Eles se encontram em Ubatuba, litoral norte, há mais de 20 anos. Ela, Elaine Alves Pereira, 49 anos, professora. Ele, uruguaio, Yamandú Rodrigues Villalba, 69 anos. Combinaram uma aventura pelo mar com um veleiro e viveram juntos situações inusitadas. O casal, que na semana passada estava em Barra Bonita a bordo de um catamarã, parte agora para uma aventura em água doce. Vão navegar pelo Tietê/Paraná. Podem pesquisar dados sobre a qualidade e vida nas águas dos rios, mas esse projeto depende de patrocinador.
“Eu moro no Brasil há 59 anos. Fui escoteiro e, indo para a Europa, parei em São Paulo e me apaixonei pelo Brasil. Casei, tive duas filhas, descasei e encontrei a Elaine, com quem divido minhas aventuras. Moramos em Ubatuba, no meio da mata. Já fizemos toda a costa brasileira em um veleiro. Agora, vamos navegar pela hidrovia com um catamarã.”
Ele conta que, em 1981, vendeu a parte dele em uma empresa e comprou um barco sem motor. “Fiquei navegando pela costa brasileira. Isso mudou completamente a minha cabeça. Comecei a tentar convencer a Elaine a ir para o Caribe, mas não consegui. Preparamos tudo e ela tirou licença do Estado. Fomos para o Sul, só que 47 milhas antes de chegar em Florianópolis pegamos uma tremenda tempestade. Foi brutal, a bateria saiu do lugar, estava entrando água no tanque de combustível, ficamos à deriva. Nosso barco foi parar a 140 milhas. Isso significa que ficamos a 300 quilômetros para fora, no mar. Para conseguir voltar, foi difícil. Ela, uma mineira que não sabe nadar, chegou a prometer que nunca mais iria para o mar.”
O trauma foi terrível e a professora não voltou com o marido pelo mar. “Chegamos em Joinville. Ela foi para o Uruguai de ônibus. Eu fui no barco sozinho, fiz Rio Grande, costa do Uruguai, Argentina. Nos encontramos em Florianópolis. Chegamos a Ubatuba e preparamos o barco com equipamentos e planejamos a viagem para o Caribe. Saímos para o norte da Bahia. Era tão bonito que eu falei: ‘Acho que vou mudar, vamos fazer toda a costa brasileira’. Navegamos de Ubatuba até Belém do Pará. Depois, entramos no Amazonas. Foram 8 meses entre ida e volta.”
Para viajar pelos rios, o uruguaio preparou o catamarã. “Esse barco é feito fundamentalmente para isso. Embaixo é muito forte. Entra em qualquer lugar e está completo. Temos aqui tudo o que precisamos. Toda ferramenta para desmontar o motor, furadeira e muito combustível. Temos um quarto de casal, uma cama beliche, banheiro com tratamento de efluentes, cozinha e varanda.”
Apesar da experiência acumulada, Villalba confessa que quem diz que não tem medo de passar mais de dois dias em alto mar em um veleiro é insano.
“Sempre gostei de velejar. Aos 16 anos fiz uma viagem para Uruguai, Argentina e Brasil com uma pequena velinha. O medo é latente e não podemos negar”, afirma.