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Hippies: a história definitiva

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Em nossa era de neoliberalismo, fala-se muito sobre a volta às gestões econômicas do pós-guerra, quando imperava o capitalismo de bem-estar social (nos Estados Unidos) e a social democracia (que não tem nada a ver com o PSDB e existiu na Europa). Uma das grandes consequências culturais desses modelos de capitalismo foi o movimento hippie do final dos anos 1960. Era a época em que os Estados Unidos atingiram pleno emprego, o governo tinha controle da economia e as universidades americanas recebiam novas levas de estudantes, de classes sociais que nunca haviam atravessado os portões do ensino superior.

O History Channel produziu um documentário essencial sobre os hippies, que mostra toda a trajetória do movimento contra-cultural nos anos 60, a partir de sua gênese no bairro de Haight Ashbury, em São Francisco. Além de se concentrar em São Francisco, o filme se prende muito à descoberta, história e consumo do LSD, droga usada e venerada pelos hippies como mais um instrumento de libertação diante dos valores da sociedade conservadora americana. Nesse tópico, a obra mostra que o LSD, antes de ser adotado pelos hippies, fora usado pela CIA em experiências de espionagem e contra-espionagem, e também legalmente, pelos professores das grandes universidades americanas em experiências sobre o inconsciente humano. Entre esses professores estava Thimoty Leary. Depois de sua expulsão de Harvard por ter extrapolado o caráter acadêmico das experiências com LSD (ou seja, ele distribuía e tomava indiscriminadamente a droga pelo Campus), Leary viria a se tornar um dos grandes líderes e disseminadores do movimento.

O filme mostra o inchaço populacional gradativo de Haight Ashbury com o passar dos anos, conforme o movimento hippie ia se tornando popular em todo o país, impulsionado pela visão mediada, distorcida e caricatural adotada pela imprensa. Durante as quase 2 horas do filme, falam ex-hippies, médicos, policiais, empresários, atores e músicos que participaram daqueles acontecimentos. A partir disso, vieram os problemas causados pelo uso excessivo de drogas e pelo êxodo de jovens que atravessavam o país para chegar a São Francisco e lotavam as ruas de Haight Ashbury, sem ter um propósito definido e nem mesmo condições de se sustentar. Gangues criminosas de traficantes e exploradores da prostituição foram as conseqüências dessa corrida desordenada ao sonho da sociedade alternativa e utópica dos hippies, além da explosão dos casos de surtos psicóticos, suicídios e violência.

Os hippies originais começaram a deixar Haight Ashbury e a se isolar em comunidades rurais no interior do país, onde passariam a viver produzindo seus próprios alimentos, roupas e outros materiais, e tentariam uma vida de partilha e doação. É claro que isso também não deu muito certo - segundo o filme, eles relevaram a complexidade da vida simples. Apesar dos problemas que os hippies enfrentavam, o movimento continuava crescendo nas grandes cidades. As autoridades e a sociedade conservadora protestavam contra o "caos social", mas diversos festivais de desobediência cívica e libertação do corpo e da mente eram realizados com cada vez mais adeptos.

De fato, conta o filme, toda uma rede de apoio material estruturava o movimento em São Francisco. Havia instituições responsáveis por providenciar alimento, roupas, drogas e assistência médica a todos. Haight Ashbury chegou a contar com um sistema público de coleta de lixo, saneamento e saúde independentes, mas esse "estado paralelo" não sobreviveria a Woodstock (1969). Lá, a indústria cultural popularizaria o movimento mundialmente, transformando os signos da cultura hippie em padrões a serem seguidos por todos (uma moda), diluindo assim seu potencial revolucionário.

Foi o primeiro movimento popular de protesto conduzido quase que exclusivamente pela juventude. Além disso, foi um movimento que surgiu dentro das universidades; um protesto das classes médias (e até altas) contra o sistema político e social dos Estados Unidos, que acabou se espalhando pelo mundo.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião

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