Estava eu trabalhando numa dessas tardes frias de julho quando três garotos sentaram aqui na calçada, bem em frente ao cartório (a poucos metros de minha mesa). Um tinha uma pipa não mão, um não tinha nada, o outro tinha um celular. Um maldito celular! Alheio ao nosso trabalho ele ouvia suas canções favoritas no volume máximo do aparelho. Frases como "como é bom ser vida mansa" e "como é bom vida louca" entonadas pelas crianças ainda mais alto do que a música que acompanhavam.
Tenho trinta anos e absolutamente não gosto de funk, mas não quero agredir o estilo. Gosto cada um tem o seu (e a idade pode influenciar isso também). Mas o fato de ouvir música alto e ficar gritando perto de pessoas trabalhando é um falta de educação gigantesca. Lembrei, então, de como eram as coisas quando eu era criança, quando tinha meus nove... dez anos. Como o mundo era diferente. Como as pessoas eram diferentes! A primeira coisa que se aprendia era o respeito aos mais velhos. Não responder para os pais, não gritar, não ficar na frente dos outros no ônibus... coisas que tenho comigo desde muito cedo e vejo como normais.
Infelizmente não é mais assim. As crianças não têm limites ? muitas vezes por uma educação inadequada dos pais. Você, caro(a) leitor(a), pense em quantas crianças conhece. Agora pense nas que são realmente educadas; aquelas que falam "por favor", "com licença" e "obrigado" sem o pai ou a mãe mandar. Triste resposta, não? A maioria das crianças, hoje, não tem uma criação regrada o suficiente para permitir isso. A maioria das crianças, hoje, fala palavrão. Mas a culpa não é delas, é nossa!
O mundo evoluiu em muitas áreas e muito depressa, mas será que soubemos lidar com isso? Será que tudo aquilo que se tornou normal para os adultos é adequado para uma criança? Claro que não! Tomemos por base três tipos de tecnologias que vêm de uma crescente avassaladora ? a internet, os videogames e os celulares.
A internet conecta nossas crianças com o mundo. São vários sites de relacionamentos e vários softwares de comunicação instantânea. Este último, o mais perigoso para o desenvolvimento intelectual. Raramente alguma criança usa as regras de ortografia em uma conversa simultânea. Ao ler isso, muitos irão pensar que também não fazem isso no computador e nem por isso desconhecem as regras. Tudo bem, mas as crianças ainda não conhecem totalmente a língua. Ainda estão aprendendo. E isso atrapalha em muito o desenvolvimento delas. Não sou poucas as redações que eu corrijo que contenham: [vc, tb, td, blz, :), =/, \m/, ^^, :S], etc. Nas pesquisas escolares os sites de busca deixam um trabalho muito mais fácil de ser feito. Basta pesquisar e imprimir. Simples, fácil e rápido!
Os videogames também evoluíram à medida que nós, da chamada "geração X", crescemos. O problema é que agora somos adultos e os videogames continuam sendo usados por crianças. Muitos jogos não são adequados para uma faixa etária baixa. Que criança não conhece "GTA"? É até legalzinho ? para um adulto. Pra menores pode ser um estímulo à violência e ao vandalismo.
E o telefone celular? O maior vilão da era digital. Muito além da sua função de ligar e receber chamadas, o aparelho parece mais um canivete multiuso. Reproduz músicas, possui jogos, tira fotos, grava vídeos e tem conexão direta com a internet. Muitas funções para uma coisa demasiadamente pequena. E, devido a esse tamanho, o celular é levado para qualquer lugar. Cinemas, teatro, escolas... lugares onde ele não deveria ser usado.
Não serei radical ao extremo dizendo que devemos privar as crianças de tudo isso, mas devemos impor alguns limites e regras de uso para que a tecnologia não continue a se tornar um problema como é atualmente.
Vivemos em mundo mundo onde as pessoas preferem gastar R$150,00 num game a gastar R$20,00 para ver uma peça de teatro. A cultura e as artes sofrem um desestímulo rápido e contínuo. Oras, e chegamos até aqui sem o google, sem notebooks, sem o x-box, sem o play station 3 e sem a wikpédia, é porque nada disso é tão essencial assim. Ainda é tempo de ensinar como as coisas mais simples são as mais prazerosas e as mais enriquecedoras.
Jogar "War" ou "imagem e ação"com os amigos pode ser mais legal que o "GTA". Construir "telefones" com latinhas de milho ou de ervilha pode ser mais divertido que um game no celular. Sonho com o dia que as crianças subam mais em árvores, frequentem mais circos, interajam mais umas com as outras... Devemos ensinar a nova geração como usar as tecnologias com responsabilidade e inteligência e, acima de tudo, mostrar que a vida é muito mais que um punhado de botões.
Otavio Augusto Amaral de Calmon Borges ? professor e servidor público municipal - http://tavinnho.blogspot.com.br