa. A minha Drielly”. 

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