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Entrevista da Semana: Alaíde Miguel Jacob

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 9 min

‘A arte me aproxima de Deus’

A artista plástica Alaíde Miguel Jacob nasceu com o dom da pintura. Desde a infância, vivida intensamente em uma fazenda de Bauru, já dava sinais de uma paixão que frutificaria alguns anos mais tarde. Os traços mal definidos feitos em uma folha de papel do caderno da escola, com o tempo, deram lugar a traços firmes, imponentes, bem executados, que decoram praticamente todos os ambientes da residência da artista. São telas que parecem dar vida a um vaso de flores, a um jardim, a um cesto de frutas, a um lago e a uma infinidade de outros temas da natureza. Lá estão também os temas abstratos, mais difíceis de serem compreendidos, mas fáceis de serem contemplados em razão da escolha das cores, sempre alegres, vibrantes, “pra cima”. Conheça um pouco mais da artista e professora de pintura Alaíde Miguel Jacob na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Como surgiu sua paixão pela pintura?

Alaíde Miguel Jacob - Desde pequena eu gostava de desenhar. Ele fazia desenhos da natureza, aquelas coisas de criança. Desenhava rios, árvores, enfim, tudo o que via pela frente. Eu desenhava e depois pintava com os lápis coloridos. Era o que eu mais gostava de fazer. Era meu momento predileto do dia.


JC - Mas você foi estimulada por alguém a gostar tanto assim de desenhar e pintar ou isso surgiu naturalmente?

Alaíde - Naquele tempo, os pais não estimulavam as crianças para a arte. O que eles faziam, geralmente, era estimular para fazer a escola normal, que era estudar para ser professora. Naquela época, era bonito as mulheres serem professoras. Mas nunca ninguém me estimulou a gostar de fazer desenhos. Como eu morava em fazenda, então tinha muita coisa da natureza para ver e desenhar. E no começo foi assim. Não tive incentivo dos meus pais, apesar de eles serem bem sensíveis, mas eles tinham outras prioridades. Eles não achavam que lidar com arte pudesse ser uma profissão.


JC - A fazenda onde você morou ficava em Bauru?

Alaíde - Sim. Eu nasci em Bauru e cresci aqui. Vim morar na cidade e me casei muito cedo. E parei de pensar e me dedicar à pintura. Eu tinha de trabalhar e cuidar dos três filhos. E também era jovem, tinha outras prioridades.


JC - Você casou com quantos anos?

Alaíde - Foi um pouco antes de completar 18 anos. Nós tínhamos lojas de confecção e de calçados e eu trabalhava nas lojas.


JC - Nós quem? Você e o marido?

Alaíde - Isso, eu e meu marido e ainda tínhamos um casal que eram nossos sócios. Nós trabalhávamos muito e eu não tinha tempo para pensar em pintura. Foi um tempo bom, também. Mas os meninos foram crescendo e eu comecei a estudar pintura. Minha primeira professora foi a Miriam Rocha. Depois tive aula com o Alcione Torres Agostinho. Foi um período em que eu aprendi muito. Ele me ensinou a mexer com cores, me ensinou técnicas novas. Ele era um apaixonado pela arte, pela música. Além de eficiente, era um professor que mostrava muito entusiasmo e isso foi me contagiando ainda mais.


JC - Nessa época, você continuava na ativa como empresária?

Alaíde - Ainda tínhamos as lojas, mas já não precisava trabalhar tanto, porque tínhamos uma equipe de funcionários. Meus filhos também estavam maiores, então eu podia me permitir esse tempo para mim. Tive aulas com outros professores, como a Sônia Gabriele, a Sueli Dabus, que acrescentaram coisas novas. Na verdade, a gente está sempre aprendendo. Fiz cursos em São Paulo, além de estudar e pesquisar muito por conta própria.


JC - E como surgiu a professora de pintura Alaíde Miguel Jacob?

Alaíde - A oportunidade de dar aulas surgiu quando as lojas foram fechadas. Aí eu não tinha mais as lojas para ir, eu sentia falta de uma atividade mais constante na minha vida. Aí eu comecei a pintar mais. Foi quando começaram a aparecer pessoas que queriam ter aulas.


JC - Isso foi há quanto tempo?

Alaíde - Ah, foi há uns 15 anos, mais ou menos. E até hoje eu pinto com o Ailton César Ribeiro, um rapaz que também foi aluno do Alcione e mantivemos o costume de nos reunir para pintar mesmo após a morte do professor. Porque a gente precisa da companhia de outras pessoas que têm as mesmas ideias, o mesmo gosto, as mesmas ansiedades. Eu sinto falta dessa aproximação de pessoas com o mesmo interesse.


JC - Mas de onde surgiram os alunos, por que eles te procuraram?

Alaíde - Eu nunca pensei em dar aulas, nem acho que tenho condições de dar aulas. Então, é mais uma troca de experiências. Um dia compraram alguns dos meus quadros para colocar na entrada de um prédio que fica aqui perto de casa. Uma moça que mora lá, gostou do quadro e decidiu que queria aprender a pintar. Então, ele veio me procurar. Eu disse que não tinha condições de dar aula, eu não sei dar aulas, eu sei pintar. Ela insistiu e disse que queria apenas uma orientação sobre cores, desenhos, técnica. E assim começou. Primeiro veio ela, depois uma amiga dela, outros passaram por aqui e viram e também quiseram participar. E isso já dura 15 anos. É uma troca de experiência entre pessoas com os mesmos interesses.


