Tribuna do Leitor

Quando Bauru era sertão


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Meu avô paterno nasceu no dia 24-06- 1888 e foi registrado em Fortaleza do Espírito Santo, "Bauru", no livro 1, folha 50, com o nome de João Candido Carneiro. Tive o prazer de conviver com ele durante muitos anos de minha infância e ouvia muito de suas historias que ele sempre começava com frase lapidar: - Quando o Bauru era sertão... .

Ao ouvir essa frase eu já sabia que vinham coisas do arco da velha e abria meus ouvidos e arregalava os olhos para ver e ouvir tintim por tintim mesmo sem a devida noção do que aquilo representava em termos histórico para um bauruense como eu.

Certa vez me contou que já morando em Bauru, ainda menino, sua casa ficava às margens de uma estrada que saía da vila de Bauru , transformava-se em um picadão que rasgava o cerrado rumo ao porto de Aracanguá. Por ser beira de estrada, era comum as pessoas pararem em sua casa em busca de informação para chegar nas fazendas ou mesmo seguir em busca de lugarejos aí pelas barrancas do rio Tietê.

Meu avô, sempre atencioso com os viajantes e zeloso com as pessoas, pois volta e meia tinha gente que se perdia pela imensidão desabitada e errava palas campinas, passando medo e muita privação, até sair em terra cultivada e ter contato com seus moradores.

Para evitar esses acidentes de trajeto, meu avô explicava tudo em detalhes, e sem pressa, não que fosse prolixo, mas sabia da importância da explicação e por vezes repetia os detalhes sempre riscando no chão uma espécie de mapa. Com seu inseparável facão, ia ensinando o rumo ao caminheiro e fazendo riscos. Certa vez, já no escurecer, meu avô ouviu bater palmas e saiu para atender.

Era mais um desses que buscavam informação. Ao ouvir o pleito do transeunte, meu avô se prontificou a ajudá-lo, porém, pediu um tempo, pois ia lá dentro pegar o facão. Quando voltou com seu instrumento de trabalho para mapear os rumos do viajante, só viu a poeira do cavalo que a galope se perdia nas curvas de areia em meio ao cerradão que circundava a pujante vila que se rebentava nos campos do Bauru.

Lázaro Carneiro

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