Devido à minha infância e sua época, aprendi a nunca questionar o procedimento de meus "superiores": pais, professores, diretores, os chamados mais velhos. Tínhamos de baixar a cabeça e suportar algumas injustiças, que mesmo assim acho que serviram de ensinamento, mas que sufocaram aquela minha geração pela ausência de uma liberdade que se misturava com o momento histórico que estava sendo vivido.
Vivíamos sob a ditadura, quando ninguém votava pAra presidente e, portanto, este movimento em busca de votos, acomodações em partidos e o processo democrático que temos hoje não existia. A maioria de nossos pais percebia que ir contra os militares era uma atitude que envolvia ideologia e coragem, ingredientes que não estavam à disposição nas prateleiras do nosso cotidiano provinciano, pela falta de engajamento, fruto do analfabetismo político vigente.
Greve era exemplo de subversão, coisa de vagabundo, distorções compatíveis com aqueles tempos de chumbo e cegueira. Havia muito era propaganda da ditadura, que até em Baile de Debutantes mandava seus cadetes da Aeronáutica, impecavelmente vestidos, para demonstrar a força dos milicos.
A imprensa foi monitorada e cooptada, assim como os 3 poderes tiveram suas prerrogativas colocadas à prova e vilipendiadas pela força, dividindo seus componentes em 2 facções: os colaboracionistas e outros resistentes, sabedores do que acontecia e que sofreram por essa atitude.
Com isso, as instituições todas passaram por um transe, uma parada, mas que agora começam a dar sinais de ignição que pode chegar a uma evolução sem volta, dentro de uma caminhada pela rota da liberdade democrática.
Até no futebol o ar do autoritarismo fluía. O juiz de futebol e estrela Armando Marques na final de um campeonato paulista entre Santos e Portuguesa decretou, diante de um estádio lotado, que os dois times teriam de ser declarados campeões por um erro de aritmética ridículo dele mesmo, sem que ninguém o peitasse, vendo-se ali a postura de hierarquia sem questionamentos que imperava naqueles anos 60/70.
Hoje não vemos censura à imprensa e quando acontece algum tipo de mordaça ao livre pensamento, entidades, associações e a sociedade civil que se organiza estrila e fala alto. São exemplos que pululam diariamente no noticiário e que demonstram esta corrida atrás de um prejuízo.
Países como Estados Unidos e os europeus, por terem deixado os resquícios de arbitrariedade e despotismo na poeira do passado, alcançaram um status quo que permite e rebate as crises, com menos base nas hostes econômicas e do mercado e mais confiança nas estruturas do poder instituído e da sociedade informada, o que se faz ver nos quebra-quebras, greves e tensões que tudo fazem e podem, menos derrubar o que foi conquistado. Hoje, podemos notar aquilo que aventávamos em crônicas antigas, que chamávamos pelo nome de "exercício democrático", mas não sabíamos o que era exatamente esse bicho exótico. Quando agora, pelo julgamento do mensalão, o povo brasileiro está a analisar o Judiciário e suas ações, colocando em xeque a idoneidade, capacidade e eficácia dos homens de toga, coisa jamais imaginada n?outros tempos, nota-se com todas cores o tal do "exercício democrático", que inclusive já produziu, de antemão, um veredito insofismável: o total descrédito com a classe política.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista e jornalista, autor dos livros "O Sonho: Crônicas Escolhidas" e "Os caçadores de tirisco"