JC - O que a pintura significa para você?

Alaíde - Na minha opinião, a pintura é algo que vem do interior das pessoas. Você vai adquirindo experiência e vai crescendo, não só nas técnicas, mas também na espiritualidade. Eu me sinto muito próxima de Deus quando termino uma tela. É uma coisa muito forte. A arte alimenta a alma. Um dia, eu ouvi dizer que ‘é um meio de Deus falar aos homens’. Isso agora faz sentido em minha vida.


JC - E o que te inspira para pintar?

Alaíde - Depende da fase da vida. Eu comecei com a pintura figurativa (como o próprio nome diz, é o desenho que reproduz uma figura), depois foi mudando. Teve uma época que eu fazia muito arte abstrata, com formas geométricas. Hoje, estou em uma fase mais de expressão do que eu sinto. Graças à pintura, eu me tornei uma pessoa melhor, com mais paciência, mais calma e também com uma sensação incrível de liberdade.


JC - Tem momentos em que você, por uma questão emocional, não consegue produzir?

Alaíde - Muitas vezes. Tem horas que eu imagino uma tela pronta, mas eu não consigo concluí-la. Aí eu deixo a tela de lado e começo a fazer outra coisa. Quando resolvo aquilo que estava me bloqueando, volto naquela tela. Então, é verdade, a inspiração para concluir um trabalho depende muito do meu estado de espírito.


JC - E o que você faz com os quadros que pinta? Você vende, deixa guardados em casa ou leva para exposições?

Alaíde - Aqui em Bauru eu não tenho exposto porque não tem um espaço próprio para isso. Tirando o espaço criado pela Secretaria de Cultura, quase não temos mais opções. Mas eu tenho contato com pessoas de São Paulo e, às vezes, exponho lá. Já aconteceu de expor meus quadros em outros Estados, como Paraná, por exemplo. Tenho participado também de salões, nos quais ganhei medalhas de ouro, prata e bronze.


JC - Eventos recentes?

Alaíde - Olha, coisa de cinco anos atrás. A medalha de ouro eu ganhei em Limeira. Em Jaú, também tive quadros que foram premiados.


JC - Imagino que deve ser uma sensação gostosa ter um quadro premiado.

Alaíde - É uma sensação boa porque você vê o fruto do seu trabalho sendo reconhecido. Toda vez que nos preparamos para pintar uma tela dá um friozinho na barriga porque é um desafio. Dá medo de eu não ser capaz de concluir o que me propus. Mas isso faz parte.


JC - Você tem ideia de quantos quadros pintou até hoje?

Alaíde - Não. Nunca contei quantas telas eu já fiz. Vendi muitas. Eu até me arrependo de não ter catalogado essas telas com fotos. Eu fiz isso com algumas, mas não com todas. Mas, eu acho que foram mais de 500 telas.


JC - Como você define a arte?

Alaíde - Eu diria que é um meio que a pessoa tem para se expressar, através dos traços, das cores, da sensibilidade. É uma comunicação. Eu tenho até pena das pessoas que não entendem, que não conseguem enxergar as coisas belas que a arte traz para a vida, seja por meio da pintura, da música, da dança. Está faltando muito isso nas pessoas. A arte transformou minha vida. Como disse antes, hoje me considero uma pessoa melhor no aspecto espiritual, de sensibilidade, na convivência com outras pessoas. Me tornei livre de preconceitos, de ideias pré-estabelecidas. E isso eu aprendi com a arte. A arte me mantém motivada a superar as barreiras impostas neste mundo conturbado, materialista, insensível, onde as pessoas valorizam mais o ter e perdem a oportunidade de apreciar as belezas simples da vida.


JC - Além da pintura, você divide o tempo com mais o quê?

Alaíde - Eu faço muitas coisas. Eu tenho os filhos, que preciso dar uma assistência de vez em quando. O mais velho, Carlos Eduardo, é médico e mora em São Paulo. O Marcelo é o segundo filho. Ele trabalha com vendas e mora em Ribeirão Preto. O mais novo é o Fábio. Ele trabalha na Ambev, em Jaguariúna. Tenho três netos (o quarto está chegando) e, de vez em quando, tenho de cuidar deles. Eu faço exercícios físicos, vou à academia, faço pilates, meditação e ioga. Faço isso para prevenir doenças, manter o peso e a disposição. Ontem (véspera da entrevista), dei aula até as 11h da noite.


JC - E você se considera uma pessoa realizada em termos profissional, financeiro e pessoal?

Alaíde - Não. Em nenhum desses aspectos. Acho que tem muitas coisas ainda para serem conquistadas. Nós estamos sempre mudando. Eu acho que sempre para melhor. Pelo menos para mim, o tempo só me fez bem. Eu estou bem. Não digo que me sinto realizada, porque muitas coisas podem mudar ainda. Sou otimista.


Perfil

Nome: Alaíde Miguel Jacob

Idade: Não revela

Local de nascimento: Bauru

Signo: Áries

Filhos: Carlos Eduardo, Marcelo e Fábio

Hobby: Atividades físicas

Livro de cabeceira: “A Cabana”, de William P. Young

Filme preferido: “A Voz do Coração”, de Christophe Barratier

Estilo musical predileto: Todos. Depende da ocasião

Time: Não tem

Para quem dá nota 10: “Para minha mãe e melhor amiga”

Para quem dá nota 0: Para a corrupção

E-mail: alaidejacob@hotmail.com

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