Das 109.830 residências existentes em Bauru, 4.511 ainda são de madeira. Os dados são do último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Quem faz parte do dominante grupo que vive em casas de alvenaria talvez se espante com o dado, afinal, estamos em 2012 e há décadas a madeira vem sendo substituída pelos resistentes tijolos. Contudo, basta olhar com um pouco mais de atenção para notar que diversos bairros da cidade ainda conservam muitas das charmosas e antigas casas de madeira que predominavam no cenário de Bauru no início do século passado.
E elas não estão somente nos bairros da periferia, principalmente aqueles caracterizados pela falta de recursos. Na Vila Falcão e na Vila Cardia, por exemplo, dois bairros antigos de Bauru, porém bastante prestigiados, existem dezenas delas. No Centro, nos Altos da Cidade e no Higienópolis também é possível encontrar casas de madeiras.
O valor sentimental destes imóveis é um dos motivos que os mantêm em pé nos bairros mais bem cotados e localizados de Bauru.
“Acho o Higienópolis um bairro muito bom para se morar. Só que a proprietária da casa já avisou: não vende o imóvel por nada”, conta o morador Paulino Justino da Silva, 53 anos.
Um exemplo parecido é o de Eliane Cristina Rodrigues, moradora de uma casa localizada no Parque Vista Alegre. Nascida e criada no imóvel, ela sonha em, aos poucos, reformá-lo, mas garante que não pretende desmanchá-lo por completo. “Passei toda minha infância aqui... gosto muito desta casa”, afirma.
Além do valor sentimental que estes imóveis têm para seus proprietários, a falta de opção também soma pontos para a sobrevivência das casas de madeira.
“Se eu tivesse dinheiro, já teria substituído todas as paredes de madeira por outras de alvenaria. Como não tenho, vou fazendo a reforma aos poucos”, conta Elias Floriano Filho, morador da Vila Cardia.
Há ainda um terceiro perfil entre os responsáveis por fazerem sobreviver em Bauru os imóveis de madeira: os apaixonados pelo material. Crentes de que a madeira é capaz de trazer sensação de aconchego, além de ser chique e, se reciclada, ecologicamente correta, há quem faça questão de morar em um imóvel de madeira, como o artesão João Gomes.
“Diferente do concreto, a madeira não é um entulho para a natureza. Claro que estamos falando de madeira reciclada, e não de madeira de lei”, pondera ele, que tem uma casa de dois andares feita com o material.
Tendência ao desaparecimento
Na opinião do arquiteto Cláudio Ricci, a tendência é que as casas de madeira, aos poucos, caiam em desuso. Segundo ele, o material funcionou durante muito tempo por conta de seu pequeno custo e pelo fato de, na época, ser uma técnica de construção simples.
“Atualmente, não vejo benefícios neste tipo de construção. Primeiro por conta da necessidade de preservação da madeira, que está cada dia mais escassa. Segundo, porque a madeira é um material quente, o que prejudica o conforto térmico. Outro ponto negativo é a facilidade de contaminação por pragas”, enumera ele, que acrescenta ainda que, nos dias de hoje, a mão de obra especializada em madeira é rara e cara.
Segundo o arquiteto, atualmente, a construção civil traz inúmeras alternativas para quem quer manter o charme e a sensação de conforto típicos da madeira sem perder em qualidade.
“Temos pisos, portas, detalhes que imitam a madeira. Estes artifícios são melhores em qualidade e manutenção. A madeira, em si, é de difícil trato e exige manutenção constante”, pontua.