JC Criança

Colecionar coisas é uma delícia!


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As palavras taciturno e sorumbático entraram para a coleção do jornalista Edison Veiga, 27 anos, quando ele tinha apenas 12. Criado em Taquarituba, cidade localizada a 320 quilômetros de São Paulo, o menino gostava do som que ouvia ao pronunciá-las. Ta-ci-tur-no, so-rum-bá-ti-co. Mas ele conhecia também o significado delas e, intencionalmente, passou a utilizá-las nas conversas com os amigos.

A coleção de palavras talvez tenha sido a mais singular, mas não foi a única que Veiga, repórter de Metrópole, do jornal "O Estado de S.Paulo", fez. Bolinhas de gude, selos, tampinhas de garrafas, pedras, carrinhos, gibis. E poemas. Aos 15 anos, sua coleção de poemas se transformou em seu primeiro livro, "Enigma" (editora Scortecci), com textos que hoje ele considera imaturos.

Em 2009, o jornalista lançou "Essa Tal Proclamação da República" (editora Panda Books), um livro juvenil que festejou os 120 anos de proclamação da República. Depois, em 2011, publicou o romance "Mingutas: Correndo da Carranca do Carimbo, Caramba!" (editora Patuá), sobre seres imaginários que desestruturam a lógica vigente. Agora, estreia no mundo da literatura infantil com "O Menino Que Sabia Colecionar" (editora Panda Books), com uma história que lembra um tanto a sua.

A ideia inicial, conta Veiga, era falar sobre uma coleção de "enquantos". Poderia ser um conto ou outro romance. "Mas achei que se fosse mais concreto, poderia ser para crianças", diz.

"O Menino Que Sabia Colecionar" narra a história de Nardinho, apelido de Ronaldo, um garoto de 7 anos com mania de coleções. Mas, diferentemente do jornalista, Nardinho não colecionava figurinhas, pois achava "meio triste essa coisa de sempre aparecer outra repetida".

"Atrapalha a coleção", dizia. Tampouco tampinhas de garrafas, que, com seus cantinhos pontudos, machucam quem gosta de andar descalço. Nem bolinhas de gude ("Já reparou no barulho que elas fazem dentro do saquinho? É um treque-treque irritante.") nem gibis ("Depois que eu leio uma história, ela fica velha. Por que vou querer ler a mesma coisa de novo? Para decorar? Sempre soube que decorar é começar a estragar").

Nardinho resolve, então, colecionar palavras, apesar da estranheza dos amigos. Cria caixas coloridas para agrupar os semelhantes: verde para os bichos, amarela para as palavras-plantas, roxa para os vocábulos duros (tristeza, solidão, dor, morte e suco de beterraba), azul para os azuis (céu, mar, infinito), outra para as palavras difíceis (ébano, alicerce, falácia, geriatra, datiloscopista e plagiótropo).

Depois, escolhe a palavra que mais gostou - madrugada - e passa a colecioná-la também. Mas, para isso, decide ficar as noites em claro. A coleção de "enquantos" também está aqui, ao lado de outras tantas, como a de doenças - "mas doencinhas tranquilas, tipo resfriados, porque eu não sou louco de ficar colecionando doenças graves".

Edison Veiga usa uma linguagem simples para falar com as crianças, mas sem subestimar sua inteligência. O texto é narrado sob o ponto de vista do menino, que vai dialogando com o leitor, falando de seus gostos, medos e sentimentos. O jornalismo, conta Veiga, o fez se acostumar a tratar de temas variados, para leitores de idades diferentes. "Mas é diferente escrever para crianças. É uma época em que o caráter está sendo moldado. Não queria um texto moralista ou que levasse a uma interpretação óbvia. Queria uma literatura mais libertadora."

Serviço

O Menino Que Sabia Colecionar. Autor: Edison Veiga; ilustrações: Sandra Jávera. Editora Panda Books (30 págs; R$ 29,90)

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