Vivi a parte final da Guerra Fria. Nos filmes da minha adolescência, os antagonistas do mundo ideal eram os comunistas. No imaginário da minha infância, a União Soviética era um lugar onde o capeta havia se estabelecido e escravizado as pessoas. A visão de mundo da minha escola, da minha família e dos meus amigos era a oficial: a da direita. Tínhamos aula de Educação Moral e Cívica, quando aprendíamos sobre os grandes feitos da "Revolução" de 1964. Era o tempo em que Paulo Maluf governava nosso Estado, mesmo sem ter sido eleito pelo povo. Roubava-se, mas fazia-se.
Na sala de estar do meu vizinho havia um quadro do Sindicato Solidariedade, a rebelde agremiação operária do porto de Gdansk, na Polônia, que conduziu os protestos rumo à abertura política do país, nos anos 1980. Era um quadro vermelho, escrito "Solidarnóscy" (ou coisa parecida) em branco, que virou ícone da arte moderna e símbolo da luta pela liberdade (do ponto de vista dos capitalistas). Quando o comunismo caiu, em 1989, Lech Walesa, o líder do Solidariedade, tornou-se o primeiro presidente eleito pelos poloneses desde a ocupação nazista, coroando finalmente uma História de séculos de luta pela sobrevivência da Polônia.
Para mim, Lech Walesa era um Lula invertido. Ele era a pedra no sapato dos comunistas, como Lula fora a dos militares brasileiros. Walesa tornou-se presidente na mesma época em que Lula disputava a presidência do Brasil contra Collor. Naquele tempo, as ideologias ainda contavam tanto em nosso país, que a nata empresarial brasileira, capitaneada por uma emissora de televisão, interferiu no processo eleitoral para que Lula (que parecia um comunista) fosse derrotado. Então, Lech Walesa encontrou-se com Lula. No momento em que a conversa foi para o campo ideológico (esquerda X direita), Walesa disparou esta: "-Eu estava certo. Afinal eu fui eleito presidente e você não."
Antes, quando Lula estava quase para vencer Collor, muitas pessoas da alta sociedade de Bauru falavam que mudariam para o Uruguai, caso ele fosse mesmo o presidente. Estavam redondamente enganadas, pois os oito anos de Lula na presidência tornaram os ricos muito mais ricos. Collor elegeu-se com ajuda da mídia. Seu primeiro ato como presidente foi confiscar a poupança da população. Em qualquer país do mundo, até no Zimbabwe, isso causaria protestos, com o povo nas ruas - talvez até revolta armada. Aqui não aconteceu nada. Não me lembro de ouvir uma pessoa sequer reclamando.
Antes de o Lula e o PT aparecerem nas eleições, eu me lembro das propagandas políticas da Arena e do MDB. A política, os políticos e os eleitores ainda tinham identidade - meu bairro inteiro votava na Arena. Com o tempo, mesmo que o povão fosse impedido de eleger o presidente por via direta, a política seguia o rumo da vontade popular. O Colégio Eleitoral (nossos congressistas) escolheu Tancredo Neves e acabou com o plano malufista da presidência. Pouco antes, o movimento das Diretas Já inflamou o país, mostrando que, pelo menos às vezes, os brasileiros se mobilizam por coisas importantes.
Vivíamos naqueles tempos o final do romantismo político. A partir daí, a "simplicidade" de um mundo à esquerda ou à direita se perdeu nos princípios do neoliberalismo e de sua globalização econômica. Nos anos 1990, já não importava mais se um país da América Latina era governado por alguém de esquerda ou não, pois a única alternativa do governante seria alinhar-se à política econômica global e gerir a nação segundo os princípios da austeridade estatal (ou melhor, dos bancos). Lula fez um bom governo, com uma política de esquerda para as massas, mas que respondia à visão de mundo e aos interesses da direita. O resultado está nos jornais de todo o país: o mensalão, como ficou conhecida a propina que o governo pagava aos congressistas para votarem nos projetos governamentais, é o denominador comum de um país sem ideologias. Um esquema em que a suposta esquerda pagava à suposta direita para que as leis, supostamente populares, fossem aprovadas.
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião