São Paulo - A expectativa do governo federal de que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro apresentará uma aceleração mais robusta a partir do terceiro trimestre ainda não é sustentada pela indústria. De acordo com representantes do setor de embalagens e de fabricantes de matérias-primas para esse setor, a recuperação da demanda registrada desde o início de julho é discreta e, a princípio, sustentada apenas na sazonalidade do setor. Ou seja, a alta das vendas registrada nas últimas semanas não difere de forma consistente da variação vista em outros anos nesse mesmo período, ao contrário do que desejaria o governo.
Empresários desses setores ouvidos pela Agência Estado classificam como “leve” a recuperação gradativa dos indicadores da indústria. O temor é de que o movimento tenha origem apenas na tradicional maior demanda de final de ano e que, encerrado o período de maior volume de produção, os negócios voltem a cair. “Não vemos retomada alguma em marcha. O que vemos nesse início de segundo semestre é uma melhora sazonal”, alerta o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), José Ricardo Roriz Coelho.
Principal fabricante de resinas termoplásticas das Américas, a brasileira Braskem constatou recuperação das vendas nos últimos dois meses. Mas, segundo o vice-presidente da unidade de Poliolefinas, Luciano Guidolin, ainda é muito cedo para determinar se o movimento já reflete uma retomada da economia brasileira. “Uma parte da alta vem da sazonalidade do setor, mas ainda não sabemos se o efeito é causado apenas por essa sazonalidade. Pode ser reflexo também das medidas do governo”, afirmou à Agência Estado no início desta semana.
O diretor de vendas de plásticos da norte-americana Dow no Brasil, Axel Labourt, compartilha da opinião de Guidolin. “Vemos uma melhoria em relação ao primeiro semestre, mas ainda não dá para saber a dimensão”, afirmou o executivo da empresa, que é uma das concorrentes da Braskem no mercado brasileiro de resinas.
A dúvida dos executivos em relação ao movimento de aumento da demanda visto nas últimas semanas deixa evidente que não há até o momento qualquer indicação mais robusta de alta do PIB brasileiro. Pelo menos não com efeito na indústria. E, de acordo com o coordenador de análises econômicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Salomão Quadros, a manutenção dessa situação é provável, uma vez que o setor industrial tem constantemente registrado desempenho abaixo do PIB nacional.
“A indústria vai continuar a apresentar um desempenho pior, mas acredito que não com essa (atual) discrepância. Afinal, a indústria tem sido beneficiada com um maior arsenal de medidas do governo”, destacou Quadros, após palestra proferida nesta quarta-feira a um grupo de empresários do setor de embalagens.
No segundo trimestre, o PIB brasileiro apresentou elevação de 0,4% ante o primeiro trimestre deste ano, variação impulsionada por uma alta de 4,9% no PIB da agropecuária. O PIB de Serviços cresceu 0,7% e o da indústria encolheu 2,5% na mesma base comparativa. “Acredito que haverá uma redução nesse hiato até mesmo porque o câmbio está mais favorável”, complementou o economista da FGV.
O fraco desempenho industrial no trimestre, com destaque para a retração de 5,3% na indústria de transformação, contribuiu para que a produção física de embalagens encolhesse 2,55% no período. No acumulado do primeiro semestre, o indicador apresentado hoje pela Associação Brasileira de Embalagem (Abre) encolheu 3,49% em relação a 2011.
Para o segundo semestre, a previsão da FGV é de que a produção de embalagens cresça 1,5% em relação a igual intervalo de 2011. Esse número nem de longe se parece com a alta de 16,29% registrada no primeiro semestre de 2010, quando um crescimento mais robusto foi efetivamente visto na indústria de embalagens.
Segundo o presidente da Abre, Mauricio Groke, as últimas reuniões do conselho da entidade mostram que há uma retomada de projetos e pedidos no setor. “Acredito que não seja uma bolha, nem efeito sazonal. O crescimento agora parece ser mais sólido, conforme temos visto junto aos associados”, afirmou.
O diretor Financeiro da fabricante de embalagens Dixie Toga, Marcos Antonio de Barros, que também é vice-presidente da Abre, pondera que ainda é preciso esperar para que uma visão sobre o tema fique mais clara. “Estamos esperançosos de que a recuperação aconteça. Mas ainda está difícil identificar se esse movimento vai permanecer ou não”, afirmou. A resposta a esse pergunta deve ocorrer apenas em outubro, destaca Guidolin, da Braskem.
Por enquanto, os sinais do setor de embalagem, considerado um termômetro da atividade da indústria de transformação brasileira, além de imprecisos são contraditórios. É o que mostra a sondagem trimestral elaborada pela FGV. De acordo com Quadros, a pesquisa atualmente em curso mas ainda não concluída aponta que a perspectiva em relação à demanda por embalagens é menos pessimista do que no levantamento divulgado em julho.
A percepção de que os estoques da cadeia continuam elevados, por outro lado, permanece inalterada em níveis semelhantes aos registrados no final de 2009, quando a economia brasileira sofria com os efeitos da crise econômica iniciada nos Estados Unidos no ano anterior. O estudo mostra também que a análise dos entrevistados do setor em relação à situação dos negócios nos próximos seis meses é positiva, mas ainda longe dos níveis registrados antes de 2008 e também dos números do primeiro semestre de 2010, o que torna menos provável que a visão otimista do governo federal se confirme.