“Você já conhece o bairro? É ótimo! Tem de tudo: de supermercado à melhor panqueca de Bauru”. Este foi o comentário feito por um corretor de imóveis assim que pisei pela primeira vez no Jardim Marambá em busca de um apartamento para chamar de meu. O comentário, apesar de soar como “papo de quem está interessado em vender apartamentos”, despertou minha atenção.
E como checar informações é uma das primeiras lições que aprendemos na faculdade de jornalismo, decidi investigar. Uma breve caminhada pela avenida Orlando Ranieri me fez perceber que o tal corretor não estava blefando. O Jardim Marambá tem mesmo de tudo. Além do supermercado e da panquecaria citadas, o bairro tem salões de beleza, academias, barzinhos, sorveterias, restaurantes, lojas de roupas, lan houses, lojas de decoração e até mesmo consultórios dentários.
E se a comparação for relacionada ao número de prédios, o bairro ganha ainda mais ares de cidade: é que o Jardim Marambá concentra sete condomínios, com diversos prédios cada, número que, somado, é bastante superior à maioria das cidades da região.
Segundo o professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Cláudio Bertoli, a concentração populacional é um dos fatores que levam os bairros a adquirir ares de cidade.
“Quanto mais pessoas, maior a necessidade de serviços. E esta regra vale para os bairros. As grandes empresas, como bancos, por exemplo, têm olheiros que têm a missão de percorrer a cidade e fazer diagnósticos das necessidades de cada bairro. É em grandes concentrações de pessoas que eles vislumbram possibilidades de lucros”, explica Cláudio.
Outro bairro com “cara” de cidade é o Núcleo Mary Dota. Considerado durante muitos anos o maior conjunto habitacional horizontal da América Latina, o bairro concentra cerca de 15 mil moradores e uma grande variedade de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços. Por lá é possível encontrar da tradicional padaria a oftalmologista e loja de alta costura.
Uma realidade similar tem o Parque Redentor. Em constante expansão nos últimos dez anos, o bairro tem grandes perspectivas de crescimento. Contudo, diferentemente do Jardim Marambá e do Núcleo Mary Dota, não foi a concentração de pessoas que tornou o bairro parecido com uma pequena cidade, mas, sim, a distância do Centro.
“Os bairros mais distantes do Centro tendem a se organizar de forma a depender o mínimo possível das coisas exteriores ao seu território. É um recurso que facilita a vida da comunidade”, explica.
Além destes três bairros, a reportagem do Jornal da Cidade identificou outros dois pontos que têm cara de pequena cidade: a Vila Falcão e o Jardim Bela Vista. Rankeados entre os bairros mais antigos de Bauru – a Vila Falcão é o segundo e a Bela Vista o quarto bairro mais velho da cidade -, ambos concentram agências bancárias, supermercados, comércios dos mais variados tipos e moradores apaixonados.
“São casos clássicos em que a história criou uma identidade. São bairros antigos, que tiveram acesso a recursos quando a cidade ainda era muito pequena e, por isso, se tornaram “pequenas cidades”, explica o antropólogo.
Até que ponto?
A afirmação de que um determinado bairro em muito se parece com uma cidade é comum atualmente, especialmente em Bauru, município com bairros em constante expansão. Contudo, para o professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista de Bauru (Unesp) Cláudio Bertoli, é preciso considerar algumas coisas quando se faz uma afirmação como esta.
Entre elas, o fato de que, apesar de terem muitos recursos voltados ao comércio e aos serviços, geralmente, tais locais carecem de opções de lazer e serviços sofisticados, que demandam maior investimento.
“Esses bairros são quase completos. Quase porque ainda faltam coisas. Um exemplo: nenhum destes bairros tem cinema”, aponta Cláudio.
Além disso, ele ressalta que dar aos bairros “a cara de cidades” pode, sim, ser uma estratégia de exclusão.
“Ao mesmo tempo em que os investidores facilitam a vida de quem mora no bairro, criando a ideia de que “nenhum outro lugar é melhor que o meu bairro”, eles mantêm a periferia afastada do centro”, ressalta Cláudio.